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3 2 Relações de poder e a visibilidade do sujeito

Muito do funcionamento do poder disciplinar envolve certa dinâmica de presença e visibilidade. Nessa dinâmica, a presença é condição, e o princípio de visibilidade é parte da estratégia ou do mecanismo. Conforme dissemos, a visibilidade não é pressuposta na presença. Ou seja, nem toda entidade presente é visível. Por outro lado, a visibilidade pressupõe efeitos de presença, se não se resumir a representação de algo ou alguém que poderia ou deveria estar presente. Esses são fatores que interessam à disciplina por seus papéis na distribuição dos indivíduos no espaço e na submissão ao olhar hierárquico.

16 Compreendendo que a violência é “um concomitante ou um consequente da força, mas não seu

61 O poder disciplinar distribui indivíduos no espaço, impondo mecanismos de objetivação e individuação. Essa organização dos espaços, conforme Foucault (1979/2008), não é necessariamente repressiva. Ao contrário, ela é com freqüência produtiva. Nesse caso, o poder disciplinar visa aumentar a produtividade dos corpos, enquanto diminui sua força política. Em vez de se apropriar e retirar, o poder disciplinar tem como função maior “adestrar” para que, assim, possa retirar e se apropriar ainda mais e melhor (Foucault, 1979/2008). No caso de um curso a distância, espera-se justamente que os corpos produzam muito, desde que seus discursos não proliferem indefinidamente.

Segundo Foucault,

o exercício da disciplina supõe um dispositivo que obrigue pelo jogo do olhar; um aparelho onde as técnicas que permitem ver induzam a efeitos de poder, e onde, em troca, os meios de coerção tornem claramente visíveis aqueles sobre quem se aplicam. (FOUCAULT, 1979/2008: 153)

Tudo pode ser alvo do controle. O contacto com os demais indivíduos, as opiniões, a troca de informações, a arquitetura do espaço. A disciplina às vezes usa alguma espécie de cerca ou muro; às vezes aproveita a especificação de um local comum a todos, outras vezes emprega todo um sistema de mecanismos latentes em uma dada arquitetura. Em todo caso, há ao menos alguma instância em que o poder submete pelo jogo do olhar em uma distribuição espacial estabelecida. O poder “individualiza os corpos por uma localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa rede de relações” (FOUCAULT, 1979/2008: 125).

Nessa rede de relações, aqueles mais localizáveis são também mais fixos, ou os que conseguem mobilizar menos poder. Da mesma forma, os que se fazem presentes sem nunca serem vistos causam efeitos de visibilidade naqueles mais fixos, mesmo que não estejam, de fato, sendo observados. A vigilância, assim, não depende diretamente do ato de vigiar. Na verdade, ela é tão eficiente quanto são os efeitos dos mecanismos que a promovem. Dito de outra forma, em última instância, frequentemente não são indivíduos que vigiam; são os mecanismos que criam efeitos de vigilância sobre sujeitos visíveis. A distribuição dos indivíduos no espaço os expõe ao olho do poder, mesmo que não sejam efetivamente vistos por outros indivíduos, enquanto a vigilância deve ser o mais presente possível.

62 O poder disciplinar [...] se exerce tornando-se invisível: em compensação impõe aos que submete um principio de visibilidade obrigatória. É o fato de ser visto sem cessar, de sempre poder ser visto que mantém sujeito o individuo disciplinar. (FOUCAULT, 1975/2008: 156).

Outra questão importante é a imposição da presença na vigilância. Não basta ou, de fato, não importa se o indivíduo está ou não sendo vigiado. É preciso que ele saiba que está ou que pode estar sendo vigiado. Ou seja, é preciso que a presença do olhar que vigia seja objeto de uma percepção cognitiva, porque são precisamente os efeitos dessa presença que produzem a sensação de se estar sob esse olhar. Se o olhar hierárquico não produz efeitos de presença, do ponto de vista do vigiado, ele não existe ou, no mínimo, não está lá. Eis o papel dos tipos de efeitos de presença: fazer o olho do poder constantemente presente e, ao mesmo tempo, esconder a visibilidade de sua corporalidade.

A vigília do corpo leva a um processo de submissão e domínio do comportamento e, “em vez de emitir os sinais de seu poderio, em vez de impor a sua marca aos seus súditos, [o poder] capta-os num mecanismo de objetivação” (FOUCAULT, 1979/2008: 156). O poder disciplinar é exercido com sutileza, mas encontra-se constantemente presente.

A imposição, por exemplo, de uma relação de utilidade e obediência pressupõe que o poder opere certa distribuição de lugares e ajuste de diferenças, e essa operação ocorre, em grande medida, pelos efeitos da presença de sujeitos e pelo jogo de visibilidade e localidade que se instala. Por exemplo, uma dada arquitetura panóptica é concebida para produzir corpos dóceis pelo jogo do olhar, ou seja, o olho do poder disciplinar opera justamente na articulação de princípios de visibilidade. Trata-se de uma arquitetura simples: uma torre no centro de uma construção em anel formado por celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção. Cada cela tem duas janelas, uma voltada para a torre e a outra para o exterior do anel, permitindo que a luz atravesse a cela de lado a lado. A torre, por sua vez, é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel, mas são cobertas com persianas e, por dentro, há separações que cortam a torre em ângulo reto, prevenindo a visibilidade de uma sobra ou do efeito de contra-luz. A arquitetura pretende tornar os atores sempre visíveis e, ao mesmo tempo, fazer indecidível a presença ou ausência do vigia (FOUCAULT, 1975/1997). Os efeitos disso são que o vigia está sempre presente, e que os atores na periferia se sentem

63 constantemente vigiados. Ora, a arquitetura cria as condições, mas é o jogo dos modos de presença que efetivamente exerce o poder disciplinar. Exatamente pelo vigia não estar nunca visível é que se faz sempre presente. Já para o vigia, os prisioneiros só estão presentes enquanto estiverem ao alcance de seu olhar. Assim, a arquitetura em si torna latente o exercício de poder disciplinar, mas são os modos de presença que atualizam tal exercício, pondo os mecanismos em funcionamento.

Como se pode concluir, estar presente não pressupõe visibilidade. Similarmente, se não produzir efeitos de presença, a visibilidade se torna apenas uma representação de algo que deveria ou poderia estar presente. De fato, o estudo dos modos de se projetar a presença de um olhar hierárquico pode significar um ponto importante para a compreensão das estratégias de exercício de poder disciplinar e de resistência.

3. 3. Relações de poder, presença e procedimentos de construção