• Nenhum resultado encontrado

4. RESULTADOS

4.7 Relações entre Capacidade Relacional e Desempenho

Kale et al. (2002) sugerem que experiências anteriores e estruturas dedicadas à

gestão da aliança contribuem para o desempenho das JVs. Porém, há vários exemplos de

insucesso em alianças que tinham a visão correta, mas apresentavam pouca coordenação entre

os parceiros (DYER; KALE em HELFAT, 2007).

4.7.1. Análise de Caso A

A existência de um efetivo mecanismo de governança liderado pelo board executivo

da JV e cascateado nos mercados pelos leadership team, com claras responsabilidades,

definem as estratégias e objetivos, contribuem para a gestão de conflitos e arbitram quando

necessário, evidenciam a existência de capacidade relacional na JV estudada. A contribuição

positiva desta governança no desempenho da JV pode ser identificada através da clareza como

os objetivos da JV são comunicados e do nível de comprometimento dos membros.

“Quanto aos objetivos, metas anuais definidas para a JV, este sim é bem claro para os membros, sempre teve muita clareza, muita concordância entre as partes e sempre objetivos bem desafiadores, sempre comunicado a todos os níveis e a todos os membros da JV” (Gerente de Marketing – Caso A).

“O comprometimento das pessoas é de atingir os resultados individuais que irão contribuir para o resultado total da JV, porque foram cascateados a partir dos objetivos alinhados e validados no nível do board” (Gerente de Inovação – Caso A).

A flexibilidade para mudanças e a habilidade da JV em gerenciar tensões e conflitos,

rotina denominada coordenação entre organizações (Schilke; Goerzen, 2010), não são

percebidas como indicadores de desempenho da JV, mas como medidas de sobrevivência em

ambientes de negócios altamente competitivos e de constantes mudanças. Importante ressaltar

que a JV recém-formada inicia uma nova fase, na qual a capacidade relacional desenvolvida

até agora, será ainda mais importante para o seu desempenho.

“Seja JV ou não JV, para qualquer organização, ter a capacidade de adaptar-se, promover mudanças organizacionais para acompanhar as mudanças do mercado em que compete são fundamentais para questão e sobrevivência e competitividade” (Diretor de Operações – Caso A).

“São indicadores importantes, mas não são quantificáveis, principalmente agora nesta fase de reestruturação da JV” (Gerente de Marketing – Caso A).

Finalizando, com relação às influências de relações de poder e seu impacto no

desempenho da JV, observa-se claramente que apesar de não haver uma estrutura dominante

formal, o parceiro “N” tinha uma influência maior na definição e na gestão dos indicadores de

desempenho da JV. A nova participação acionária e a reestruturação da JV trouxeram uma

mudança radical, agora as estratégias, os indicadores e os processos estão sendo redefinidos

de acordo com a visão e interesse da parte dominante (“F” com 51%). Ou seja, a parte

dominante, seja ela formal ou adquirida, influencia diretamente a gestão, os indicadores e o

desempenho desta JV.

“Antes “N” impactava muito mais nos resultados, muito mais nas decisões e acabava dominando um pouco mais, sobretudo os objetivos financeiros. Hoje é o contrário, os objetivos foram definidos por “F”, informaram ao board, mas foi topdown” (Gerente de Marketing – Caso A).

pA_CR&D-1: Um efetivo mecanismo de governança na JVI contribui positivamente no

comprometimento dos membros e por consequência no desempenho da JVI.

pA_CR&D-2: Ser capaz de ajustar o escopo da JV ás mudanças internas e externas impacta

positivamente na continuidade da JV.

pA-CR&D-3: O desempenho de JV em transformação é positivamente impactado quando o

parceiro dominante lidera a implementação das novas rotinas e processos.

4.7.2. Análise de Caso B

Esta JV é considerada consistente pelos entrevistados. Está percepção é suportada

pelo sucesso do modelo de negócio e pelo eficiente mecanismo de governança implementado.

Os objetivos são alinhados no nível do board, e os fluxos de comunicação formal e informal

funcionam. Estes elementos combinados reduzem os níveis de tensão de conflitos nesta JV,

que apesar de ter pouca vertente para competitividade entre os parceiros, envolve altos níveis

de troca de conhecimento.

A habilidade da JV para lidar com conflitos e sua adaptabilidade às mudanças

necessárias são considerados “enablers” (Schilke; Goerzen, 2010) para um bom desempenho

da JV, mas não são percebidos como formas de medir o desempenho da JV.

“Esta JV pode ser um pouco sui generis, quando comparada a outras. Os parceiros têm culturas muito similares, tem objetivos muito claros, não são concorrentes, então tudo isto te facilita o território da JV, há uma abertura dos dois parceiros para fazer as coisas funcionar sem segundas agendas” (Business Country Manager – Caso B).

“A flexibilidade é um enabler, se você tem uma máquina que deixou de entregar, de ter rendimento e você tem KPIs que são claros e você já não os entrega, ou tem um problema no mercado ou a máquina já não está afinada para entregar aquilo que tem que entregar. Aqui na América Latina, em sete anos tivemos três estruturas diferentes, ajustadas para entregar o desempenho, mas não mede o desempenho” (Business Country Manager – Caso B).

“Por trabalhar com mercados de diferentes culturas, acho que essa capacidade de se adequar ao mercado local seja vista como um fator importante do time e do líder. Eu acho que é uma medida de desempenho aplicada mais no nível das pessoas que no nível da JV aprendizagem” (Gerente de Vendas 1 – Caso B).

Em um contexto dinâmico de negócios (Karthik,2002), observa-se que esta JV passa

por dificuldades no mercado brasileiro para cumprir com os objetivos e entregar os resultados

nos últimos anos. A justificativa para esse desempenho inferior ao esperado é baseada na falta

de flexibilidade e velocidade para ajustar-se ás mudanças, por acreditar que um modelo de

negócios que vem dando resultados por mais de 15 anos não deve ser alterado, apesar do

contexto brasileiro mostrar uma realidade socioeconômica que exige ajustes para a JV seguir

exitosa (KARTHIK, 2002). Os respondentes sugerem que os parceiros tenham evoluído e

atualmente as culturas e prioridades não estejam mais alinhadas e isto venha a trazer impactos

para o futuro da JV. A realidade reportada se refere ao aumento da pressão na JV uma vez que

os resultados não são entregues por anos consecutivos e por se tratar de uma JV orientada

principalmente aos resultados visando a otimização de valor no nível da JV.

“Eu acho que a maior parte das mudanças que se fazem necessárias são implementadas e a JV segue evoluindo. Onde eu acho que uma JV mono categoria tem mais desafios, é que se o mercado começa a não ir bem a nível mundial você começa a ter desafios, porque não se têm as mesmas alternativas de empresas multi- categorias. Este é o desafio natural desta JV, se a categoria começa a sofrer, fica mais difícil de encontrar alternativas, isso faz com que a pressão nos membros da JV aumenta quando a categoria não está entregando” (Business Country Manager – Caso B).

“Os objetivos dos parceiros não são divergentes, eles são iguais. O problema não está nos objetivos, mas sim em não entregá-los. Aí vêm perguntas do por que não? Envolvendo o nível de envolvimento, dominância e flexibilidade. Há mil razões dos porquês” (Gerente de Vendas 2 – Caso B).

“O problema maior é que o resultado efetivamente nos últimos anos não tem acontecido e acaba gerando outro tipo de tensão, outro tipo de discussão em algumas situações e até que ponto vale a pena continuar com esta parceria” (Gerente de Vendas 2 – Caso B).

pB_CR&D-1: Quanto mais desenvolvida a capacidade relacional na JVI melhor será seu

desempenho.

pB_CR&D-2: A resistência da JV a adaptar seu modelo de negócios às mudanças de contexto

impactam negativamente o resultado do JV.

pB_CR&D-3: Habilidade para gerenciar conflitos e a flexibilidade para ajustar-se às

mudanças são considerados “enablers” para um bom desempenho da JV, mas não são

percebidos como formas de medir o desempenho da JV.

4.7.3. Análise Cruzada

As duas JVIs estudadas reportam mecanismos de governança similares, ambos

considerados eficientes e contribuindo positivamente para o bom o desempenho das JVIs.

Rotinas como “coordenação entre organizações” e “transformação da aliança” (Schilke;

Goerzen, 2010) são bastante demandadas na JV do caso “A”, enquanto na JV do caso “B” há

uma dificuldade associada à rotina “transformação da aliança”, que impacta negativamente no

desempenho desta JV. As conclusões desta análise são consistentes com o estudo de Kale et

al. (2002). Os autores investigaram o desenvolvimento da capacidade de gestão de alianças no

nível da firma e a contribuição desta capacidade com o desempenho. O estudo sugere que

além das experiências anteriores com alianças, a existência de uma estrutura separada e

dedicada à gestão da aliança contribui para o desempenho superior da firma em gerenciar

alianças e consequentemente no desempenho da própria aliança.

Sabendo que o conceito de Capacidade Relacional é derivado, nasce da literatura de

capacidades dinâmicas (Teece et al., 2007), os autores sugerem que os recursos somente, não

são uma fonte de vantagem competitiva, eles precisam ser transformados em capacidades

dinâmicas para gerar vantagem competitiva e desempenho financeiro positivo. Eisenhardt e

Martin (2000) definem capacidades dinâmicas como um conjunto específico de processos

organizacionais em resposta as mudanças no ambiente do mercado. Através destes processos,

gerentes integram, combinam e reutilizam os recursos para gerar estratégias de criação de

valor.

Ambas as JVIs estudadas são alianças orientadas aos resultados e têm como objetivo

a otimização de valor no nível da JV (OLK,2002). Existência de objetivos estratégicos

específicos (Olk,2002) visando o benefício individual do parceiro não são evidenciados nas

JVIs estudadas.

A capacidade de transformação da aliança (Schilke; Goerzen, 2010) é percebida

como uma rotina fundamental ao bom desempenho das JVs, resultando no ajuste de escopo do

caso “A”, e sua ausência sendo considerada a responsável pelos problemas de desempenho

enfrentados pelo caso “B”. O contexto descrito para os casos “A” e “B” encontram suporte na

literatura. Por exemplo, Gulati (1998) sugere que o comportamento das firmas relacionado a

alianças pode ser melhor compreendido observando a sequência dos eventos envolvidos e a

dinâmica evolucionária que a aliança desenvolve com o passar do tempo. Para Yan e Zeng

(1999), instabilidade se refere à intensidade na qual a JVI altera seu direcionamento

estratégico, os acordos contratuais, reconfigura a estrutura de propriedade e controle ou

modifica as relações com seus sponsors impactando de forma significativa o desempenho da

JVI. Das e Teng (2000) avaliam a perspectiva das tensões internas, Makino et al. (2007)

exploram distância cultural, diferenças de tamanho, estrutura de controle dominante e

observam que o término de uma JV pode acontecer por fatores intencionais ou não

intencionais, podendo ser terminadas justamente por que entregaram os objetivos para o qual

foram formadas, e desse modo, serem consideradas bem sucedidas sob a ótica das empresas

que a formaram. Para Karthik (2002), as alianças estratégicas são dinâmicas, nelas motivações

iniciais para explorar parcerias, desenvolvem capacidade de aprendizagem adaptativa nas

firmas fundamental para seu desempenho.

Com base nas constatações acima, nascem as proposições tentativas para a análise

cruzada das relações entre Capacidade Relacional e Desempenho:

pAB_CR&D-1: Quanto mais desenvolvida capacidade relacional na JVI melhor será seu

desempenho.

pAB_CR&D-2: Quanto maior a capacidade da JV em gerenciar conflitos e tensões

(coordenação entre organizações), melhor será seu desempenho.

pAB_CR&D-3: Quanto maior a capacidade da JV em ajustar-se a mudanças do contexto

(transformação entre alianças), melhor será seu desempenho.

pAB_CR&D-4: JVIS com baixo desempenho terão maiores chances de sucesso se a

capacidade relacional for bem desenvolvida.

pAB_CR&D-5: A capacidade relacional de uma JVI não é considerada uma medida

desempenho, mas sim um “enabler” para seu desempenho.

4.8 Síntese do Modelo Conceitual com proposições tentativas sobre as relações entre os