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2.4. Dinâmica do mercúrio no solo

2.4.2. Relação do mercúrio com atributos do solo

A avaliação da dinâmica do mercúrio no solo, com base em suas propriedades químicas, tem sido objeto de vários estudos. Relacionar sua concentração com diferentes atributos do solo tem demonstrado ser fundamental para compreensão de sua dinâmica neste sistema.

No Brasil, são escassos os trabalhos desta natureza em relação ao mercúrio. Fadigas et al. (2002) determinaram os teores de vários metais e propuseram valores de referência para solos representativos do Estado do Rio de Janeiro. Posteriormente, com vistas a generalizar estes valores para solos brasileiros, realizaram novo trabalho, utilizando 256 amostras de solos das principais classes de solos encontradas no Brasil, especialmente os argissolos e latossolos, em que foram determinados os teores de Cd, Co, Cr, Cu, Ni, Pb e Zn (Fadigas et al., 2006). Em ambos os trabalhos, foram também estabelecidas correlações entre os teores dos metais e alguns atributos do solo. Entretanto, em ambos os casos, o Hg não foi incluído nas determinações.

Melamed (2002) relata que o caráter de adsorção específica do mercúrio divalente, Hg(II), em solos lateríticos e hidromórficos se deve a sua afinidade por óxidos e hidróxidos de ferro e pela matéria orgânica. Assim, espera-se que

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haja correlação entre o teor de mercúrio e os teores destes constituintes do solo.

Em solos ferralíticos da densa floresta da Guiana Francesa, a concentração de mercúrio nos horizontes superficiais variou 122 a 318 µg kg-1. Neste caso, a dinâmica e a acumulação do mercúrio não são relacionadas à acumulação da matéria orgânica, mas à de substâncias húmicas e a adsorção progressiva dentro de oxi-hidróxidos de ferro nos horizontes.

É sugerido ainda que a erosão destes solos, depois do desflorestamento e do cultivo, promove um processo de intemperização do mercúrio acumulado (Roulet e Lucotte, 1995; Roulet et al. 1998). Ainda Roullet et al. (1998), em trabalho realizado no Rio Tapajós, relatam o aumento da concentração de mercúrio particulado durante forte estação das chuvas, o que pode ter sido causado pela intensa lixiviação de partículas finas do solo, ricas em oxi- hidróxidos.

A contaminação de mercúrio nos solos da Amazônia foi avaliada, sendo identificadas fontes de contaminação e suas relativas contribuições para a contaminação dos solos. Wasserman (2001) relata que nestes estudos foram calculados, a partir de perfis do solo, coeficientes de correlação entre o ferro e o mercúrio que comprovariam a relação entre os dois metais. O mercúrio formaria algum tipo de complexo com o ferro, cuja natureza ainda não foi perfeitamente identificada e esta associação seria amplamente verificada em toda a Amazônia, de modo que o mercúrio teria uma origem natural e não antropogênica, como se imaginava. Neste mesmo estudo, foram realizados balanços das emissões oriundas da retirada do ouro na Amazônia, o que demonstrou que seriam necessários dez vezes mais garimpos para justificar os teores encontrados, levando à conclusão de que 90% do mercúrio presente no solo seria de origem natural.

Outros estudos foram realizados por Palmieri (2005) na Estação Ecológica de Tripuí, localizada perto de Ouro Preto, Estado de Minas Gerais. Neste trabalho, os índices de mercúrio total, carbono orgânico, enxofre total, ferro, alumínio, granulometria e mineralogia da fração argila foram avaliados em estudo de correlação e pela utilização da técnica de dessorção térmica do mercúrio para investigar a presença, a distribuição e o comportamento das interações do mercúrio em solos, em três diferentes profundidades. Foi

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observado que o mercúrio se distribui de forma homogênea em diferentes profundidades e que se encontra associado tanto às frações mais finas como mais grosseiras do solo, em concentrações similares. As correlações confirmaram ainda que o mercúrio está associado com a matéria orgânica e o enxofre e, possivelmente, com a matéria orgânica ligada ao enxofre, na maioria das amostras. Nestes estudos, o mercúrio foi encontrado em combinação com a matéria orgânica e também na forma de cinábrio.

Recentemente, foram realizados estudos sobre a influência da matéria orgânica na distribuição do mercúrio em diferentes tipos de solo na bacia do médio Rio Negro e em ecossistemas amazônicos. Esta bacia é caracterizada por grande diversidade de solos, possuindo áreas alagáveis e não alagáveis. Os resultados demonstraram que amostras de solo coletadas em maior profundidade (20-60 cm), caracterizadas pelo menor teor de material húmico, apresentaram menor capacidade de reter mercúrio, evidenciando que a matéria orgânica tem forte influência no ciclo biogeoquímico deste metal. Além disso, foi detectado que em regiões alagáveis, ricas em matéria orgânica, a concentração média de mercúrio é maior que nas regiões não alagáveis, que são menos suscetíveis a processos de oxirredução na interface solo/água (Oliveira, 2006).

Estudos também realizados em solos na bacia do Rio Negro demonstram a influência da fase aquosa do solo e a importância da concentração do íon cloreto, da matéria orgânica e do pH no processo de adsorção de mercúrio (Miretzky et al., 2005). A presença de matéria orgânica dissolvida demonstrou um efeito inibidor sobre a disponibilidade de mercúrio divalente, Hg(II), que apresentou adsorção máxima em pH entre 3,0 e 5,0. A influência dos íons cloreto, por sua vez, demonstrou estar diretamente relacionada com o pH. Maiores teores destes íons resultaram em menor adsorção em pH 5,0. A alteração da salinidade, entretanto, não afetou consideravelmente solos com altos teores de matéria orgânica. Várias inferências são possíveis com base nos estudos realizados, todas demonstrando a relação direta entre estes parâmetros com os processos de adsorção de mercúrio no solo.

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