5. Requisitos do Plano do Experimento
5.4. Validade
5.4.3. Relação entre validade interna, validade externa e precisão
A validade das inferências derivadas da amostra para a população objetivo requer a validade interna e a validade externa. A discussão anterior ressaltou que o atendimento a esses dois requisitos algumas vezes é conflitante, já que ações para o aumento da validade interna podem sacrificar a validade externa e ações para o incremento da validade externa podem prejudicar a validade interna.
A validade interna é necessária para inferências sobre relações causais que constituem o objetivo do experimento. Por essa razão ela é o requisito mínimo essencial do plano do experimento. Ela tem implicações para a resposta à questão: Os fatores experimentais têm efeitos sobre as variáveis respostas nas condições específicas representadas pela amostra? A validade externa relaciona-se à resposta a essa questão para as unidades de interesse na pesquisa: esses efeitos estendem-se para a população objetivo? Essas duas respostas são obviamente importantes. Enquanto a validade interna seja o critério essencial e a questão de extensão para a população objetivo, como a questão de inferência indutiva, nunca seja completamente resolvida, é altamente desejável que o plano do experimento contemple esses dois requisitos.
As importâncias relativas da validade interna e da validade externa dependem dos objetivos do experimento e do estado de conhecimento. Elas são distintas para experimento básico e experimento tecnológico. No experimento básico a validade interna assume importância elevada, pois o objetivo é a verificação de existência ou não da relação causal formulada pela hipótese de pesquisa; a validade externa é frequentemente de menor interesse. No experimento tecnológico a validade externa tende a ser mais relevante por razão da importância que é atribuída à aplicação do conhecimento sobre a relação causal sob pesquisa a contextos aplicados. Por exemplo, um teste preliminar de novas drogas para controle de uma doença em humanos pode ser feito em um experimento com
cobaias. Entretanto, em uma etapa mais avançada da pesquisa esse teste deve ser efetuado com humanos representativos da população de indivíduos acometidos dessa doença.
As importâncias relativas da validade interna e da validade externa também dependem do estado do conhecimento na área. Por exemplo, na fase inicial de um programa de pesquisa a identificação de efeitos causais de diferenças de tratamentos tem importância elevada. Nessa fase a busca por tratamentos possivelmente efetivos tolera planos e delineamentos experimentais que não atendam a alguns requisitos e princípios básicos, e permite muitas declarações falsas de eficiências de tratamentos para não negligenciar a identificação de tratamentos possivelmente efetivos. Na medida em que se acumula novo conhecimento, a validade externa assume importância mais elevada para destacar aqueles tratamentos que realmente têm melhor desempenho sob pelo menos circunstâncias ideais. Na última fase da pesquisa, a validade externa é prioritária, especialmente para caracterização do desempenho dos tratamentos sob as condições das situações reais.
De fato, a validade interna e a validade externa não são tão incompatíveis. Essa incompatibilidade, mais aparente do que real, pode ser resolvida pelo emprego equilibrado do controle de técnicas experimentais e pela casualização. Particularmente, o pesquisador deve planejar cada uma das ações de controle de técnicas experimentais de modo a lograr o equilíbrio apropriado entre as consequências para a validade interna e a validade externa.
Algumas ações que beneficiam a validade interna ou a validade externa podem afetar a precisão de modo desfavorável. Usualmente, entretanto, esse impacto negativo pode ser evitado com o uso equilibrado do controle de técnicas experimentais e, principalmente, pelo emprego do controle local e do controle estatístico. Por exemplo, em certos experimentos tecnológicos a representação da variabilidade das unidades da população objetivo no espaço e no tempo requer que a amostra seja constituída por unidades dispostas em diversas locais e períodos de um intervalo de tempo. A variabilidade das unidades da amostra dessa origem pode ser controlada por controle local que leve em conta a classificação dessas unidades segundo suas posições no espaço e no tempo.
A Tabela 1 apresenta um resumo das consequências dos procedimentos de controle experimental apropriadamente utilizados para a precisão, a validade interna e a validade externa. A Tabela 2 resume as consequências de definições apropriadas referentes a: variáveis respostas, fatores experimentais e seus níveis, amostra inicial, tamanho do experimento e unidades experimentais; e a Tabela 3, as consequências de ações apropriadas referentes a técnicas experimentais.
Tabela 1. Consequências dos procedimentos de controle experimental apropriadamente implementados para a precisão, a validade interna e a validade externa.
Ações e ocorrências no experimento
Consequências para: Precisão Validade
interna
Validade externa
Controle local Beneficia - -
Controle estatístico Beneficia Beneficia -
Controle de técnicas experimentais Beneficia Beneficia Beneficia
Casualização - Beneficia -
Tabela 2. Consequências para a precisão, a validade interna e a validade externa das definições apropriadas referentes a: variáveis respostas, fatores experimentais e seus níveis, amostra inicial, tamanho do experimento e unidades experimentais.
Definição referente a: Precisão Validade interna
Validade externa
Variáveis respostas Afeta - Afeta
Fatores experimentais e seus níveis Afeta - Afeta
Amostra inicial Afeta - Afeta
Tamanho do experimento Afeta - -
Tabela 3. Consequências para a precisão, a validade interna e a validade externa de ações referentes a técnicas experimentais quando apropriadamente implementadas.
Ação Precisão Validade
interna
Validade externa Homogeneização das características
estranhas da amostra inicial Beneficia - Prejudica Dimensões e constituição apropriadas das
unidades experimentais Beneficia Beneficia Beneficia Controle das características estranhas
veiculadas com tratamentos Beneficia Beneficia Beneficia Controle da aplicação dos tratamentos Beneficia Beneficia Beneficia Controle da manifestação de características
do ambiente Beneficia Beneficia Beneficia
Controle da execução de operações necessárias para o funcionamento das unidades
Beneficia Beneficia Beneficia Emprego de técnicas experimentais
propositais para o controle do funcionamento das unidades
Beneficia Beneficia Beneficia Controle de efeitos das unidades - Beneficia - Controle de efeitos do pesquisador - Beneficia - Emprego de procedimentos e instrumentos
de mensuração apropriados Beneficia Beneficia -