3.3 Dialogando Com os Sujeitos da Pesquisa
3.3.5 Relação Horizontal Entre Professor e Aluno
A relação professor e aluno é um elemento pedagógico de suma importância no processo de ensino e aprendizagem. Durante o processo de desenvolvimento da Feira da Criatividade constatamos nas falas de alguns entrevistados a materialização de uma relação horizontal entre professor e alunos. Nestes termos identificamos ações e práticas que caracterizam o referido tipo de relação, isto é, atitudes em que o professor não se coloca como dono do saber, como depositário do conhecimento. O aluno é convidado a pensar, a sugerir. O professor se coloca em posição de igualdade. Há, portanto, uma relação de empatia, de
proximidade, de respeito entre alunos e professor que permite a criação de um clima favorável para a expressão da criatividade. Podemos vislumbrar isto nos relatos abaixo.
O professor atuava direcionando, por exemplo o aluno, a gente combinava como vamos apresentar, vamos fazer determinado trabalho. Então o professor; o papel dele era orientar, buscar material, dar uma ideia de como trabalhar aquele tema, como é que a gente vai desenvolver? O que agente vai precisar? Onde a gente vai desenvolver? De que forma?( PROFª JACIRA)
Eles tinham que ter uma pessoa ali pra ta apoiando, pra ta direcionando, pra ta buscando material com eles, pesquisando. “professora eu não tenho material” então vamos pesquisar, vamos buscar, vamos correr atrás. De que forma que a gente vai trabalhar? “ah, a gente tá trabalhando dessa forma mais não tá legal” “professora vamos lá ver como está nosso trabalho” sempre assim, sempre os professores apoiando. (PROFª JACIRA)
...e agente também fez um folden de explicação de prevenção e também a gente abordou muito sobre o uso da camisinha. Então quando esse tema foi discutido em sala e ele foi proposto e ele foi decidido que seria esse tema. (PROFª CRIS MARINHO)
É recorrente nas falas acima o uso do termo “a gente”, isto pode sugerir que a atitude do professor não é uma atitude autoritária, impositiva. O aluno é convidado a fazer parte do processo de construção do trabalho. Isto se evidencia em algumas falas, a saber, “a gente combinava como vamos apresentar”, “como é que a gente vai desenvolver?”, “O que agente vai precisar”?, ”Onde a gente vai desenvolver”?, “De que forma”? “...e agente também fez um folder de explicação, de prevenção e também a gente”...há, portanto, uma relação dialógica, de cumplicidade entre aluno e professor pois, ao que parece, as ideias de ambos os lados são respeitadas, sobretudo os alunos são convidados a expressarem seus pensamentos. O professor não se coloca como único que sabe o caminho, que sabe como fazer o trabalho, ao contrário, ele se inclui e inclui o aluno tratando-o como igual.
Neste sentido, no contexto da feira estabelecem-se situações de ensino e aprendizagem pautadas no diálogo, no respeito, em que o ensinar e o aprender assumem um caráter criativo, construtivo, que incentiva o aluno a pensar com autonomia. Desta forma constatamos a materialização de uma relação educando-educador ou educador-educando como dito em Freire (2011), uma vez que professores e alunos, segundo alguns relatos, são sujeitos no processo de construção do trabalho. Assim, para o referido autor o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa. Ambos, assim se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os “argumentos de autoridade” já não valem. (FREIRE, 2011, P.95/96)
De modo similar Kohan (2013, p.89) afirma que o trabalho do professor é de uma sensibilidade intelectual sobre outra sensibilidade intelectual, a do estudante, para que este
volte sua atenção ao que é necessário para a vida. Isso requer tempo, paciência e que o professor considere seus estudantes como iguais, e não como inferiores. Pois entre desiguais só pode haver antipatia, a causa da submissão.
Neste sentido pensamos na relação horizontal entre professor e aluno como indicativo de ação pedagógica que contribui com o incentivo do pensamento criativo em sala de aula. Com ancoragem em Freire (2011) compreendemos a relação horizontal como aquela pautada em uma relação dialógica em que prevalece atitude de humildade, respeito e fé no ser humano. Para o referido autor “não há também diálogo se não uma intensa fé nos homens. Fé no seu poder de fazer e de refazer. De criar e recriar.” (FREIRE, 2011, p.112)
Nesta perspectiva a relação horizontal entre professor e aluno permite que estes últimos tenham a oportunidade de criar e recriar, uma vez que nesta concepção o conhecimento não deve ser transferido, mas produzido, construído, pois para Freire (1996) ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. Desta maneira as práticas pedagógicas pautadas, construídas em situações de ensino e aprendizagem de caráter democrático favorecem o desenvolvimento da criatividade. Em oposição a isto, ações de cunho autoritário limitam, bloqueiam a emergência do pensamento criativo. Freire (1996) se posiciona contra este tipo de prática. O referido autor enfatiza que “a prática bancária, implica uma espécie de anestesia, inibindo o poder criador dos educandos. (FREIRE, 2011, p.97)
Para Freire (2011) a educação bancária consiste em uma visão limitadora do aluno em que o mesmo está para receber passivamente as informações transmitidas pelo professor. Trata-se de uma concepção pautada no autoritarismo, onde o professor se configura como o dono da verdade, o detentor do conhecimento e o aluno aquele que deve receber e memorizar o saber que recebeu do mestre. Nesta perspectiva não há espaço para a expressão da criatividade, da subjetividade, da criticidade. Desta maneira o referido autor diz que esta visão “bancária” anula o poder criador dos educandos ou o minimiza, estimulando sua ingenuidade e não sua criticidade. (FREIRE, 2011, p.83)
De modo similar Torre (2008) ressalta que uma linha autoritária, que anule a espontaneidade e enquadre seus comportamentos no comportamento de algumas regras, debilita muito o pensamento criativo... a atitude impositiva ou hipnotizadora tende a criar atitudes passivas, repetitivas. Ambas as atitudes são contrárias a criatividade. De encontro a estas proposições Alencar e Fleith (2003) afirmam que é comum uma educação voltada excessivamente para o passado, com uma ênfase exagerada na reprodução do conhecimento e
na memorização de ensinamentos, exigindo-se do aluno conhecimentos há muito ultrapassados. As referidas autoras argumentam que atitudes autoritárias por parte do professor são barreiras que devem ser suprimidas dentro da escola.
No contexto da feira constataram-se situações de proximidade quanto ao estímulo do pensamento criativo no ambiente escolar, tendo como fator favorável a relação horizontal entre professor e aluno, evidenciado em alguns relatos. Esta constatação nos permite inferir que se trata de um fator pedagógico relevante para o incentivo da criatividade, uma vez que ao aluno foi dada a oportunidade de em parceria com o professor, de sugerir, pensar e construir o trabalho e no final de certa forma assumir o papel de professor. O relato abaixo chama atenção para isto:
...o aluno sai um pouco das quatro paredes da sala de aula né. É uma aula também e é uma aula que ele não está ali passivamente recebendo. Ele é o expositor, ele é o ministrante, porque ele vai explicar, os professores apenas orientam, fazem o trabalho e orientam e os próprios alunos, eles tem o papel que os professores tem na sala de aula (PROF° JOÃO DE BARRO)
Assim, no processo de desenvolvimento da Feira da Criatividade os alunos são desafiados a vivenciarem a experiência de um professor, havendo,portanto, uma relação de igualdade entre alunos e professores. O momento da exposição faz momentaneamente de cada aluno expositor um professor. Esta atitude de confiança na capacidade do educando funciona como fator favorável a expressão da criatividade. Isto ocorre ao que se percebe porque na prática existe respeito pela pessoa do educando, evidenciando assim a vivência de relações horizontais entre professor e aluno no ambiente escolar.
A relação professor e aluno se constitui um elemento pedagógico de suma importância no processo de ensino e aprendizagem, funcionando como fator decisivo nos aspectos relacionados ao incentivo da criatividade no ambiente escolar. A forma como o aluno é tratado, a postura adotada pelo docente, que pode ser de respeito ou de desrespeito, de autoritarismo ou dialógica, podem tanto favorecer como bloquear a criatividade do estudante. Nestes termos Alencar (2001) afirma que o professor pode ser tanto um inibidor como um facilitador, um bloqueador como um desbloqueador do desenvolvimento e da expressão da criatividade dos alunos.