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2 INVENTANDO OUTROS CORPOS POSSÍVEIS

2.2 RELAÇÕES DE PODER E RESISTÊNCIAS NO CORPO

Não se pode reduzir o corpo a uma materialidade orgânica e fisiológica. Como vimos, o corpo comporta um conjunto de práticas e saberes que o produziram em recortes específicos de tempo e espaço. Tal como aponta Maria Rita de Assis César (2019), na sociedade hodierna não é diferente: os novos regimes de verdade da atualidade, que são advindos de diversas fontes discursivas, permanecem produzindo o corpo e agindo sobre ele. A partir daqui, o que nos interessa é enfatizar um outro ângulo de abordagem, diferente da feita até agora. Partindo do entendimento que o corpo esteve sempre imerso nas relações de poder, tentaremos recuperar a maneira como os dispositivos de poder passaram a incidir mais efetivamente sobre os corpos e a vida, em um exercício de abordar uma microfísica do corpo e das resistências possíveis a partir dele.

No século 20, a predominância de algumas perspectivas teóricas – como o marxismo, por exemplo – colocou o poder em uma posição relativamente fixa e muito vinculado às categorias econômicas, definindo que determinados grupos ou instituições (seja o Estado, a burguesia ou a elite) o possuem, e outros grupos (os marginalizados, os trabalhadores pobres, entre outros) não (SANTOS, 2016). Em contrapartida, o conjunto das obras de Michel Foucault trouxe um novo entendimento para pensar o poder enfatizando seu caráter relacional:

Trata-se de uma concepção renovadora do entendimento do que é o poder, e capaz de gerar uma torção desestabilizadora nas bases reducionistas que fazem passar a inteligibilidade do poder sobre o domínio jurídico e econômico da instância estatal. O poder em Foucault é pensado como relação, ele raramente usa a palavra poder, mas a expressão – relações de poder – e quando usa a primeira é sempre no sentido da segunda. O poder pensado como relações de poder traz a ideia de força. (SANTOS, 2016, p. 262)

Foucault olha para a História tirando o foco das explicações pelo contexto, das narrativas em torno de heróis e dos macro eventos, os quais incontestavelmente permanecem tendo relevância. Contudo, há uma ênfase nas análises micro, e isso não quer dizer que está pensando em instâncias pequenas, mas que as interações sociais estão no centro do estudo, porque o micropoder opera em toda a sociedade. A partir disso se percebe as relações de poder como assimétricas, e algumas forças prevalecem à outras constituindo formas de dominação. Todavia isso não é uma sentença rígida, mas sim algo que tem a possibilidade de ser modificado, porque as relações de poder são instáveis, reversíveis e permeadas pela liberdade (SANTOS, 2016). Portanto, nessa concepção ninguém exatamente detém o poder. Antes, o poder circula, está em movimento, é descentralizado em uma rede de forças que são exercidas sobre outras, e se efetiva

como uma prática entre as pessoas, que ao mesmo tempo fazem uso dele e sofrem sua ação. Ou seja, as relações de poder perpassam todos os corpos e lugares, são imanentes a todo o corpo social, e permeiam todas as instâncias da sociedade – é impossível pensá-la sem tais relações. Desse modo, o poder não é uma categoria primeiramente negativa, malvada, dominante, opressora. Não há juízo de valor, o poder não é bom ou ruim. O poder é um conjunto de relações que está em todas as esferas sociais, e que atravessa e produz os corpos e os acontecimentos (FOUCAULT, 1988b).

No entanto, como o próprio Foucault afirma em O sujeito e o poder (2009, n. p.), suas pesquisas não buscaram estudar o poder por si só, mas tentaram “[…] criar uma história dos diferentes modos pelos quais, em nossa cultura, os seres humanos tornam-se sujeitos”. Com isso, sua obra atentou-se para o fato de que o homem, enquanto sujeito, só se tornou um objeto de investigação científica muito recentemente na História; mais precisamente, a partir da Modernidade. Assim, o autor buscou compreender como esse saber sobre si mesmo se efetivou.

É importante compreender que Foucault constrói seus estudos rejeitando a busca pela origem do problema enunciado, e se distanciando também das interpretações que pretendem revelar uma verdade que está oculta. A intenção de sua investigação é compreender como determinado discurso ecoa tão expressivamente na sociedade que se transforma em verdade (FOUCAULT, 2009). Exemplificando as indagações: o homem se tornou um sujeito reflexivo, ou seja, passamos a pensar sobre nós como sujeitos; mas de que maneira isso ocorreu? A partir de quais mecanismos o sujeito passou a se entender como tal? E qual a relação disso com o corpo?

O mais importante que aprendemos com Foucault é que o corpo vivo (e, portanto, mortal) é o objeto central de toda política. Il n’y a pas de politique qui ne soit pas une

politique des corps (não existe política que não seja uma política dos corpos). Mas o

corpo não é para Foucault um organismo biológico dado sobre o qual o poder age. A própria tarefa da ação política é fabricar um corpo, colocá-lo em funcionamento, definir seus modos de reprodução, prefigurar as modalidades de discurso por meio das quais esse corpo se torna ficcionalizado até poder dizer “eu” (PRECIADO, 2020, p. 163, tradução nossa11).

Ou seja, em vez de pensar um corpo que é alvo do poder, é importante pensá-lo como uma fabricação dele. O corpo é colocado em funcionamento no bojo das relações de poder de modo tão intenso que, em algum momento, produz uma identidade, afirma-se como um “eu”

11 Texto original: “Lo más importante que aprendimos de Foucault es que el cuerpo vivo (y por tanto mortal) es el

objeto central de toda política. Il n’y a pas de politique qui ne soit pas une politique des corps (no hay política que no sea una política de los cuerpos). Pero el cuerpo no es para Foucault un organismo biológico dado sobre el que después actúa el poder. La tarea misma de la acción política es fabricar un cuerpo, ponerlo a trabajar, definir sus modos de reproducción, prefigurar las modalidades del discurso a través de las que ese cuerpo se ficcionaliza hasta ser capaz de decir ‘yo’”.

(PRECIADO, 2020). Desse modo, a partir de Foucault vemos que a insurgência do homem como objeto do saber se localiza historicamente no pensamento moderno ocidental, e o reconhecimento de determinado corpo como humano torna-se necessário para ter direito à vida: “A vida, como o corpo, assume um duplo aspecto: ao mesmo tempo em que são concebidos como campos de assujeitamento, como instâncias calculáveis, mostram-se espaços éticos de processos de subjetivação […]” (WIRCKER; KIFFER, 2014, n. p.).

É justamente por conta desse incômodo teórico, de entender como nos tornamos sujeitos, que os estudos de Foucault se debruçaram sobre as relações de poder – segundo Deleuze (1993), para Foucault o poder muito mais do que repressor, funciona por normalização e disciplina. Nesse sentido, o poder é produtivo: é a construção social da realidade (SANTOS, 2016). O poder cria singularidades, produz sujeitos e modos de vida. Funciona por incitação, ou seja, a partir de modelos normativos, conduz os sujeitos a se adequarem à norma e a rejeitarem aquilo que foge dela. As relações de poder não são estáticas: elas estão sujeitas a transformações e de fato se modificaram no percurso da História (FOUCAULT, 1999). Por isso, atentaremo-nos brevemente às mudanças na configuração das relações de poder, ainda pensando com as produções de Michel Foucault.

Uma das formas de exercício de poder se localiza entre o medievo europeu e o fim do Antigo Regime. Trata-se de um dispositivo de poder de morte: o poder soberano. Especialmente nos regimes monárquicos da Europa, a maneira de submeter os súditos à vontade do soberano era exercida por meio da prática do confisco. Os bens, a propriedade, os impostos e, em último grau, a própria vida, eram capturados para que houvesse a execução de uma autoridade absoluta. Nesse regime, a lei é a vontade do soberano. Ele é quem exige a morte, pois é ele quem tem o poder de expor à morte. Uma característica importante é que essa exigência não se dava de maneira vazia de significados. O suplício, o qual se operava como um ritual, era configurado por punições e torturas públicas, sempre grandiosas e espetaculares (FOUCAULT, 1988a). Esses suplícios não eram práticas que ocorriam com muita frequência. O próprio monarca não aparecia tantas vezes em público e a maior parte dos súditos sequer conhecia sua figura. Isso ocorria devido a diversos fatores, mas principalmente por conta do funcionamento da Sociedade de Corte, a qual escolhia manter a distância entre os outros grupos sociais como uma estratégia de distinção. A morte, categoria central naquela sociedade, era extremamente ritualizada e grandiosa porque estava carregada de simbolismo, já que naquele contexto o súdito só tinha

direito de estar vivo ou morto graças ao soberano, e desse modo, o efeito desse mecanismo de poder sobre a vida é exercido a partir da possibilidade do soberano tirá-la (FOUCAULT, 1999). Todavia, a partir do século 17, há uma nova política em curso, que coloca o corpo individual como alvo, e os dispositivos de poder passaram a agir sobre os corpos e a vida de modo mais efetivo, e a isso Foucault (1988a) nomeia como tecnologia disciplinar. Essa técnica de poder é aquela que adestra, regula e aumenta a força útil enquanto diminui a potência política, docilizando os corpos. As condutas que se dispõem sobre o corpo configuram uma anátomo- política cuja incidência nos corpos opera de maneira individual e visa à produtividade (FOUCAULT, 1999).

Em outras palavras, houve uma alteração na dinâmica das relações. Antes, a soberania se expressava na máxima deixar viver e fazer morrer, ou seja, o soberano poderia provocar a morte e poderia manter a vida. Passou-se a questionar o horror das punições grandiosas, e em especial, o direito do soberano sobre a vida dos súditos. Agora, com o poder disciplinar, a tarefa é gerir a vida, sob a nova máxima deixar morrer e fazer viver: a vida se torna o alvo (MAÇÃO, 2016a). E na incumbência de reger a vida por meio da atuação sobre o corpo individual, a técnica disciplinar está centrada na distribuição espacial dos corpos quando os separa, alinha, coloca em série e vigia. É necessário organizá-los em torno de um campo de visibilidade, de modo que alguns artifícios, como as hierarquias, as inspeções, os sistemas de vigilância, vão ganhando protagonismo nas relações. Além da fábrica, do quartel e do hospital, uma expressão da disciplina está na escola, onde constantemente procedimentos acometem os corpos – enfileirados, uniformizados, regrados, seguindo horários, numa constante vigilância mútua – a fim de moldar suas necessidades e desejos para obedecer (FOUCAULT, 1999).

No entanto, Michel Foucault revisitava com frequência suas proposições, e já no fim de sua vida, tensionado por outros autores, mostrou que não foi a disciplina que inaugurou a mira no corpo. Por mais que antes tenha afirmado que a modalidade da soberania enquanto esquema organizador deixava escapar coisas no nível dos detalhes e das massas (FOUCAULT, 1999), o autor acrescentou que no exercício do poder soberano há uma ação conjunta de um outro poder relacionado, o chamado poder pastoral (FOUCAULT, 2009).

A pastoral é importante para pensarmos como se deu a produção do indivíduo moderno, consciente de sua humanidade. Sabemos que o poder soberano pende para a morte, mas é o governo dos vivos, a conduta dos homens, que estava na instância pastoral. O surgimento do

Estado Moderno só foi possibilitado a partir da confluência entre o poder soberano e do poder pastoral, porque o Estado é uma força totalizadora e individualizadora, características advindas dos tais mecanismos de poder, respectivamente (FOUCAULT, 2009).

O poder pastoral se utiliza de técnicas individualizadoras, entre as quais a confissão é a mais exemplar. Justamente porque, no momento em que a ovelha se confessa, ao enunciar seu pecado ela se auto examina e produz uma consciência de si. Ou seja, essa técnica de poder atua sobre as pessoas no sentido de exigir obediência e submissão, mas além disso, incita-as a olharem para seus atos e para seus pecados ao longo da vida, e assim elas sondam o passado e a vida atual. Desse modo, elaboram uma análise constante sobre suas práticas, uma contínua penitência analítica (FOUCAULT, 2001). É nesse momento que ocorre o irrompimento do indivíduo.

Já podemos notar na pastoral o corpo como alvo de uma adequação, porque seu objetivo é impedir o desvio de condutas. O corpo-súdito foi alvo de torturas e condenação pelos confiscos e suplícios, o corpo-ovelha foi alvo de penitências e produções de verdade sobre si, e ambos atuavam aliados. Desse modo, o poder pastoral versava sobre a salvação, mas ao longo do tempo essa salvação ganhou novos contornos, porque esse mecanismo de poder também se reconfigurou e ultrapassou a instância eclesiástica (FOUCAULT, 2009).

No contexto religioso, a pastoral quis não exatamente promover uma salvação para a vida após a morte, mas sim conduzir os fiéis a garanti-la ainda na vida terrena, e isso ganha outros significados no âmbito secular. Na medida em que a pastoral foi perdendo sua força, instrumentos como a saúde, bem-estar e segurança adquiriram a conotação da palavra salvação, porque o indivíduo passa a buscá-los ao longo da vida (FOUCAULT, 2009). E, não sem razão, todos esses aspectos estão, de alguma maneira, vinculados ao corpo.

Contudo, ainda que o poder pastoral também tenha estabelecido uma ação sobre a vida, a novidade – se é que podemos chamar assim – da técnica disciplinar, reside no fato de que com ela nenhum detalhe escapa do exercício de poder que incide sobre o corpo individual, o homem- corpo. “O corpo tomado como máquina: é preciso adestrá-lo, aumentar suas aptidões, normalizá-lo, torná-lo útil, facilmente administrável e lucrativo. É preciso extrair dessa máquina biológica o máximo que ela pode produzir” (MAÇÃO, 2016a, p. 73).

Como podemos observar, os dispositivos de poder não são fixos, pois se atualizam e acompanham as transformações sociais. Após o dispositivo de poder disciplinar, um novo

avanço sobre a vida ocorre, e não mais na instância individual, mas sim a partir do ser humano como espécie. Esse dispositivo não exclui a disciplina, mas a integra e a modifica. Ele é uma regulamentação, é chamado de biopolítica, e tem como alvo o conjunto de indivíduos, a população (FOUCAULT, 1999).

Com a razão primeira de proteger a vida, a biopolítica age sob a máxima de fazer viver e deixar morrer. Opera-se, então, uma gestão do corpo por diversas técnicas, como a medicina, por exemplo – é nesse momento que os discursos de saúde e higiene se popularizam, e com isso também a retórica da medicalização. Ou, melhor dizendo, os poderes precisam garantir uma vida, então se torna importante para a biopolítica quantificá-la, lidar com taxas, estatísticas e probabilidades, pois o olhar está voltado para o conjunto das pessoas: a população. Desse modo, o domínio biopolítico se preocupa com problemas como a mortalidade, saúde e possibilidade do adoecimento, a questão da segurança e prevenção contra acidentes. Ou seja, qualquer assunto que se apresente como ameaça à população é um risco, um perigo a ser combatido (MAÇÃO, 2016a).

Vemos então que, no contexto europeu, a partir do final do século 18 e especialmente no 19, emergiu o biopoder, uma coexistência dos poderes descritos por Foucault, que conforme o próprio autor afirma, foi indispensável para o desenvolvimento do capitalismo (FOUCAULT, 1988a). O biopoder é o poder em sua forma mais avançada e atualizada. Ele atua “[…] sobre tudo o que se refere à vida, não para potencializar suas forças afirmativas, mas para controlá-las e fixá-las num território que facilitasse a gestão de suas virtualidades” (PEIXOTO JR, 2005, p.59).

O biopoder herda do poder soberano a exigência da morte; do pastoral, traz a conduta da subjetividade; da disciplina, carrega a gestão do corpo-máquina; mas, agora, com a chamada biopolítica, é o gerenciamento da vida que está em jogo, e não só de modo individual, mas sim regulamentando a população. Na biopolítica, o corpo é uma fronteira entre o social e o sujeito, e é controlado na forma de uma população. No funcionamento das relações de poder, o corpo se configura como objeto das forças (MAÇÃO, 2016a).

O biopoder tem como alvo o corpo múltiplo da população, e para efetivar-se sobre ela implementa a regulamentação dos fenômenos coletivos. Nesse sentido, os mecanismos reguladores têm a função de otimizar o estado de vida da população, isto é, sua atuação está em baixar a morbidade e prolongar a vida. Ao contrário de outrora quando a morte era um

espetáculo, com a biopolítica ela se torna algo que deve ser escondido, resguardado à instância privada. Esse choque entre os sistemas de poder se deu porque na ótica da soberania, a morte era a passagem do poder soberano terreno para o soberano espiritual. O domínio da mortalidade foi, aos poucos, deixado de lado, porque o biopoder passou a intervir não só organizando a vida como também aumentando-a (FOUCAULT, 1999).

Nesse contexto, o neoliberalismo expressa uma intensificação do funcionamento do biopoder. A partir do século 20, na novíssima configuração capitalista é estabelecida uma relação muito intensa com a subjetividade: o poder produz o corpo, conduz condutas, atua diretamente nas subjetividades e suga as subjetividades. Como indica Peter Pelbart (2008a), o corpo passa a se adequar às normas científicas e estéticas, em um desejo obsessivo por saúde e pela beleza do espetáculo, e isso é realizado voluntariamente: “[…] o foco do sujeito deslocou-se da intimidade psíquica para o próprio corpo. Hoje, o eu é o corpo. A subjetividade foi reduzida ao corpo, à sua aparência, à sua imagem, à sua performance, à sua saúde e à sua longevidade” (p. 5). Além disso, a biopolítica visa à recolocação dos corpos nos processos biológicos pela biorregulamentação. Isso expressa que a disciplina e a biopolítica não se excluem, e na verdade, se articulam. Sobre isso, Foucault (1999) pontua que o poder incumbiu-se da vida, porque cobriu “[…] toda a superfície que se estende do orgânico ao biológico, do corpo à população, mediante o jogo duplo das tecnologias de disciplina, de uma parte, e das tecnologias de regulamentação, de outra” (p. 302).

Essa ação conjunta da biopolítica e da disciplina pode ser mais bem compreendida pelo dispositivo da sexualidade, que no século 19 se tornou um campo de importância estratégica para o poder. As práticas sexuais são comportamentos corporais, portanto, são alvos do controle disciplinar individualizador, que requer a autovigilância constante12. Além disso, são também alvo da regulamentação dada à população na medida em que adquirem efeitos procriadores em processos biológicos que concernem ao conjunto de indivíduos. Nesse sentido, Foucault (1999) afirma que “a sexualidade está exatamente na encruzilhada do corpo e da população. Portanto, ela depende da disciplina, mas depende também da regulamentação” (p. 300).

12 Nesse sentido, as aulas de Foucault registradas no livro Os anormais (2001) abordam como o conceito de

“anormal” foi tomado pelos meios jurídicos e psiquiátricos no século 19 para pautar (e produzir) comportamentos sexuais desviantes. Um bom exemplo disso se vê na masturbação, que é tomada como conduta a ser corrigida, gerando uma vida autovigiada e regrada.

Além disso, algumas práticas na esfera do sexo, quando classificadas como anormais, configuram-se como comportamentos sociais que trazem riscos à população e devem ser combatidas. E é justamente por isso que a sexualidade permanece sendo objeto da normalização. Para Foucault (1988a), a noção de sexo une elementos anatômicos, condutas e prazeres, além da sexualidade ser uma figura histórica que fornece a inteligibilidade ao corpo, no sentido de que é uma unidade fictícia, que revela a identidade do sujeito, como se fosse um segredo a ser descoberto, desvendado.

Os estudos de Michel Foucault sobre a biopolítica se tornam ainda mais instigantes se, a partir de uma visão decolonial, olharmos para o contexto brasileiro em um exercício de tropicalizar a teoria. Giuseppe Cocco e Bruno Cava (2018) mostram que “[…] no Sul, desde a colonização, o poder sempre foi biopolítico” (p. 48). O que os autores propõem é que, mesmo que o filósofo francês tenha relacionado a virada neoliberal à efetivação da biopolítica, bem antes disso, durante a colonização dos trópicos, os colonizadores dependeram do governo dos corpos em forma de populações. Além disso, eles também aplicaram uma atenção específica aos territórios a fim de controlar os fluxos migrantes (COCCO; CAVA, 2018).

Vale destacar que os autores não colocam a colonização como uma causa para o surgimento do capitalismo neoliberal em uma simplificação histórica, contudo, afirmamos que a empresa colonial dependeu da biopolítica para funcionar. Nesse entendimento descolonizado sobre biopolítica que os autores apresentam, voltamo-nos para o modo como as Metrópoles13 agiam sobre as colônias, com uma maneira específica de governamentalidade, a qual precisou se atentar a um espaço transnacional. Para isso as Metrópoles fizeram uso das tecnologias do poder biopolítico, o que “envolveu toda uma economia de práticas e discursos relacionados à mistura dos corpos, à composição e criação de raças, à difusão e aprimoramento de dispositivos de controle no grande aberto espaço colonial” (COCCO; CAVA, 2018, p. 63).

Portanto, o biopoder atlântico começou a ser delineado pela necessidade europeia do comércio

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