4. AUDIÊNCIAS PÚBLICAS: QUE HISTÓRIA ELAS CONTAM?
5.4. REIVINDICAÇÃO DO DIREITO À CIDADE E CIDADANIA
Além do valor das propriedades, o que se pode entender também é uma mudança na sociabilidade na metrópole. Ainda seguindo o estudo de Caldeira (2011), essa terceira onda de segregação nas cidades a partir dos “enclaves fortificados”, da nova forma de diferenciação entre classes, a percepção das pessoas moradoras de bairros antigos é de que perderam os aspectos que distinguiam as classes e que poderiam ser vistas nas ruas, como o uso de luvas e gravatas. Por isso que novos símbolos precisavam ser criados, o que se dava, à época, pela separação física e “espaços de circulação controlada (como shoppings centers)” (p. 325) e que permitia criar uma barreira entre os pobres e os não-pobres na cidade.
A elite se retirou para seus enclaves, deixando o espaço público para os pobres, diminuindo os espaços de interação entre classes, acirrando a relação entre elas. Esse processo teve uma consequência grave e duradoura, que foi a intensificação dos estereótipos de pobreza com a criminalidade, sendo “tensão, separação, discriminação e suspeição” o que determina a vida pública na cidade (CALDEIRA, 2011, p. 301).
Nesse contexto se faz necessária a retomada das reivindicações pelo direito à cidade, questão presente nas audiências principalmente por parte dos movimentos de moradia e outros participantes que se posicionaram a favor da demarcação de ZEIS. O termo “direito à cidade” é alvo de disputas com relação ao seu significado e a sua origem. Contudo, como bem pontua Tavolari (2016), analisando sua incorporação no contexto brasileiro, tanto na academia quanto nos movimentos sociais, o que se evidencia é a sua utilização para contemplar diversos direitos de forma conjunta, de unificar uma demanda que “não cabe exatamente nas categorias institucionais existentes” (p. 105). Mais do que isso, sua utilização contemplaria noções de
“democracia, cidadania e autonomia” (p. 102), ampliando o escopo de lutas e mobilizações e sendo “depositária das expectativas de mudança, das projeções de justiça, democracia e igualdade na cidade” (p. 106).
Partindo do que estabelece Harvey (2013), essa demanda pela cidade envolve uma discussão sobre os “vínculos sociais” desejados, além de “relacionamentos com a natureza, estilos de vida, tecnologias e valores estéticos nós desejamos”. Para o autor, “direito à cidade”
deveria ser visto “como slogan e como ideal político, precisamente porque ele levanta a questão de quem comanda a relação entre a urbanização e a produção do lucro” (HARVEY 2016).
Então eu acho que todos têm direito à cidade. Essa é a luta dos movimentos de moradia. A cidade é para todos (EXECUTIVO 2 _ 3).
Não aceitaremos visões excludentes, segregacionistas, que por anos a fio expulsaram e empurraram os mais pobres para as zonas mais distantes das oportunidades de emprego, educação, saúde e cultura. Não podemos aceitar o apartheid social.
Queremos uma cidade que propicie o encontro, a diversidade no acesso de bens e serviços [vaias e gritos] e as oportunidades. Nesse sentido, exigir nenhuma ZEIS a menos significa democratizar o direito à moradia e à cidade [grito]. Ou seja, não pode ser reduzido o volume de ZEIS já demarcadas, nem alterada sua localização pelos motivos que apresentamos. Demarcação de ZEIS é um dos principais instrumentos da política fundiária atuais, essencial na garantia do acesso à terra à população de baixa renda. Perímetros de ZEIS localizados em regiões centrais são instrumentos fundamentais pra efetivação do direito à moradia digna e combate ao déficit habitacional do município, contribuindo para a permanência da população de baixa renda no centro, em áreas com infraestrutura urbana consolidada e também para a diminuição dos deslocamentos diários que impactam o meio ambiente, aproximando trabalho e moradia [vaias, assobios], inibindo o espraiamento da cidade…
(EXECUTIVO 2 _ 6).
Kowarick também trata da questão a partir da ótica da cidadania e da subcidadania, ao tratar da “espoliação urbana”, ou seja, as privações sistemáticas que sofrem os pobres na cidade e que o levam a uma condição de subcidadania, rapidamente transformada em periculosidade. Essa condição, contudo, tende a constituir também um processo de reivindicação de direitos, no sentido mais amplo do termo, entendendo que o contrário
“constitui injustiça, indignidade, carecimento ou imoralidade” (KOWARICK, 2000, p. 107).
É nesse sentido, por exemplo, a reivindicação dos representantes de movimentos por “direito” ou “justiça”. O conceito é mobilizado de maneira a contemplar todo o processo de exclusão sistemática sofrido ao longo dos anos e sem perspectiva de melhora, a não ser por uma mudança definitiva no modo de produzir e reproduzir a cidade.
Não pensem mal do movimento, vão conhecer primeiro o movimento para vocês saberem quem é, aí sim, eu vou poder concordar com vocês ou não, tá gente? Ninguém quer tomar o lugar de ninguém, nós só queremos o que é nosso por direito (MOOCA _ 14).
Nesse sentido, vai ao encontro do que Harvey (2014) aponta como reivindicação do direito à cidade, de “reivindicar algum tipo de poder configurador sobre os processos de urbanização, sobre o modo como nossas cidades são feitas e refeitas, e pressupõe fazê-lo de maneira radical e fundamental” (HARVEY, 2014, p. 30). Aos movimentos, a noção da espoliação é mais clara, por isso a argumentação tende a ligar mais diretamente as causas e consequências da urbanização.
Além da pauta mais forte de demarcação de ZEIS nas áreas consolidadas e centrais, surge também como demanda a infraestrutura nas regiões periféricas, principalmente o incentivo às indústrias e serviços e a consequente geração de empregos. Para aqueles que já vivem na periferia, era um pedido de fato de melhoria nas suas regiões e, novamente, a acentuação da forma desigual de ocupação da cidade, a busca por maior segurança e menor solidão das periferias (KOWARICK, 2013).
A demanda dos movimentos vai ao encontro das discussões sobre a forma como se deu e como se dá a ocupação da cidade pelos grupos de renda baixa, marcado por “padrões de diferenciação social e de separação” (CALDEIRA, 2011, p. 211). O modo de produção capitalista da cidade se deu de forma a transmitir ao trabalhador o custo da moradia, que passou a ser garantida pela autoconstrução nas áreas periféricas, já que nesses locais os terrenos eram acessíveis (MARICATO, 1979). O centro, com sua infraestrutura, passa a ser habitado só por aqueles que têm uma renda mais alta e a favela, ao lado do cortiço, acabam por ser, segundo Kowarick (2000), “o último reduto da escala habitacional, pelas deterioradas condições materiais e simbólicas de existência presentes nessas modalidades de habitação” (p. 87).
Mais do que isso, entendem que não se trata de uma mera exclusão gerada por leis que em muitos momentos até tentam vencer a barreira da segregação e promover algum tipo de mudança para os locais que demandam todo o tipo de serviços e infraestrutura. Trata-se de um entendimento de um “processo político” que formata a cidade e a torna profundamente excludente, determinando a “condição de subcidadania urbana” (KOWARICK, 2000, p. 54).
Retomando a questão da perspectiva neoliberal, ela também determina um tipo de cidadania, que é justamente oposta àquela reivindicada por esses participantes de pertencimento e participação nas relações sociais, voltando para uma concepção individualista, marcada principalmente pela relação entre o cidadão e o mercado (DAGNINO, 2004). Essa intensificação do projeto segregador pode, inclusive, ser atribuída a uma reação ao processo de democratização, “uma vez que funciona para estigmatizar, controlar e excluir aqueles que acabaram de forçar seu reconhecimento como cidadãos, com plenos direitos de se envolver na construção do futuro e da paisagem da cidade” (CALDEIRA, 2011, p. 255).