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Esquema 2 – Forma de interação do Grupo II

4. REFLEXÕES A PARTIR DO MATERIAL

4.1 Relação com a música

Para a entrevista inicial utilizamos como recurso uma pergunta-disparadora: Qual a sua relação com a música? Esta pergunta inicial serviu para que pudéssemos nos aproximar do contexto de vida de cada indivíduo, especialmente em relação à música, e dos significados da música para eles. Levamos em conta, ao escolher essa pergunta disparadora, que os entrevistados poderiam ser levados a se perguntarem sobre: “O que exatamente ela quer saber com essa pergunta?”. Interessava, neste momento da pesquisa, que pudessem surgir diferentes perspectivas e compreensões da pergunta, já que se buscava conhecer diferentes realidades e perspectivas a respeito do que era música e de como ela fazia parte da vida de cada um; surgindo, daí, o sentido “disparador” da pergunta, conforme encontramos na literatura (Giorgi, 1985/2000; Amatuzzi, 2003;

Holanda, 2003, 2006).

Bohlman (1999), em seu texto Ontologies of Music, discorre a respeito de diferentes compreensões da música. Ele relata sobre a complexidade do conceito e como a música pode significar um sentimento, uma emoção, uma sensação, pode ser algo que serve para a dança, para a reza ou para o amor, ou em algumas culturas, ela está tão intrínseca aos afazeres culturais que não há um momento de parada para escutar música.

As entrevistas iniciais foram realizadas com 11 participantes. Ao discorrerem sobre sua relação com a música eles relataram sobre: se escutavam música ou não no seu momento atual; se houve mudanças ocorridas em sua relação com a música e quais eram estas; sobre a relação de seus familiares com a música; a música em seu cotidiano; a

música em sua história de vida; sobre como a música os afetava (sentimentos, alucinações, alteração do humor, lembranças), etc. Ao analisar as entrevistas iniciais algumas estruturas essenciais foram percebidas em seus discursos: a presença ou ausência da música em suas vidas, e respostas eliciadas pela música. Um dos temas trazidos a respeito de suas relações com a música foi em relação a presença ou da ausência da música em seu cotidiano. A tabela abaixo mostra os integrantes que se enquadraram em cada categoria:

Escuta ou não música Nº Integrantes

Não escuta mais música 5 RO LU MA VA HI Escuta pouca música 3 NEI LI AN Escuta música regularmente 3 ZI MO WO

RO, LU, MA e VA declararam não ouvir mais músicas e evitam lugares com música, enquanto que HI relatou que depois que se afastou de seus filhos parou de cantar as músicas do Elvis, que costumava cantar para seus filhos. Alguns relatos:

Não escuto música (MA)

Minha relação com a música era quando eu era feliz [...] Aquela alegria ... Aquela vontade de cantá as músicas do Elvis acabou (HI).

ZI, MO e WO discorreram em suas entrevistas sobre como gostam de música e a importância desta em suas vidas:

A música sempre foi uma coisa na vida muito profunda [...] Eu acho que toca na alma (WO)

Eu não consigo viver sem música. (MO)

Os cinco participantes que relataram o seu afastamento da música disseram que costumavam escutar música. Eles apontaram um evento ou um momento no qual houve essa ruptura: morte ou afastamento do(s) filho(s) ou adoecimento. Além deles, uma das participantes (AN), que declarou ouvir pouca música, disse que reduziu seu contato com a música (passou a ouvir somente música religiosa) depois da morte de seu filho. Ao serem questionados se sua relação com a música sempre havia sido assim, os participantes relataram:

Não. Depois que, que eu perdi meu piá ... Faz quatro anos (AN)

Antes eu gostava [...] depois passei a ficar doente, a partir do momento que eu comecei a adoecer eu acabei me afastando da música (RO)

Não. Acho que depois mais que eu, que eu fiquei com, que entrei em depressão (MA)

Alguns não souberam ao certo a razão desse afastamento, outros discorreram sobre o porquê pararam de escutar música:

Ela traz muitas lembranças [...] fico muito agitada ... começo a escutar voz (RO) Por causa da vontade [...] de algumas coisas, vamos dizer assim, da vida [...]

Mais autoestima, como diz a doutora. A autoestima minha tá muito ainda pra baixo, ainda. (LU)

Ah, é ruim né. Eu me sinto mal ... Me dá tristeza (AN)

Nestes relatos pudemos perceber um afastamento da música de mais da metade dos integrantes do grupo. Esse grupo representa aqueles que se relacionavam com a música regularmente: escutavam músicas, cantavam, frequentavam locais com música, escutavam música em família ou com amigos, tinham grupos e estilos musicais favoritos e que, por uma crise suscitada por perdas ou outros tipos de sofrimento, cessaram essa busca pela música. A relação que estes indivíduos possuíam com a música se modificou.

Houve também outros afastamentos de atividades, trabalho, festas de família, entre outros. Porém, o afastamento da música será o foco da discussão, pois acreditamos que este afastamento pode clarificar outros afastamentos.

Elaborando mais profundamente essa questão, podemos pensar que a música, as sonoridades do mundo não desapareceram das vidas desses indivíduos, eles ainda possuem uma relação com a música, porém esta sofreu uma grande transformação. Nossa relação com a música está em constante transformação, como indivíduos e como humanidade. Mas, é interessante observar o que a nossa relação com a música nos diz de nós mesmos. O que as transformações dessa relação dizem sobre nossas vidas?

Segundo Pavlicevic (2006), as experiências que vivemos impactam a forma como nos vemos, como pensamos a nós mesmos – ou nossa relação com o mundo – e isso irá

impactar nossa musicalidade11. A música é parte de nossa vida pessoal, social e cultural.

Segundo Ruud (1998), nossa identidade pessoal e social pode ser refletida e gerada pela música, pois ela possui um importante papel na construção, manutenção e transformação de nossa identidade. A música serve como matéria prima na edificação de valores, orientações, conceitos e características pessoais; uma forma de dar contorno ao contexto de um certo período de nossas vidas; uma estrutura que pontua e une momentos significativos, como uma forma de posicionar a nós mesmos dentro de nossa história e nossa cultura. No caso de alguns desses participantes, podemos perceber que houve um momento ou uma situação vivida de quebra de algumas referências e nelas a música também acabou se perdendo enquanto tal. Como exemplo, temos a fala de VA, que relata ter parado de ouvir música depois que seus filhos morreram.

Não lembro da música, adorava, adorava ... Sempre gostei de música lenta ... Não me lembro de algum lugar com música nenhuma (VA).

Houve uma quebra dessa relação com a música, a forma como ela se dava não pôde mais continuar. Passamos então a atentar a como esses indivíduos responderiam a esse reencontro com a música. Segundo Ruud (1998), os sons e as músicas podem representar memórias, associações, histórias, situações, nas quais subjetividade e realidades vivenciadas são representadas. A complexidade dos efeitos da música é imensa. O relato de que a música suscitava lembranças esteve presente em muitas falas, tanto dos indivíduos que não escutavam mais música, quanto daqueles que ainda escutavam. Também foram mencionadas diferentes respostas que cada integrante possuía diante a escuta ou produção da música.

Respostas eliciadas pela música Nº Integrantes

Lembranças 7 ZI RO NEI VA HI AN LI

Agitação e alucinações auditivas 1 RO Sentimentos:

- Felicidade 1 LI HI - Tristeza 3 AN VA ZI

- Alegria 5 LU AN MO HI NEI - Irritação 1 MA

- Sentimento espiritual 1 WO - Paz/Calma 2 RO NEI

11 Ansdell (2004) define musicalidade como a capacidade humana para responder e fazer música.

Podemos observar que houve sete relatos que remetiam ao fato da música suscitar lembranças da história de vida de cada um, de pessoas, de períodos ou momentos da vida.

Também podem ser observados que todos os entrevistados mencionaram que a música suscitava sentimentos. Um dos relatos associa a música às respostas de agitação e alucinação auditiva. Como pudemos perceber a música pode suscitar diferentes respostas para cada indivíduo, mas as respostas de lembranças e sentimentos foram as mais mencionadas, e é importante ressaltar que muitas vezes os sentimentos estavam associados às próprias lembranças.

Para melhor compreender essas respostas suscitadas pela música buscamos pesquisas nas neurociências. As funções musicais no cérebro são complexas, múltiplas e de localizações assimétricas, envolvem o hemisfério direito e esquerdo (Muszkat, Correia

& Campos, 2000). As neurociências têm evoluído com rapidez na compreensão dos efeitos da música no cérebro, na audição, composição, execução ou apenas no ato de imaginar uma peça musical. A música possui uma representação neuropsicológica extensa, ela ativa áreas límbicas cerebrais, que controlam nossos impulsos, emoções e motivação; estimula a memória não-verbal; tem acesso ao sistema de percepções integradas que unificam as várias sensações (gustatória, olfatória, visual e proprioceptiva), em um conjunto de percepções que permitem integrar as várias impressões sensoriais em um mesmo instante, como uma lembrança (Muszkat, Correia &

Campos, 2000), o que podemos identificar no seguinte relato:

Me dá recordações, me faz chorar, me faz sorrir [...] me transmite vida, e às vezes tristeza, lembranças boas, lembranças ruins (ZI)

Ruud (1998) discorre sobre a ligação da música com a nossa identidade. A música está intimamente ligada ao tempo e espaço, podendo marcar eventos ou épocas importantes da vida; dá a base para uma organização temporal, coerência e continuidade ao tempo que passa (músicas da infância, bandas favoritas da adolescência, por exemplo).

A música nos ajuda a construir uma representação da história de quem somos, da onde viemos, quais nossas influências.

Alegre ... Pra limpá a casa ... A música ajuda bastante (LU)

Ah, é ruim né. Eu me sinto mal ... Me dá tristeza [...], [antes] eu ficava alegre [quando escutava música] (RO)

Me irrita ... me irrita quando fica muito alto (MA)

Algumas pesquisas que tratam da temática da música no cotidiano trazem resultados semelhantes. Pacheco & Cunha (2011), em pesquisa sobre o cotidiano de jovens e idosos, relatam que as músicas escolhidas pelos participantes, para serem ouvidas em seu cotidiano, estavam relacionadas à expressão de estados emocionais e a eventos vivenciados em suas histórias de vida, e que a música, com as quais as pessoas conviviam, permitia aos indivíduos um contato com sentimentos próprios e despertavam lembranças. Além disso, a música e as sonoridades presentes em sua história de vida estavam diretamente relacionadas ao desenvolvimento de seus processos psíquicos, às formas como se constituíam e as suas formas de ação no mundo.

Já Ilari (2006) realizou sua pesquisa com jovens com o objetivo de investigar o papel da música na atração interpessoal, escolha de parceiros e relacionamentos afetivos.

Uma das solicitações de sua pesquisa era que os participantes descrevessem um episódio em que a música teve um papel importante em suas vidas. E 92% dos participantes puderam recordar um evento com tal especificidade, levando à conclusão que a música constitui um artefato mnemônico que pode estabelecer ligações entre pessoas e eventos vivenciados, o que ajuda o indivíduo a armazená-los na memória. Em ambas as pesquisas todos os participantes relataram escutar música em seu cotidiano, diferentemente do resultado das entrevistas iniciais realizadas em nossa pesquisa.

Estes relatos trazem à tona a possibilidade de discussão sobre o papel da musicalidade nas relações que o homem estabelece com o mundo e como a música pode nos afetar, nos fazendo lembrar, nos emocionar e reviver momentos e situações de nossa história. E o quanto isso fala da relação estabelecida entre a música, musicalidade e subjetividade. A partir dessa relação o trabalho da Musicoterapia pôde ser desenvolvido, apostando que a música iria mostrar realidades subjetivas, contextos de vida, e que a partir dela é possível realizar uma clínica.

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