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IV. Defesa do paradigma e manutenção de fronteiras

4.5. Relação com as Fontes e rotinas de trabalho

No que diz respeito a rotinas de trabalho, a parceria da WikiLeaks com a imprensa tradicional despertou uma discussão sobre a importância e necessidade do jornalismo baseado em análise de base de dados (Ibidem, p.33). Segundo Rogers, ex- editor do Guardian, a WikiLeaks foi decisiva para acelerar a implementação do

56 jornalismo de dados nas organizações jornalísticas. Não inventou o género, mas deu razões às redacções para implementá-lo (Rogers, 2011)86.

Com o decorrer da parceria, várias organizações jornalísticas foram alertadas para a necessidade de se preparem para situações semelhantes — trabalhar sobre uma quantidade massiva de informação — no futuro. No entanto, a probabilidade de fugas de informação da dimensão dos Diários e do Cablegate se tornarem regulares é muito reduzida. Mas se as organizações iniciarem movimentos de melhoria para a realização de jornalismo de dados, estarão melhor preparadas no futuro. Além de terem acesso a bases de dados fornecidas pelos governos, graças a iniciativas como o open government, poderão também recolher e trabalhar dados mais sensíveis e secretos, por iniciativa própria (Baack, 2011, pp.7-8).

Um dos elementos basilares, deste valor das rotinas de trabalho, é a relação dos repórteres com as fontes. Para o New York Times, a WikiLeaks não agiu de forma responsável. Não contactou com o governo dos Estados Unidos, e por isso o New York Times teve de funcionar como intermediário, gerindo o conflito gerado pelas divulgações da parceria. Ao contrário da retórica do New York Times, crente numa relação cordial entre as instituições e na autoridade que estas representam para sociedade, o Guardian demonstrou maior cepticismo. Esta diferença de atitudes traduziu-se numa cobertura das revelações, menos preocupada da parte do Guardian, com as repercussões que podessem daí advir (Coddington, 2012, pp.386-388).

Um dos problemas encontrados por García centra-se nesta relação fundamental entre os jornalistas e os órgãos de comunicação social com as fontes. As fontes fornecem informação aos jornalistas. No entanto, as fontes variam no que diz respeito ao grau de poder e influência que possuem. Isso significa que nos meios de comunicação poderão existir fontes mais representadas do que outras. Em termos práticos alguma da informação que é seleccionada pelos órgãos noticiosos para integrar na agenda mediática é controlada previamente por algumas fontes que acabam por ser, segundo a autora, “híper-representadas” no espaço mediático. Os jornalistas contam com as fontes de informação ligadas aos “centros de poder”, ou “fontes oficiais”, e estas

86Simon Rogers (2011) WikiLeaks data journalism: how we handled the data. Guardian. [Internet]

Disponível em <https://www.theguardian.com/news/datablog/2011/jan/31/wikileaks-data-journalism> [Consult. 6 de junho 2019].

57 asseguram um lugar no espaço mediático para propagar a sua versão dos factos. García diz-nos, por exemplo, que a presença de fontes oficiais nos órgãos de comunicação social espanhóis é hegemónica.

A maior parte da informação na imprensa provém de fontes institucionais oficiais. Assim, os media acabam por ser um espaço em que as fontes dominantes lutam para se impor, e isso empobrece o debate público. Atendendo a este contexto, a WikiLeaks surge como um elemento desestabilizador deste sistema. Apresentou ao público a diferença entre os discursos oficiais e a actuação real do poder. Isto significa que não só expôs governos e empresas, mas também os meios de comunicação, pela sua incapacidade de ir além dos discursos oficiais das instituições (García, 2012).

As fontes da WikiLeaks podem fornecer informação e permanecer anónimas até para a própria organização, e esta assume a responsabilidade de as proteger. A significância da informação em termos de interesse público, e a verificação da sua autenticidade, sobrepõem-se às motivações da fonte, tal como no jornalismo.

Segundo García, ao contrário dos produtos jornalísticos completos, a Wikileaks não constrói um texto sobre a informação que recebe das suas fontes. Foca-se principalmente em verificar se a informação é ou não genuína, e se é ou não relevante. Não recorre a repórteres para acrescentar à informação. Portanto, do ponto de vista da autora, a WikiLeaks não é um trabalho jornalístico puro. Mas reúne algumas características elementares do jornalismo (Ibidem).

4.5.1. Verificação

Para Azeredo Lopes, a Wikileaks deve ser considerada uma fonte, e por isso uma parte interessada. Não emprega as rotinas de trabalho dos jornalistas profissionais. Funciona como um depósito de informação “em bruto”, para fontes anónimas que ali depositam informação conforme os seus interesses, ainda que, como observa Pacheco, a WikiLeaks verifique a informação recebida antes de a publicar (Pacheco, 2011, p.34). García (2012), acrescenta que essa verificação impede as fontes anónimas de instrumentalizarem a organização, “plantando informação” falsa por exemplo. Apesar da autenticidade dos documentos publicados pela WikiLeaks nunca ter sido contestada, Beckett e Ball mencionam que esse processo de verificação da informação, que configura a rotina de trabalho jornalístico, foi conduzido pela WikiLeaks de “forma

58 muito informal”. Nas fases iniciais do website, a organização divulgou alguns documentos com base no critério de autenticidade, mas que os próprios membros consideraram de pouco valor editorial, como documentos internos de fraternidades universitárias norte-americanas. O procedimento de verificação variou de acordo com cada fuga de informação e a sua especificidade. O único caso de colaboradores enviados ao terreno para apurar factos, foi o do Collateral Murder (Beckett & Ball, 2012, p.73).

Beckett e Ball dizem-nos que apesar de a WikiLeaks afirmar que procederam a análises e a verificações cuidadosas dos documentos, não existem exemplos para confirmar a qualidade dos processos levados a cabo pela organização. Posto isto, os autores questionam a responsabilidade e a capacidade da WikiLeaks para analisar os documentos, ou avaliar as implicações que tais podem ter quando publicados (Ibidem). As questões levantadas quanto à responsabilidade e qualidade das rotinas de trabalho da WikiLeaks foram mitigadas pela parceria com imprensa tradicional. Que, segundo os autores, demonstrou e reforçou a necessidade de profissionais, capazes de tratar a informação:

“(…) a estratégia de Assange passou a reconhecer que, com estas fugas, havia demasiada informação, e que necessitava da plataforma dos media tradicionais para amplificar o seu impacto. Na prática, isso também significou adaptar-se aos procedimentos e valores dos media tradicionais. Assim que a WikiLeaks aceitou a necessidade de edição dos documentos, para evitar danos, por exemplo, comprometeu a pureza da sua missão. Ao colaborar com os media tradicionais eles ganharam uma plataforma, mas uma que insistiu em direitos editoriais. Para tornar a informação significativa e acessível, os seus parceiros profissionais transformaram-na em gráficos interactivos e apelativos, seleccionaram as declarações mais relevantes e prioritizaram as histórias mais dinâmicas” (Ibidem, p.74).

Nesta perspectiva, a WikiLeaks conseguiu através desta parceria um selo de qualidade. Ao comprometer-se a incorporar os procedimentos dos media tradicionais, fornecendo-lhes a informação, a organização estava a tomar uma atitude responsável. Isto porque os jornais dispunham da credibilidade, estrutura, recursos e conhecimentos necessários para trabalhar sobre a informação e apresentá-la da melhor forma ao público. O que, na prática, é o argumento da competência dos jornalistas para recolher e tratar informações (Mesquita, 2004, pp.72-73).

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