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Relação com o Público e com o Interesse Público

No documento NOVO OLHAR SOBRE OS TELEJORNAIS POLICIAIS (páginas 59-63)

Gêneros Televisivos

2.2. O Formato dos Telejornais Policiais

2.2.2. Relação com o Público e com o Interesse Público

Por se tratarem de práticas identificadas com o jornalismo, as diferenças entre os telejornais policiais e os telejornais de referência vão além do campo

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“Entrevistas feitas aleatoriamente com pessoas na rua para colher uma amostragem de opinião sobre tema específico” (BISTANE; BACELLAR, 2005, p. 136).

estritamente técnico da produção. Ainda trabalhando as distinções entre esses dois formatos (subgêneros), tomando como parâmetro a iluminadora contribuição de Márcia Franz Amaral (2006), que se debruçou sobre o tema do jornalismo popular – mais especificamente do crescente universo dos jornais populares da chamada grande imprensa –, podemos pensar na relação entre os telejornais de referência e o interesse público; entre os telejornais policiais e o interesse do público; e, ainda, o que é notícia para cada um desses telejornais.

O caminho trilhado pela autora instiga-nos à reflexão e também possibilita significativos momentos de aproximação teórica. Isso, obviamente, sem nos descuidarmos de levar em conta, é claro, as próprias especificidades dos meios jornal e televisão. Entretanto, alguns apontamentos da autora se encaixam perfeitamente à realidade tanto dos jornais populares quanto dos telejornais policiais (encarados também como a vertente do jornalismo popular na televisão). “Os produtos jornalísticos populares precisam mostrar uma conexão com seu público, pois são mais dependentes de um mercado que muda facilmente” (AMARAL, 2006, p. 52). No caso dos jornais, porque é muito mais difícil vender para quem tem baixo poder aquisitivo e pouco hábito de leitura. No caso dos telejornais policiais, por sua vez, porque é muito mais difícil atrair o olhar de quem tem baixo poder aquisitivo e vê a televisão, prioritariamente, como opção de lazer e entretenimento. Tomemos então as relações possíveis:

Os telejornais de referência e o interesse público – A exemplo do que acontece com os jornais de referência, os telejornais do mesmo segmento têm sua atuação voltada para o que se costuma denominar de conceito ocidental de jornalismo. Uma noção de jornalismo cuja imagem está ancorada em três pilares: a defesa do interesse público; estar direcionado ao bem-estar social; e, por último, não se submeter aos interesses particulares, ainda que historicamente a atividade jornalística esteja condicionada a fatores sociais e econômicos. “O jornalismo de referência fala, sobretudo, com o leitor interessado no mundo público” (AMARAL, 2006, p. 55 – grifo nosso), mesmo sendo movido por interesses comerciais. Logo, para alcançar sucesso, esse tipo de jornalismo precisa ter credibilidade e prestígio perante o público formador de opinião. Portanto, trabalha preferencialmente com um discurso informativo e evita transgredir a fronteira entre realidade e ficção.

Os telejornais policiais e o interesse do público - O mundo público que é o alvo de interesse do público de referência, aqui, quando falamos dos telejornais policiais, é substituído pelo mundo do telespectador. Com isso, o que a autora quer dizer é que os produtos jornalísticos de caráter popular constroem sua legitimidade a partir de outros parâmetros, como a proximidade e o testemunho. Nas palavras de Amaral:

Os jornais [telejornais]31 auto-intitulados populares baseiam-se na valorização do cotidiano, da fruição individual, do sentimento e da subjetividade. Os assuntos públicos são muitas vezes ignorados; o mundo é percebido de maneira personalizada e os fatos são singularizados ao extremo. O enfoque sobre grandes temas recai sobre o ângulo subjetivo e pessoal. O público leitor [telespectador], distante das esferas de poder, prefere ver sua cotidianidade impressa no jornal [veiculada na TV], e a informação é sinônimo de sensação e da versão de diferentes realidades individuais em forma de espetáculo (AMARAL, 2006, p. 57).

Segundo a autora, essas características não podem ser atribuídas meramente às estratégias mercadológicas. Se para agradar o público, os telejornais populares são como são, ela acredita que é preciso se dar conta de que esses produtos televisuais “interpelam características culturais populares construídas ao longo da história, num movimento dinâmico entre o campo da produção e o da recepção, subordinando-se à lógica comercial” (AMARAL, 2006, p. 58).

O que é notícia nos telejornais de referência e policial - A partir da noção de valor-notícia – elementos que determinam a elevação de um acontecimento ao status de notícia –, a autora aponta algumas características que, teoricamente, ampliam as possibilidades de um fato ser noticiado tanto na mídia de referência quanto na de características populares. Antes disso, ela reconhece, no entanto, que os valores-notícia não são valores fixos, podem mudar de redação para redação, de jornalista para jornalista, mas, ainda assim, representam uma maneira de verificar como um fato ascende à condição de notícia. Seguindo a avaliação da autora, podemos dizer que:

31 Os acréscimos entre colchetes foram colocados por nós por acreditarmos numa correspondência quase perfeita entre a relação que o leitor/telespectador dos jornais populares/telejornais policiais estabelece com esse produto jornalístico.

Na imprensa de referência, um acontecimento terá mais chance de ser notícia se: os indivíduos envolvidos forem importantes; tiver impacto sobre a nação; envolver muitas pessoas; gerar importantes desdobramentos; for relacionado a políticas públicas; puder ser divulgado com exclusividade (AMARAL, 2006, p. 63).

Na imprensa popular, um fato terá mais probabilidade de ser noticiado se: possuir capacidade de entretenimento; for próximo geográfica ou culturalmente do leitor [telespectador]; puder ser simplificado; puder ser narrado dramaticamente; tiver identificação dos personagens com os leitores [telespectadores] (personalização); for útil (AMARAL, 2006, p. 63).

Entre esses valores-notícia, Amaral elege três que considera como os mais importantes da imprensa popular: o entretenimento (divertir explorando o sensório e o prazer), a proximidade (o fato narrado de modo a ficar próximo a realidade do público) e a utilidade (informações que auxiliem as pessoas em relação aos seus direitos básicos e modo de vida). Temos consciência de que não se pode simplesmente tomar essas características para todo e qualquer acontecimento jornalístico. Reconhecemos neles, aqui, como mais um parâmetro para análise.

Com esta breve análise, o que procuramos demonstrar é como, do ponto de vista do formato (subgênero), programas jornalísticos televisivos que podem ser classificados na grade de programação das TVs abertas dentro de uma mesma tipologia de categoria (informação) e gênero (telejornal), podem também apresentar características muito distintas. As diferenças implicam não só as peculiaridades do formato dos programas, mas também a interação – reconhecimento/aceitação ou desconhecimento/negação – que eles estabelecem com o telespectador. É o modo como esses programas interpelam e convocam a atenção do público que nos interessa a seguir – o modo de endereçamento dos telejornais policiais. Acreditamos que, entre as diversas possibilidades de análise apresentadas até aqui, trabalhar o conceito de modo de endereçamento nos parece o método mais adequado para o tipo de análise de telejornalismo que pretendemos nesta pesquisa.

No documento NOVO OLHAR SOBRE OS TELEJORNAIS POLICIAIS (páginas 59-63)