A relação entre a parte e o todo é um problema complexo, mas que permeia todas as frentes do conhecimento humano. Não apenas na física, onde se busca entender como o comportamento das partículas e sub-partículas, num nível local, microscópico, é compa- tível com o comportamento macroscópico, mais diretamente observável, mas também nas ciências sociais. Na chamada ciência econômica há também um fosso entre a microecono- mia e a macroeconomia. As teorias que explicam o comportamento do consumidor e da firma, não servem para explicar o comportamento agregado da economia. Os instrumen- tos teóricos concernentes à maximização da utilidade do consumidor e à maximização do lucro da firma não podem ser diretamente empregados para explicar os juros, o emprego (desemprego), a inflação, etc., temas da macroeconomia, que surgiu com John Maynard Keynes, na década de 1930, no rastro do crash da bolsa de Nova York, ocorrida em 1929. No caso da física, na termodinâmica, conhecia-se, por exemplo, a lei de Boyle-Mariotte (P V = nRT , isto é, num gás, o produto da sua pressão pelo seu volume é uma constante proporcional à sua temperatura), a partir de observações empíricas. Só em 1859 foi que
James Clerk Maxwell, na sua teoria cinética dos gases, estabeleceu uma relação lógica entre o comportamento individual de cada uma de uma grande quantidade de partículas e o comportamento do gás (grande agregado de partículas). Essa relação foi obtida pelo processo hipotético-dedutivo, partindo de hipóteses sobre o comportamento individual de cada partícula e da interação entre as partículas. Distribuição uniforme das posições no recipiente, choques elásticos, peso desprezível, independência probabilística das três componentes de velocidade (supostas tendo a mesma distribuição) e a validade das leis de Newton, foram as hipóteses usadas para que Maxwell demonstrasse a lei de Boyle- Mariotte, que passou a ser então um resultado científico. Deduziu também a distribuição de probabilidade da velocidade das partículas, que leva o nome de distribuição de Maxwell, em sua homenagem.
No estudo da eletricidade, hipóteses sobre o comportamento probabilístico (Markov) de partículas (elétrons, por exemplo), levam a relações, num nível intermediário, que são as leis de Kirchhoff, e num nível agregado (“macroeconômico” ou “organizacional”), mostra que as correntes e tensões se distribuem num circuito (malha) resistivo de forma a minimizar a energia dissipada nos resistores.
Vê-se pois que regras probabilísticas simples definidas numa escala “atômica”, “mi- croscópica”, são inteiramente compatíveis com leis físicas bem estabelecidas, numa escala intermediária, e, num nível mais agregado, com otimizações.
É-se levado pois a pensar que o mesmo tipo de relação entre a parte e o todo pode ser concebida entre o comportamento do indivíduo e o de uma organização. No caso do comportamento humano, não se avançou muito, apesar de haver muitas contribuições.
Pesquisadores em psicologia cognitiva, administração, economia, sociologia, engenha- ria de sistemas, etc., têm aportado conhecimentos importantes.
Duas contribuições podem ser destacadas, como exemplo: a teoria da dádiva, de Marcel Mauss (1872-1950), e os avanços na termodinâmica elaborados por Ilya Prigogine (1917-2003), prêmio Nobel de química em 1977.
Mauss, sociólogo e etnólogo francês, escreveu em 1925 um livro clássico sobre trocas em sociedades arcaicas (Mauss, 2003). Segundo Mauss, nessas sociedades as trocas não se dão sob a forma usual do mercado, ou do escambo, mas numa relação mais complexa e sutil que Mauss chama de tripla obrigação: dar, receber e retribuir. Nessas sociedades as trocas não têm aquele caráter impessoal típico do mercado (capitalista). Quando objetos de valor passam de mão em mão, o que tem, na verdade, importância, é a relação, o rapport, que
se estabelece entre os indivíduos. O objeto de troca, mais concreto e realístico, é a criação de vínculos de amizade ou o aparecimento de rivalidades e obrigações. A circulação de riquezas, num sentido mais econômico, dá-se somente à margem. Esta concepção, muito criativa, tem permitido avanços significativos nas explicações das relações entre o indivíduo e a coletividade. Referências incluem Mauss (2003) e Martins (2003).
A termodinâmica teve os seus primeiros desenvolvimentos mais significativos no iní- cio do século XIX, e era sujeita a certas limitações, pois, em grande parte, podia tratar apenas de processos reversíveis, ou seja, aqueles processos que ocorrem através de estados de equilíbrio. Foi justamente nesta questão que Prigogine deu a sua grande contribuição. Ele elaborou uma teoria de termodinâmica não linear em estados longe, muitos afastados, do equilíbrio. Nesse processo ele pode visualizar fenômenos e estruturas de tipos comple- tamente novos e inesperados. Resultou que esta termodinâmica generalizada, não linear e irreversível, tem encontrado aplicações numa ampla variedades de contextos. Prigogine foi cativado pelo problema de explicar como estruturas ordenadas – sistemas biológicos, por exemplo – podem se desenvolver a partir da desordem. Na termodinâmica usual, clássica, os princípios de equilíbrio mostram que sistemas lineares próximos ao equilíbrio sempre evoluem para estados de desordem (aumentam a entropia) os quais são estáveis a perturbações, e não podem explicar a ocorrência de estruturas ordenadas.
Escolhendo estudar sistemas que seguem leis cinéticas não lineares, os quais, ademais, são sistemas abertos, isto é, estão em contato com o seu entorno de forma que possa haver troca de energia, Prigogine e seus assistentes verificaram que, se estes sistemas são empurrados para longe do equilíbrio, resulta numa situação completamente diferente. Esses sistemas “vivem em simbiose com o seu ambiente”, como disse o Professor Clarence, na cerimônia de entrega do prêmio Nobel ao Dr. Ilya Prigogine. A matéria torna-se criativa. Estes resultados estimularam novos desenvolvimentos que vêm preenchendo os
gaps entre campos de pesquisa tão diversos quanto química, biologia e ciências sociais.
Uma referência sobre o trabalho e biografia de Prigogine estão em Edens (2001)
Estuda-se, neste capítulo, o comportamento humano nas organizações, a partir da elaboração de modelos dinâmicos. Parte-se do todo e depois estuda-se o comportamento do indivíduo, sob o ponto de vista da capacitação e motivação.