SOCIAL EM TEKOÁ MARANGATU
3.3 RELAÇÃO ENTRE CULTURA E AMBIENTE CONSTRUÍDO
De acordo com Corral-Verdugo (2005), diferentes culturas induzem as pessoas a sustentar diferentes visões de mundo e afetam o modo como o pesquisador pensa as relações pessoa-ambiente. Para esse autor, a ciência, incluindo os seus ramos sociais, é um empreendimento cultural e as diferenças culturais e as especificidades dos problemas sociais e ambientais também produzem explicações particulares do comportamento humano em uma cultura específica.
Verifica-se que essa afirmação é reforçada quando Kim (2000) escreve que a Psicologia Indígena ou Autóctone, tem como principal objetivo compreender a forma como as pessoas pensam, sentem e agem em um contexto cultural particular.
E, neste sentido, Triandis (200050, citado por CORRAL- VERDUGO, 2005) abarca a Psicologia Indígena como uma vertente das Ciências Sociais e, apreende que o comportamento humano está enraizado em um contexto cultural peculiar, havendo fenômenos que só existem na cultura estudada e são inteiramente desconhecidos e não esperados por pesquisadores de outras culturas.
É importante estudar o modo como a cultura influencia as visões de mundo, modos de vida, normas, sentimentos e comportamentos das pessoas, principalmente se esta cultura é específica. Mesmo quando Corral-Verdugo (2005) ressalta que há mais aspectos comuns entre pessoas do que diferenças e que estes aspectos diversos e similares devem ser encontrados para uma apropriada adaptação de um ambiente construído de maneira eficiente e responsável.
Neste sentido, Hall (2005), observando as relações comportamentais do ser humano no espaço físico, compreendeu que as especificidades culturais influenciam o comportamento humano, dado que povos de culturas diferentes “não apenas falam línguas diversas, mas [...] habitam em diferentes mundos sensoriais.” Esse autor argumenta haver uma série de filtros sensoriais culturalmente padronizados que condicionam a experiência sensorial vivenciada pelo ser humano no espaço, fazendo com que se tenha percepção de alguns elementos e a não-percepção de outros. Esclarece ainda ser possível entender como povos diferentes interagem com seus ambientes, através
50 TRIANDIS, C. Dialetics between cultural and crosscultural psycology. In: Asian Journal of Social Psycology, n. 3, 2000. p. 185-195.
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da distinção de “variações significativas entre aquilo que é levado em conta e o que se elimina pela filtragem, [pois] os ambientes arquitetônicos que as pessoas criam são expressões deste processo de filtragem-peneiramento” (HALL, 2005:14).
Considerando o ambiente construído como uma forma de expressão humana, infere-se que ele é resultado dos tipos de organização social da cultura da qual ele surge. Para Malard (1993) o ambiente construído é uma concreção da cultura dentro da qual a existência humana tem primeiramente o seu lugar, porquanto um espaço não é habitado porque está construído, mas antes, foi construído e tem- se construído porque se habita, ou enquanto se é habitante.
Em razão desse entendimento, buscam-se abordagens
interdisciplinares para compreender como os fatores social, cultural e físico desse espaço influenciam o comportamento dos usuários e, da mesma forma, como esses usuários com suas ações afetam e produzem esse ambiente.
Confirmando esse raciocínio, Sommer (1973) argumenta que num certo sentido, todas as pessoas do mundo são afetadas por cada edifício construído, sendo necessário aperfeiçoar os meios políticos para introduzir a participação do usuário no processo projetual, de tal forma que a influência de determinado grupo sobre esta estrutura seja proporcional aos efeitos que essa mesma estrutura provocará em suas vidas.
Essa linha de pesquisa encontra eco nas palavras de Mallard (2006) quando sustenta que os lugares arquitetônicos estão impregnados da dimensão simbólica advinda do processo cultural e são remetidos para além deles mesmos. O edifício é construído para atender a um propósito que emerge de um contexto cultural em um lugar específico, o qual apresenta os componentes essenciais para um projeto de edificação. Enquanto Cooper (197251 apud Speller (2005), afirma que a casa sempre é uma extensão de seu ocupante. Bachelard (1989:53) amplia esse entendimento com uma definição poética na qual todo espaço habitado traz a essência da noção de casa, evocando sempre lembranças adicionadas de valores de sonho que beiram a fronteira da filosofia e da poesia, quase nunca de forma objetiva, porquanto na visão do morador “a casa é todo um mundo”.
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COOPER, C. (1972) The house as symbol of the self. In: LANG, J. et al. (Ed.) Designing for Human Bevahior: Architecture and behavioral sciences. Stroudsburg, PA: Dowden Hutchinson &Ross.
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Speller (2005) também confirma esse pensamento ao citar Brown e Perkins (199252), quando associam que a vinculação ao lugar se dá através das ligações comportamentais, afetivas e cognitivas estabelecidas entre indivíduos e/ou grupos e o seu ambiente sócio/físico, ao longo do tempo. Essa autora confirma que nas investigações vinculadas a casa, tem sido utilizada principalmente uma abordagem qualitativa, na qual medidas essencialmente numéricas não dão conta de abarcar o significado de um lar, pois que “numa pesquisa sobre as imagens da intimidade [...] recebem por vezes, valores que não tem a menor base objetiva” (BACHELARD, 1989:20).
Do mesmo modo, Okamoto (2002), reafirma esse entendimento quando argumenta que, para uma análise antropológica sobre a apropriação do ambiente arquitetônico, apenas uma abordagem do espaço euclidiano, ressaltado pela dimensão funcional, não atende à dimensão simbólica responsável por garantir a expressão de seus anseios e aspirações espirituais.
Na busca por incorporar conceitos relativos ao estabelecimento da habitabilidade de um dado lugar, Malard (1993) compreende como sendo uma condição que possibilita ao usuário se sentir seguro no ambiente habitado e propicia a vivência de um sentimento pleno de pertencimento ao lugar.
Para essa autora, a habitabilidade engloba três dimensões:
Figura 12: Dimensões da habitabilidade
52 BROW, B. B. & PERKINS, D. D. Disruption in place attachment. In: I. Altmann & S. M.
Low (eds.), Place Attachment. New York: Plenum Press, 1992.
Pragmática A que envolve a proteção dos moradores em relação às intempéries Simbólica Na qual a casa deve ser um lugar agradável, seguro e confortável Funcional Relativa ao uso dos espaços nas
atividades cotidianas
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Com o intuito de ampliar essas ponderações, a habitabilidade vista agora a partir de uma abordagem fenomenológica53, de acordo com Mallard (199254 citada por ALMEIDA, 1995), é a qualidade espacial que um dado lugar apresenta, conseguida através da presença dos fenômenos espaciais, descritos na figura 13.
Figura 13: Habitabilidade
Para Gifford (1987), territorialidade é um padrão de comportamento e atitudes realizado por um indivíduo ou grupo, que se baseia na percepção, tentativa ou o controle efetivo de um espaço físico definido. Sua defesa, personalização e marcação pode ocorrer através de objetos, idéias ou envolvendo uma ocupação habitual. Pode-se especular que todas as culturas são igualmente territoriais, levando-se em conta as diferentes condições de vida, e que a territorialidade apenas se expressa de maneira diferente em culturas diferentes.
Esse mesmo autor, na mesma obra, cita Altman (1975)55 para definir a privacidade como um controle seletivo de acesso a si mesmo ou ao seu grupo. A medida de privacidade varia de acordo com a cultura e verifica-se que dentro da sociedade indígena a necessidade da privacidade individual é quase nula, diante da necessidade da privacidade do grupo.
53 A abordagem sob a ótica da fenomenologia analisa os fenômenos humanos e suas inter-
relações com o ambiente construído, além de buscar entender as características deste espaço que sobrepujam suas relações geométricas e propriedades físicas (MALARD, 1992 citada por ALMEIDA, 1995).
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MALARD, M. L. Brazilian low-cost housing: interactions and conflicts between residents and dwellings. Tese (doutorado). Universidade de Sheffield, Inglaterra, 1992. 55 ALTMAN, I. The environment and social behavior. Monterey, CA: Brooks Cole, 1975.
HABITABILIDADE
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Malard (1993:4) conceitua ambiência como as características de um espaço organizado e animado arquitetonicamente que atendem aos aspectos subjetivos relativos à cultura. Nas palavras dessa autora: “O conjunto de qualidades que fazem de um lugar um domínio sagrado constitui a ambiência desse domínio.” Ambiência atende também os aspectos objetivos que podem ser traduzidos pelo conforto das sensações corporais, que é inerente à condição humana.
Proshansky et al. (1983:59), por sua vez, define identidade de lugar como a relação dinâmica que ocorre num ambiente físico e social e subestrutura a auto-identidade de uma pessoa através das cognições do mundo físico que a cerca. Também conceitua identidade de lugar como um sinônimo de ambiente físico, que consiste de lugares e espaços com propriedades que satisfazem as necessidades biológicas, psicológicas, sociais e culturais de um indivíduo.
Desse modo, para uma análise do ambiente construído de uma dada cultura, necessário se faz levar em conta o conhecimento dos códigos simbólicos e dos rituais de comportamento peculiares dessa sociedade, ou seja, é preciso compreender os significados presentes no espaço e nos elementos que o compõem.
Seguindo essa orientação, ao objetivar o desenvolvimento de análises relativas às habitações sociais construídas em aldeias indígenas guarani, buscou-se uma abordagem interdisciplinar que fornece um aporte para a realização das leituras do espaço edificado pelos Mbyá-
Guarani, compreendido como possuidor de uma dimensão simbólica
109 CAPÍTULO 4: ESTUDO DE CASO: TEKOÁ MARANGATU
Este capítulo apresenta dados de campo obtidos na comunidade investigada, através da observação, entrevistas e levantamentos fotográficos e arquitetônicos. A sistematização desta apresentação inicia com a descrição do processo histórico de ocupação e a implantação física, passando à organização sócio-política, os recursos naturais e o modo de vida dos Guarani que vivem nesse tekoá. Abarca a caracterização da casa tradicional guarani, descrevendo graficamente seus elementos arquitetônicos, materiais, técnicas e sistemas construtivos, além das características simbólicas inerentes ao fenômeno cultural em que estão inseridas, demonstradas através do uso dos espaços e funções e captadas por meio de observações e entrevistas com os seus construtores/moradores.