• Nenhum resultado encontrado

5.3 Esforços de cocriação de inovação aberta em companhias de saneamento

5.3.1 Principais parceiros

5.3.1.1 Relação com fornecedores

Segundo Chesbrough (2012), os fornecedores constituem um importante agente para desenvolver novas tecnologias, tornando mais ágil o processo de invenção. No entanto, eles podem levar para o mercado as ideias produzidas internamente, o que pode se revelar um grande risco para as empresas de verem suas inovações escoando para o mercado sem serem utilizadas por elas em primeiro lugar. Nas companhias pesquisadas, não há ideias “paradas nas prateleiras” que esteja sendo comercializada no mercado, na percepção dos entrevistados, tudo o que é produzido internamente por completo é utilizado nos processos. Por outro lado, existem projetos inacabados ou parados dentro das companhias.

De um modo geral, os fornecedores são percebidos como grandes impulsionadores dos processos de inovação, sendo detentores da maioria das novas tecnologias introduzidas no mercado, segundo os entrevistados. O entrevistado C3 evidencia essa afirmação: “[...] tudo bem que a ideia foi nossa, a gente já sabia que a coisa podia acontecer, mas teve uma participação importante deles, eu entendo que esse é um exemplo

bacana, que acabou envolvendo eles, o conhecimento deles também [...]” (ENTREVISTADO C3, 2019), o que corrobora com os achados de Gava (2015).

Conforme destacado no item 5.4.1.3, muitas vezes os resultados da relação com as companhias é a obtenção de eficiência interna por parte das mesmas e know how e exploração comercial por parte dos fornecedores, gerando patentes e ganhos econômicos e em poucos projetos algumas companhias, notadamente aquelas com processo de inovação semi acoplada, recebem um pequeno percentual em cima das patentes geradas pelos fornecedores.

O entrevistado C2 evidencia esse argumento: “É fornecedor: é uma empresa que trabalha na área de esgoto, mas ele também nunca usou a nanobolhas, então isso é uma novidade pra mim, mas é novidade pra ele, e aí entrou um terceiro componente no assunto, se esse assunto for exitoso vai ser exitoso pra Companhia C” (ENTREVISTADO C2, 2019). Essa integração muitas vezes é exitosa gerando conhecimento para ambas as partes, no entanto, uma lacuna detectada nas entrevistas é a ausência de instrumentos eficazes para regular a relação, tornando muitas vezes o fornecedor detentor do conhecimento, conforme já apontado anteriormente.

O quadro16 apresenta a conexão entre os achados e os elementos da cocriação de Prahalad e Ramaswamy (2004).

Cias.

DART

Relatos

Diálogo Acesso Risco Transparência

1 - Existem regras de envolvimento 2 - Foca no assunto que interessa a ambos. 1 – Informação e ferramentas 2 – Instalações internas 1 – Perdas financeiras 2 – Vazamento de informações 1 – Estabelecimento de diretrizes 2 – Instrumento de formalização A 2 1 e 2 1 e 2 2

“[...] hoje em dia a gente está sempre se atualizando, os próprios fornecedores nos trazem as tecnologias que os outros estão utilizando” (ENTREVISTADO A2, 2019)

B 2 1 e 2 1 e 2 1 e 2

“Então a gente tem isso, assim, e quem acessa aquilo, é muito fornecedor né, então com fornecedor a gente tá bem consolidado porque o cara vem, bate na tua porta, te procura, vem aqui [...]” (ENTREVISTADO B5, 2019) “[...] um dos diagnósticos é que o saneamento, nós somos reféns do fornecedor, que o Quadro 16 – DART na relação com fornecedores

A formalização para grande parte das companhias ocorre quando é realizada a compra de novas tecnologias, por meio de processo licitatório, mas não foi detectado instrumento formal que estabeleça diretrizes para o processo. Na companhia E foi identificada somente a compra da solução tecnológica, então não foi possível identificar se há cocriação com os fornecedores. O item que obteve maior lacuna é a transparência que não é formalizada, na maioria dos casos, o que confirma o resultado evidenciado em itens anteriores: o fornecedor desenvolve e depois comercializa, muitas vezes sem pedir o aval da companhia. Outro elemento não identificado na pesquisa é a avaliação dos riscos. Parece que a avaliação é tímida ou ausente, pois os relatos apontam para problemas que já ocorreram, sem mencionar ações proativas como elaboração e classificação dos riscos ao realizar a co- criação com os fornecedores.

C

2 2 1 e 2 1

fornecedor na verdade o que ele quer é que a gente de adeque à tecnologia dele e não pode ser isso, então a gente tem que ter essa integração com o fornecedor pra ele saber a nossa realidade e trazer tecnologia que se adeque à nossa realidade, não a gente adequar a nossa realidade à tecnologia dele, isso é inovação aberta também.” (ENTREVISTADO C1, 2019)

D 0 0 1 e 2 0

“[...] às vezes a gente verifica que nessa situação eles querem às vezes é ter um atestado em mãos, então a gente está tomando cuidado pra isso pra que esses convênios que são firmados com a área do Samir, que eles sejam bons para os dois.”

(ENTREVISTADO D2, 2019)

E 0 0 0 0

“[...] aí a E [...] veio e propôs a solução, então foi contratada.” (ENTREVISTADO E3, 2019)

F 2 1 e 2 0 0

“[...] e fornecedores também emprestam, demonstram, trazem equipamentos pra que a gente avalie ou desenvolva alguma melhoria ou alguma internalização desses equipamentos, em termos de infraestrutura e RH tem essa abertura, essa cooperação” (ENTREVISTADO F2, 2019) Fonte: elaborado pela autora, com base nos dados da pesquisa (2019)

Prahalad e Ramaswamy (2004) asseveram que a associação do acesso com transparência aumenta a capacidade dos consumidores de realizar avaliações para decidir a compra. Traduzindo essa afirmativa para este estudo, percebe-se que a capacidade de decisão das companhias fica reduzida, pois o acesso é dado aos fornecedores às instalações e aos equipamentos da empresa, mas não existem regras para estabelecer, por exemplo, o grau de captação de dados e de disponibilização para o mercado. No caso da combinação entre diálogo e avaliação de risco, nota-se a baixa aderência desse elemento no caso das companhias, o que pode estar acarretando os problemas enfrentados pelas companhias, como por exemplo, tornarem-se “reféns” do fornecedor, conforme apontou o entrevistado C1, descrito no quadro 16. Surgem então, oportunidades de melhoria para que as companhias possam se relacionar com mais eficiência com seus fornecedores, importante destacar as seguintes melhorias: avaliação de riscos e elaboração de instrumentos que formalizem a colaboração.

Por outro lado, da associação do acesso com diálogo, nota-se que a maioria apresenta pontuação para ambos, o que evidencia a capacidade de manter esse tipo de parceria, explicando o que foi apontado nos questionários, conforme já relatado.

Os resultados também corroboram com a base teórica de Gassmann e Enkel (2004), no que diz respeito à importância das capacidades inovadoras dos fornecedores e à exploração dos fatores de sucesso e das questões críticas junto aos mesmos para que as companhias obtenham benefícios estratégicos, tais como: descontos, melhores características do produto, redução dos riscos técnicos e maior rapidez na entrega: “Pra gente acho que a gente ganha mais desenvolvendo fornecedor, a gente ter fornecedores com qualidade pra poder fornecer pra Sabesp a um custo melhor.” (ENTREVISTADO C1, 2019). Nesse viés, sugere-se, para estudos futuros, a investigação/elaboração/validação de metodologia para realizar de forma mais eficiente as parcerias com fornecedores e uma normatização que contenha: regras, diretrizes e os resultados esperados, bem como métricas de desempenho.