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Relações e inversões

No documento Imagens em discurso II (páginas 100-103)

O interesse e a dificuldade em se analisar as relações entre Armadilha para Lamartine e sua fortuna crítica está no fato de elas trabalharem em torno das mesmas questões e conceitos. Uma leitura biográfica ou documental pressupõe, ao menos em parte, a adoção de uma posição-Espártaco acerca da escrita: a crença em sua transparência, em sua identidade com o real, em sua capacidade de registrar o mundo, sem tirar nem por. Na medida em que ajuda a justificar o romance, pode-se dizer que essa posição manifesta, a seu modo, um veto ao ficcional, para usarmos uma expressão de Luiz Costa Lima.29 A defesa de sua ficcionalidade, por outro lado, responde em parte a uma posição-Lamartine, confirmando a possibilidade da constituição do um pelo recurso ao outro, seja esse

“um” um personagem, como Lamartine, ou uma obra, como Armardilha para Lamartine.

No entanto, a questão não é tão simples. Ao menos no caso da crítica de Arnaldo Jabor, a leitura documental do romance implica uma lei-tura pelo avesso do Diário de Espártaco/Carlos Sussekind, pai. Ademais, aceita uma fluidez entre a ficção e o documento totalmente avessa ao caráter regrado da escrita de Dr. Espártaco. Por outro lado, as leituras documentais e biográficas acabam como que autenticando um docu-mento falso, que substitui os acontecidocu-mentos da vida pelos acontecimen-tos do romance, movimento pelo qual o discurso fingido sobrepõe-se, paradoxalmente, ao discurso verdadeiro.

Esse mecanismo de substituição do pretensamente verdadeiro pelo falso reatualiza o embate entre as práticas de escrita do romance, recon-figurando-o em sentido inverso. No desenrolar do romance, somos leva-dos a perceber que o Diário de Espártaco é um monumental fingimento, que pouco se diferencia do discurso de Lamartine no que diz respeito à sua proximidade com o real (do romance); agora, somos levados a crer que as alterações de Carlos Sussekind no diário paterno e sua introdu-ção em um romance importam pouco ou nada no que diz respeito à sua relação com a realidade extratextual. No enredo do romance, a aparente conciliação entre os discursos de Lamartine e Espártaco não elimina a

29 LIMA, Trilogia do controle, 2007.

preponderância atual do discurso da normalidade sobre o do fingimento;

agora, é o fingimento quem dá as cartas na aparente fluidez com que se passa da ficção ao documento, na medida em que temos acesso somente ao diário alterado e inserido em um outro contexto discursivo.

Uma inversão parecida pode ser percebida se levarmos adiante a comparação entre a defesa da ficcionalidade da obra e as práticas de escrita que se embatem no interior dela. Ao defenderem e justificarem a ficcionalidade da obra, os críticos expõem suas definições de ficção:

certa adequação especial entre as partes e o todo, em Geraldo Carneiro;

a natureza do pacto estabelecido com o leitor, em Luiz Costa Lima; a negação da cópia em nome do trabalho de invenção e intervenção do escritor, em Ana Cristina César. Por mais diferentes que sejam, ao serem utilizadas na análise de Armadilha para Lamartine, essas concepções par-tilham o objetivo comum de buscar controlar as ressonâncias biográfico--documentais que o romance não cessa de provocar.

A defesa do ficcional assume, assim, em relação às referidas ressonâncias biográfico-documentais, um papel parecido com o de Dr.

Espártaco em relação à desordem do mundo, da escrita e dos sujeitos:

estabelecer diretrizes de produção e leitura, tentando eliminar o que se desvia delas. O embate de forças novamente se inverte em favor do fin-gimento: é ele quem dá as cartas e busca delimitar as regras, jogando agora em seu próprio campo.

Não há nisso nada de condenável, nem espero que minhas pala-vras sejam compreendidas como uma crítica à teorização sobre a ficção, em nome de uma suposta liberdade interpretativa. Pretendi apenas deli-near, nestas breves reflexões, as maneiras pelas quais o embate roma-nesco se prolonga e se modifica no debate crítico, e que neste, assim como naquele, não há espaço para uma conciliação entre o biográfico--documental e o ficcional, entre o discurso pretensamente verdadeiro e o assumidamente fingido. Haverá sempre uma relação de poder entre eles, que, de acordo com a leitura aqui apresentada, o romance mobiliza em favor do segundo.

Acredito que seja o caráter agônico dessa relação o que se perde de vista quando se afirma ser a confusão entre a ficção e a realidade (e correlatos) a característica distintiva da obra de Carlos Sussekind. No

interior de cada um de seus livros, se reatualiza uma disputa entre o fingimento e o discurso da verdade e da norma, contra o qual são mobi-lizadas uma série de trapaças, falsificações e brincadeiras, mas que só garantem àquele algumas vitórias de Pirro. As mobilizações da leitura em seus espelhamentos da obra de que falamos neste texto poderiam ser vistas, nesse sentido, como mais uma dessas trapaças, que logra afinal uma vitória para o fingimento, ainda que fora do universo romanesco.

Referências

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GREENBLATT, Stephen. Renaissance self-fashioning: from More to Shakespeare. Chicago: University of Chicago Press, 2005.

JABOR, Arnaldo. Pai e filho são chave para labirinto brasileiro, Folha de S. Paulo, São Paulo, 30 nov. 1991, Letras, p. 5.

LIMA, Luiz Costa. Dispersa demanda: ensaios sobre literatura e teoria. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1981.

LIMA, Luiz Costa. Trilogia do controle. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Topbooks, 2007.

MEDEIROS, Benício. As duas faces do Dr. Espártaco, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 dez. 1991, Idéias/Livros, p. 6–7.

MOUTINHO, Nogueira. Armadilhas de muitos segredos, Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 set. 1977, Ilustrada, p. 22.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. As armadilhas de Sussekind, Folha de S. Paulo, São Paulo, 26 set. 1993, Mais!, p. 5–6.

PINTO, Fábio Bortolazzo. Autoritarismo e patrulhamento: sobre a recepção de "Armadilha para Lamartine", de Carlos & Carlos Sussekind, pela censura e pela crítica literária nos anos 70, Nau Literária, v. 1, n. 1, 2008, p. 1-6.

PIRES, Paulo Roberto. A linguagem diante do espelho, O Globo, Rio de Janeiro, 5 jan. 1992, Segundo Caderno, p. 7.

SUSSEKIND, Carlos & Carlos. Armadilha para Lamartine. Rio de Janeiro: Labor, 1976.

A prisão inscrita no corpo: eu x outro na metáfora

No documento Imagens em discurso II (páginas 100-103)