CAPÍTULO 1 A FORMAÇÃO DO COORDENADOR PEDAGÓGICO
1.5 RELAÇÕES DE PODER, ESTADO MÍNIMO E NEOLIBERALISMO: SUAS
A partir da década de 1990, o Brasil assumiu um ideário neoliberal, o que ocasionou diversas mudanças do mundo do trabalho. Moraes (2001), relata que o neoliberalismo pode ser compreendido como uma ideologia, isto é, uma forma de interpretação e julgamento da sociedade. De acordo com esta filosofia, a crise do capitalismo é a crise do Estado, o que leva a reformulações que visam a superação da crise econômica. As mudanças se dão sobretudo na administração, privatização de estatais e serviços públicos, além da criação de leis que visam diminuir ao máximo a intervenção do Estado em negócios privados. Passa-se a apoiar os interesses da classe dominante, consentindo ao mercado regular a economia do Estado. Ou seja, o
Estado perde o controle de sua economia, e torna-se estado mínimo, sendo que o mercado assume e conduz a economia de acordo com seus interesses. E, é a partir deste contexto, que a educação no Brasil passou por mudanças e redefinições das políticas educacionais.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930 – 2002), é um respeitável crítico do neoliberalismo, discute questões sociais que envolvem o sistema cultural e educacional. O neoliberalismo é abordado em suas obras como um modo de poder ou estrutura de dominação. A influência neoliberal se estabeleceu socialmente por meio de um discurso ideológico que visou a modernização, mas que é compulsória por intermédio de reformas políticas que pretendem diminuir as responsabilidades do Estado. Bourdieu (1998), questiona os efeitos neoliberais na sociedade:
O mundo econômico é realmente, como pretende o discurso dominante, uma ordem pura e perfeita, desenvolvendo implacavelmente a lógica das suas consequências previsíveis, e disposto a reprimir todas as transgressões, através das sanções que inflige, seja de forma automática, seja – mais excepcionalmente – por intermédio dos seus braços armados, o FMI ou a OCDE, e das políticas que estes impõem: redução do custo da mão-de-obra, restrição das despesas públicas e flexibilização do mercado de trabalho? (BOURDIEU, 1998, p. 1).
À vista disso, Bourdieu (1998), aponta o neoliberalismo como sendo o aniquilamento metódico de tudo o que é público, mesmo quando refere-se a problemas sociais. Para ele, o neoliberalismo é uma maneira de revestir o sistema do capital com diferentes argumentos, mas ainda assim a essência permanece a mesma, não muda, continua estabelecendo a dominação de populações por uma minoria, que possui o privilégio de determinar as regras da vida social e atender seus interesses. Vale salientar que o poder, expresso nas fundamentações de Pierre Bourdieu, se articula e se desenvolve de maneira sutil, se dá sem o uso da força e violência. Manifesta-se simbolicamente, por isso chamado de poder simbólico.
A exemplo de como o poder se estabelece socialmente de maneira simbólica, Bourdieu (2002) demonstra preocupação com a escola. Ressalta que essa instituição não é neutra, pois as constantes mudanças na estrutura política e econômica resultantes do ideário neoliberal, influenciam a educação com uma abordagem semelhante à lógica de mercado. Atribui à escola, características de competitividade, que transformam drasticamente as relações no campo educativo e, consequentemente na formação de agentes sociais. Um modelo de educação
subordinada ao neoliberalismo propiciou a ampliação do acesso ao ensino, ensino este, que visa adequar os alunos aos interesses capitalistas.
A inserção do Brasil na lógica do neoliberalismo, sob a ilusória modernização do Estado, transformou-o em um “Estado gerencial”, de acordo com estudos de Dourado (2006, p. 25). E, trata-se de um processo de reformas do Estado e da administração, que pretende minimizar o papel do Estado no que diz respeito às políticas públicas.
Teoricamente ao estar na escola, todos os alunos têm acesso as mesmas aulas e seriam avaliados da mesma maneira, obedecendo as mesmas regras, consequentemente as chances seriam iguais para todos. Desmistificando isso, Bourdieu relata que,
A AP3 é objetivamente uma atividade violência simbólica, num primeiro sentido, enquanto que as relações de força entre os grupos ou as classes constitutivas de uma formação social estão na base do poder arbitrário que é a condição da instauração de uma relação de comunicação pedagógica, isto é, da imposição e da inculcação de um arbitrário cultural segundo um modo arbitrário de imposição e de inculcação (educação) (BOURDIEU, 1982, p.21).
Bourdieu (1982) aponta que as chances são desiguais, já que alguns estão em condições favoráveis em relação a outros e conseguem atender melhor às expectativas e exigências implícitas no ambiente escolar. A violência simbólica exercida pela escola não é fazer com que o aluno perca a cultura familiar, mas sim ditar a ele uma nova cultura exógena. Assim, “a sociedade produz (e a escola reproduz)” (BONNEWITZ, 2003, p. 118). A reprodução social, tem a contribuição da escola para sua efetivação, caracteriza-se como uma forma de manter o poder nas mãos de minorias. A escola “Longe de ser libertadora, ela é conservadora e mantém a dominação dos dominantes sobre as classes populares” (BONNEWITZ, 2003, p. 118). O autor relata que a teoria bourdieusiana mostra que a escola é uma das principais instituições de reprodução de privilégios culturais.
Os agentes dos campos4, especificamente do campo educativo, têm a possibilidade de atuar no aumento ou conservação do seu capital5 em conformidade
3 AP: Autoridade Pedagógica
4 O conceito de campo para Bourdieu (1982), é entendido como um micro espaço social provido de
certa independência por haver nele leis e normas próprias, mas que concomitantemente está condicionado e sofre influências de um espaço social maior.
5 Para Bourdieu (2002), o capital não é apenas econômico, mas existem diferentes tipos de capital que
com o que está estabelecido, as regras do jogo. Assim, se efetiva a reprodução social nos campos. Mas, os agentes têm também a possibilidade de transformar, parcialmente ou toda a estrutura por meio de mudanças na atribuição de valores a outros capitais, além daquele que é prioritariamente valorizado pelo campo. Existe dentro dos campos, uma autonomia relativa, e, no campo educativo, por exemplo, o efeito da autonomia relativa faz com que o sistema de ensino contribua ou não para a reprodução social.
A autonomia relativa no campo educativo, está condicionada e é influenciada diretamente e constantemente pelas políticas neoliberais, deste modo, o trabalho do coordenador pedagógico, por exemplo, é permeado de afazeres que cumprem funções que vão ao encontro de conservar os ideais do neoliberalismo. O neoliberalismo apropria-se das instituições escolares e busca a imposição de novas normas que devem ser seguidas de forma que contribua para expandir o capital, faz isso de maneira sutil, por meio do que Bourdieu (1982), chama de poder simbólico. Ainda que os docentes procurem efetivar a educação transformadora no interior das instituições, e, as normas e leis atendam a isso teoricamente, o que ocorre é um mero discurso ideológico. Na prática, o que se tem é uma educação conservadora que atende aos interesses da classe dominante, em que os atrativos econômicos predominam.
O coordenador pedagógico acaba envolvido em vários afazeres no cotidiano escolar, ficando impossibilitado, muitas vezes, de realizar uma prática pedagógica crítica, problematizadora, reflexiva e emancipatória. Portanto, tende a agir como um agente da reprodução social, se posicionando em conformidade com questões preestabelecidas, e decididas de forma alheia aos interesses das instituições de ensino. Com isso, Bourdieu e Passeron (1982) dizem que o trabalho pedagógico procura manter a ordem estabelecida.
A escola por ser considerada tradicionalmente como uma instituição neutra e autônoma, consegue legitimar o poder vigente, atuando na eliminação dos menos capacitados e na seleção dos mais capacitados, e atende a uma dinâmica de meritocracia.
O capital mais valorizado pelo campo é possuído pelos agentes que os compõe em proporções diferentes, e essa disparidade é responsável pela hierarquia no campo.