II. realizar pesquisa aplicada e promover o desenvolvimento tecnológico de novos processos, produtos ou serviços, em estreita articulação com os setores produtivos e a
4.3 A FORMAÇÃO HUMANA SEGUNDO OS SUJEITOS DA PESQUISA
4.3.6 Relação entre EMI e continuidade de estudos
A relação entre a formação técnica de nível médio e a continuidade de estudos, última categoria de análise, é abordada de forma controversa entre os entrevistados. Quando perguntados sobre o que pensavam a respeito deste aspecto, todos os gestores concordaram que os estudantes não podem ficar limitados ao ensino médio. No entanto, esta continuidade de estudos possui um condicionante, como se observa nas respostas abaixo:
Eu acredito que seja um desperdício você estar fazendo um curso técnico na área de informática e você depois vai pro superior numa área completamente diferente... eu acho que é um desperdício de tempo pro aluno... claro, [...] ele tem aquela formação técnica, ele tem mais uma opção, tudo bem, mas eu acho que... o que eu aconselho é: “continue na mesma área”... porque tu vais só adquirir mais conhecimento e não vai ter dificuldade também, porque já tem uma base muito forte. (GE02).
Eu entendo que de certa forma é bom pro aluno porque ele já vai com uma perspectiva pra universidade. Se ele segue naquela área do curso técnico é bom... por exemplo, a gente tem alunos de edificações que vão estudar farmácia, vão estudar enfermagem... aí fica um pouco... porque seria bom a continuidade né? [...] Porque aí nesse caso o curso técnico integrado já seria um diferencial pra eles, em relação àqueles que só se formam na base comum... eu penso dessa forma. (GE03).
Percebe-se, pois, nas respostas dos entrevistados que a continuidade de estudos é vista como algo positivo e até valorizado, desde que ela ocorra na mesma área de formação do EMI. Para estes gestores, o ingresso do estudante no ensino superior na mesma área do curso de nível médio se constitui em um grande diferencial na formação deste aluno, sendo um desperdício o fato dele ir para uma área distinta. Tal entendimento ratifica o viés pragmatista da formação profissional, aliada à visão de que o ensino médio é uma etapa preparatória para outra seguinte, além de evidenciar a preocupação com o fato do aluno não atuar naquilo que está sendo formado, ou seja, é como se a instituição não estivesse cumprindo com a sua finalidade.
De modo geral, tem-se na fala dos gestores uma visão muito clara de que o EMI tem como finalidade a preparação para algo posterior ao ensino médio, evidenciando-se de forma significativa a concepção de que seu papel é prioritariamente a preparação para o trabalho e a inserção no mercado. Para estes gestores o ensino médio possui uma característica propedêutica, alterando-se apenas o fim a que se destina: se inserção no mercado, ingresso no ensino superior ou, ainda, a conciliação destes dois caminhos.
Quanto à equipe pedagógica, a fala dos entrevistados é bastante controversa: em alguns aspectos se confunde com o que afirmaram sobre a importância da EP e, ao mesmo tempo,
apresenta-se uma concepção oposta, em alguns aspectos correlata com a fala do GE02, como afirma o entrevistado EP02:
[A instituição] investiu naquele profissional, naquele curso, e é um profissional a menos, que não é lançado no mercado de trabalho que a instituição formou... eu não sei se... eu não vejo como um grande problema, mas ((inaudível)) o próprio estudante teve todo aquele conhecimento e não conseguiu colocar ele em prática, de contribuir com a sua formação no mercado de trabalho.. então eu vejo nestes termos prejuízo não só pra instituição mas também para algumas empresas que vão deixar de ter esse profissional, por exemplo, tem áreas que são muito carentes e aí ela conta com aquela instituição formadora... (EP02).
Por outro lado, os sujeitos EP03 e EP04 se posicionaram de forma contrária aos depoimentos dados pelos entrevistados GE02 e EP02, como se pode constatar a seguir:
Não, eu acho que... eu não vejo que isso é um problema, eu vejo... pelo contrário, eu vejo um ganho da instituição. O que eu vejo problema, eu vejo na escolha dos cursos, porque os alunos querem muito estudar num instituto federal [...] Será que eles querem vir fazer um curso que o IFAP tá oferecendo? Talvez eles não queiram fazer esse curso técnico, mas por ser um ensino, que é um ensino de qualidade... vamos dizer assim, um ensino de qualidade comparado ao que o Amapá oferece hoje a título de ensino médio nas escolas públicas estaduais. (EP03).
Não é porque eu tenho o [curso] técnico que eu não posso fazer o superior, ou então porque eu estou cursando o superior que eu não posso fazer um técnico... eu vejo que, dependendo das oportunidades, dependendo do desejo... tem uma questão também, quando o aluno entra aqui no IFAP ele tá muito novo né? Muito novinho, então ele não sabe direito o que ele quer, em qual área ele quer atuar, é um leque e às vezes, nem sempre é o que ele quer, é o que ele pode, o que as oportunidades vão disponibilizar pra ele... então ele entra aqui [...] às vezes gosta, se identifica e às vezes não... e como eu falei, não adianta ele se prender, fez o técnico, mas quer algo a mais? Vai lá faz um superior, uma coisa não exclui a outra. (EP04).
Assim, para o entrevistado EP02 o principal legado do EMI parece ser a formação de técnicos para o mercado de trabalho, de tal forma que a continuidade de estudos é vista como um prejuízo para o aluno e para a instituição. Por outro lado, para os demais, a importância da EP parece ser justamente a conjugação entre a formação para o trabalho e para a continuidade de estudos em nível superior. Deste modo, o fato do aluno cursar o EMI e buscar a continuidade de sua formação é vista por eles como algo natural e positivo.
Neste sentido, percebe-se na fala dos membros da equipe pedagógica posições controversas a respeito do papel da EP para a formação dos estudantes, o que é ocasionado pela junção de concepções distintas de formação humana. Tais contradições foram também encontradas nas respostas fornecidas pelos gestores com relação a esta questão. Desta forma, por mais que se afirme a importância da formação humana integral, uma formação
emancipatória, crítica e transformadora, a visão pragmatista e utilitarista de formação para o mercado também se faz presente.
Com relação aos docentes, estes não emitiram uma opinião clara sobre a questão da continuidade de estudos dos alunos em um curso superior. Como se pode perceber nas respostas fornecidas na Tabela 9, apresentada no item anterior, na qual se perguntou sobre a importância da EP para a formação dos jovens, o foco dos professores estava voltado para a inserção dos estudantes no mercado de trabalho, preocupação esta presente nos trechos a seguir:
Ela [formação profissional] qualifica o cidadão para acessar as oportunidades ofertadas pelo mercado de trabalho. (PF08).
A Educação profissional exerce um elo de evolução pessoal e profissional entre o discente que sente a necessidade de ser inserido no mundo do trabalho e as exigências do mercado. (PF11).
Constitui um dos meios de inserção no mercado de trabalho. (PF32).
A redução do foco formativo da EP à simples preparação para o mercado pode ser resultante de uma interpretação equivocada das finalidades apresentadas na Lei nº 11.892/2008, que cria os Institutos Federais, conforme discutido anteriormente na análise documental. No Art. 6º, inciso I, a lei determina como uma das finalidades dos IFs,
Ofertar educação profissional e tecnológica, em todos os seus níveis e modalidades, formando e qualificando cidadãos com vistas na atuação profissional nos diversos setores da economia, com ênfase no desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional (BRASIL, 2008).
Esta finalidade, também expressa no PDI do IFAP, fundamenta o argumento recorrente de que a instituição se constitui em uma instância de formação para o trabalho, não como um caráter emancipatório, mas com vistas à inserção dos estudantes no mercado. Esta concepção está presente nos discursos de alguns servidores, entre os quais um dos gestores entrevistados, cujo trecho, já citado, vale ser repetido aqui:
Então quando a gente fala da educação humana integral eu quero dizer que eu preciso
formar aqui dentro técnicos, mas eu diria que não somente robôs, mas são técnicos
que não vão só servir pra apertar parafuso, que também vão pensar, que também vão refletir, vão criticar as situações que estamos vivendo, então a formação humana integral precisa passar tanto pela formação técnica, que é o que nós fazemos aqui,
formamos técnicos, mas também formar cidadãos que planejarão e irão promover
Deste modo, o gestor refere-se à formação humana integral de forma superficial em termos teóricos e práticos, considerando-a como algo válido e necessário, porém, frisando que o papel da instituição é formar técnicos, ou seja, preparar mão de obra para o mercado. Com relação aos estudantes, suas respostas confirmam a tendência das respostas dadas pelos outros grupos que evidenciam a concepção de que o EMI se constitui numa fase preparatória, que pode capacitá-los tanto para a continuidade de estudos quanto para a inserção no mercado, seja por meio de um emprego formal ou pelo empreendedorismo.
Desta forma, o EMI é explicitamente compreendido pelos estudantes não como uma etapa formativa com um fim em si mesmo, mas como porta de entrada para o futuro, ou seja, o caminho para as realizações que ainda estão por vir.