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2.4 RELAÇÕES ENTRE CRISE ORGANIZACIONAL, SENSEMAKING E

2.4.2 Relações entre os processos de sensemaking e de strategizing

Um aspecto em comum entre a construção de sentidos e a perspectiva da estratégia como prática é a importância dada à ação das pessoas. A estratégia como prática entende a estratégia como algo que as pessoas fazem, foca a atenção nas atividades realizadas pelos praticantes no processo de fazer estratégia. A ação e a interação dos atores são aspectos essenciais no entendimento da estratégia como prática (WHITTIGTON, 1996, 2002b; 2006;

JARZABKOWSKI, 2005; JARZABKOWSKI et al., 2007).

Neste sentido, para Weick (1995) a ação das pessoas também é um aspecto central no processo de construção de sentidos. O sensemaking remete a uma contínua inter-relação entre ação e interpretação (WEICK et al., 2005). Weick (1995) considera que o sensemaking está intimamente relacionado ao enactment, ou seja, a criação na ação. O autor afirma que o

“conceito de sensemaking enfatiza a ação, a atividade, e a criação que estabelece os traços que são interpretados e reinterpretados” (WEICK, 1995, p. 13). Primeiro as pessoas agem e depois, retrospectivamente, procuram construir sentidos plausíveis para estas ações. Ou seja, o sensemaking é guiado pela ação (WEICK, 1995).

Assim, propõe-se que as ações que direcionam o processo de construção de sentidos sejam consideradas como as atividades realizadas pelos praticantes no processo de fazer estratégia (strategizing), ou seja, a praxis estratégica. Há, portanto, uma conexão entre os processos de sensemaking e de strategizing na medida em que ambos compartilham de uma mesma ação; a ação (atividade) do praticante é simultaneamente um elemento do fazer estratégia e da construção de sentidos.

Outro aspecto interessante pode ser verificado com relação ao processo de fazer estratégia, mais especificamente com o strategizing interativo, conforme proposto por Jarzabkowski (2005). Segundo a autora, trata-se da realização de interações face a face para moldar a estratégia, geralmente por uma iniciativa de gestores. O strategizing interativo pode ser entendido como um modo interpretativo de mediar a estratégia, e que remete a um engajamento ativo dos gestores no processo de fazer estratégia (JARZABKOWSKI, 2005).

Segundo Jarzabkowski

a interação face a face é então um recurso social poderoso que os gestores podem usar para focar a atenção organizacional em suas próprias interpretações da estratégia (Simons, 1991, 1994). Por meio da interação face a face os gestores podem comunicar diretamente seus próprios referenciais de significados sobre a atividade para moldar o comportamento dos outros. (JARZABKOWSKI, 2005, p. 57, tradução livre).

Assim, considera-se que o strategizing interativo remete a processos de comunicação que ocorrem nas interações entre os gestores e demais atores organizacionais, principalmente com o intuito de se estabelecer interpretações e significados comuns sobre as atividades relacionadas ao fazer estratégia. Portanto, o strategizing interativo pode ser entendido como um processo de construção de sentidos. Esta relação é verificada quando os seguintes aspectos do sensemaking são considerados: é um processo social, ocorre em momentos de interação e argumentação, remete a questões de linguagem, fala e comunicação (WEICK, 1995; WEICK et al., 2005).

Estas situações de interação face a face como uma tentativa dos gestores de moldar o processo de fazer estratégia por uma via interpretativa e de significados, remetem às considerações de Gioia e Chittipeddi (1991) sobre o sensemaking e o sensegiving. Estes autores tratam mais especificamente da construção de sentidos em processos de mudança estratégica (que será abordado com mais detalhes no tópico seguinte). O sensegiving é entendido como um processo em que determinado ator tenta influenciar a construção de sentidos de outros atores, conforme seus próprios interesses e conforme os sentidos que atribuiu a determinado contexto ou situação (GIOIA e CHITTIPEDDI, 1991). A partir dos

conceitos destes autores, considera-se que o strategizing interativo também pode ser compreendido como um processo em que os gestores pretendem moldar o fazer estratégia utilizando processos de sensegiving (GIOIA e CHITTIPEDDI, 1991; JARZABKOWSKI, 2005).

O strategizing interativo pode ser relacionado ainda às rotinas e conversações realizadas por gestores intermediários, conforme apresentado por Rouleau (2005). Segundo a autora os gestores realizavam um conjunto de micro-práticas em seu dia-a-dia voltadas para a realização de um processo de mudança na organização.

Montenegro e Bulgacov (2009) analisaram como os atores constroem sentidos sobre as práticas estratégicas realizadas em duas instituições de ensino superior. Os autores apresentam uma relação interessante entre práticas estratégicas e a construção de sentidos, ao concluir que o comprometimento dos praticantes nas práticas e atividades estratégicas é diretamente relacionado ao modo como estes constroem sentidos sobre as práticas (MONTENEGRO e BULGACOV, 2009). Assim, estas considerações também reforçam a relação de influência recíproca entre as práticas estratégicas e o sensemaking.

A busca pela compreensão do processo de construção de sentidos em determinado grupo ou organização remete à necessidade de um entendimento das atividades e práticas estratégicas realizadas no grupo. O grupo é entendido como um conjunto de indivíduos que realizam atividades inter-relacionadas (WEICK e ROBERTS, 1993). Segundo Wilson e Jarzabkowski,

as atividades localizadas de um grupo se tornaram um foco-chave dos pesquisadores que vêem tais comunidades como sistemas de atividades em que o contexto do grupo fornece uma estrutura interpretativa para o sensemaking e para a ação (WILSON e JARZABKOWSKI, 2004, p. 17).

Esta afirmação dos autores enfatiza a importância de se considerar a influência do contexto e das atividades do grupo na construção de sentidos. Como propõe Weick (1995), o contexto e as interações sociais são aspectos importantes na construção dos sentidos. O contexto tem uma grande influência na questão da plausibilidade, ou seja, a definição sobre determinado sentido ser plausível ou não está relacionada ao contexto social no qual se está inserido. Assim, compreender a estratégia em seu micro contexto (JARZABKOWSKI, 2004), considerando as atividades, práticas e interações sociais que a compõem, é um fator relevante para o entendimento dos processos de construção de sentidos que ocorrem em determinado grupo ou organização.