Outro aspecto importante para a compreensão do ethos político das populações imigrantes se dá na relação entre as categorias, fé e nacionalidade, ou pátria e religião. Quando o Cônsul italiano, portanto, um legítimo representante político do Estado Italiano no Brasil, esteve visitando as colônias italianas no sul do estado de Santa Catarina na primeira década de 1900, afirma que, “em todas as localidades que visitei foram os sinos que saudaram a chegada do Cônsul; o
421 QUEIRÓZ, Suely Robles Reis de. Escravidão Negra em Debate. In FREITAS, Marcos Cezar de.
primeiro lugar em que fui recebido foi na igreja, que, no sentimento de nossos colonos, representa a pátria.”422
O comentário do Cônsul sugere que entre os imigrantes há uma forte relação entre religião e pátria, ou fé e nacionalidade, confirmando a análise anterior de que na organização social da religiosidade das comunidades há um latente potencial político. Percebe-se duas cosmovisões políticas bem diferentes e delineadas. De um lado, a visão de política pautada para o confronto de interesses domésticos e familiares representado pelas famílias nacionais que dominam politicamente, a partir dos núcleos urbanos, a região sul catarinense. De outro, uma visão política modelada sociologicamente em chave religiosa, mas profundamente carregada de nacionalismo, unindo a fé e pátria, cosmovisão vivida no espaço rural.
Nas comunidades alemãs, principalmente as do Vale do Braço do Norte que tinham um contato mais direto com as comunidades italianas da região da Colônia Grão Pará por causa da proximidade geográfica, a relação fé e pátria era também bastante forte. O cônsul alemão vinha pessoalmente “inspecionar” todas as “escolas paroquiais” que foram fundadas pelos sacerdotes nas capelas de origem alemã. Tais escolas eram subvencionadas pelo governo alemão. Segundo uma testemunha, o Cônsul, “uma vez que esteve em São Ludgero, num domingo à tarde, fez um discurso na praça da Igreja, e o povo se admirou que não tivesse falado em Deus. Só recomendava que conservassem os costumes e a língua alemã”.423
O estranhamento diante da falta de referência a Deus mas o concomitante endosso do Cônsul de “que conservassem os costumes e a língua alemã”, sugere que o povo não estava acostumado a dissociar a consciência de povo alemão (nacionalidade alemã), da categoria teológica “Deus”, ou seja, fé religiosa. Expressar um conteúdo religioso era referir-se a uma identidade política nacional. Não surpreende, portanto, o fato de que mais tarde o movimento integralista tenha tido tantos adeptos nas região sul catarinense.
O que houve bem forte de organização foi o Integralismo. Reinaldo Schilickmann e João Bruning foram os dirigentes. Vieram o Lulu Medeiros e o general Vieira da Rosa organizar. Todo o domingo havia reunião. Todos fardados. Camisa verde, galões com estrelas, calça branca ou preta, fita no braço com o característico sigma. Havia chamada, vez por vez. Alguém fazia uma conferência sobre os três grandes temas: Deus, Pátria, Família. Nossa
422 Cf. Relatório do Cônsul Régio em Florianópolis – Fevereiro de 1900. Op. cit., p.70
423 Entrevista concedida por LOCKS, José. In DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte.
saudação era com o braço levantado bem alto dizendo: ‘anauê’, nosso grito de união. Hino Nacional na entrada e na saída. [...] Em são Ludgero mais de 80% da população aderira. São Ludgero era o centro regional. Outro núcleo era em Rio Pinheiros e um pequeno em São José. Foi nessa escola que aprendemos a falar em público, a fazer reuniões, trabalhar na política.424
Conceitos como nação, nacionalismo, pátria, religião, se correlacionam na compreensão dessas populações. Dessa forma não havia nenhum problema em que a compreensão política fosse mediada por categorias religiosas.
Esse tipo de nacionalismo era também comunicado pelos sacerdotes católicos que coordenavam a vida religiosa das comunidades. Por ocasião do início da primeira grande guerra há testemunhos de que houve uma grande campanha entre as comunidades alemãs promovidas pelo Pe. Tombrock para angariar empréstimos para a Alemanha. Pe. Fritz Tombrock foi um dos mais famosos sacerdotes que coordenou a vida religiosa das comunidades alemãs do sul de Santa Catarina. Chegou no Vale do Rio Braço do Norte em 1896 e viria a falecer em São Ludgero em 1957, portanto, exercendo uma influência sobre várias gerações.
Em 1914 estourou a primeira guerra mundial. Parece que Monsenhor assinou todo o dinheiro economizado no empréstimo de guerra. Vibrava com as vitórias iniciais da Alemanha. Em 1917 celebrou o aniversário do Kaiser. No discurso concitou a todos a assinarem o empréstimo: - E se a Alemanha perder a guerra, disse, deve nos consolar o pensamento de termos feito algo pela Pátria. Ao ter notícia da derrota da Alemanha, caiu sem sentidos. Este amor demasiado à Pátria alemã foi seu pecado.425
Ao expressarmos que no universo simbólico das populações de imigrantes e seus descendentes havia uma ligação umbilical entre religião e pátria, queremos inferir que o ideário nacionalista, a idéia de poder político centralizado e forte, bandeira dos movimentos revolucionários na conturbada década de 1920, já possuía um substrato ideológico impregnado na cosmovisão das populações e na organização social das famílias imigrantes. Queremos também inferir que as atividades religiosas não devem ser interpretadas segundo categorias atuais, onde a instância religiosa e a dimensão política possuem vidas autônomas. O homem que decide é o homem que reza. No contexto cultural atual, o sacro e o profano possuem autonomia baseada na idéia de pluralidade cultural, onde política e religião não se misturam em nível institucional. Contudo, para aquelas populações do início do
424 Entrevista concedida por BRÜNING, Daniel. Id., ibid., p. 159.
425 Entrevista concedida por LOCKS, José. In DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte.
século XX, ao contrário, a idéia de Estado e Religião se imbricava como identidade de uma nação. Na Itália, principalmente, formada por uma multiplicidade de grupos culturalmente diferenciados, a religiosidade foi usada como elemento aglutinador de uma identidade comum, como mais tarde foi demonstrado pelo Tratado de Latrão.
Dessa forma, o nacionalismo, bandeira da Semana de Arte Moderna, de alguns movimentos urbanos, e principalmente bandeira do ideário do movimento tenentista, possuía nessas populações fácil acesso. Havia uma pré-compreensão que favorecia o encaixe desse conceito com movimentos de descontentamento com a política, economia e cultura da Velha República. O mesmo não acontecia entre as metrópoles urbanas da região sul onde as atividades políticas refletiam o modelo da política oligárquica presente nos demais estados da federação.
Não será surpresa, portanto, que a corrida eleitoral entre Júlio Prestes, representando o Governo de Washington Luís e Getúlio Vargas, representando a Aliança Liberal, tenha tido uma forte aceitação nessas comunidades rurais: “No tempo de Getúlio entrou o lenço encarnado, para distinguir dos Prestes, que tinham verde. Aqui em São Ludgero era quase tudo lenço encarnado. Tudo Vargas, Liberais.”426 Como disse um “sacerdote” católico numa celebração dominical na localidade de Nova Veneza em 1900, “o amor da pátria e da religião, fundem-se no coração do homem.” 427
Toda essa pré-compreensão adquire um impacto muito maior se situada dentro do contexto do Estado brasileiro. Dizemos “Estado” para ressaltar a realidade de que naquele momento histórico do final do século XIX e início do século XX o espaço territorial se encontra em processo de gestação de uma nacionalidade. Não há ainda o que poderíamos chamar de “nação brasileira”. Essas comunidades rurais sul catarinenses se encontram num macro-contexto político-cultural marcado pela presença de muitas pátrias regionais.
Não havia o sentimento de pertença a uma comunidade nacional. E isso vinha de longa data. Diferente do anacronismo que percebemos no discurso ufanístico de “pátria brasileira”, principalmente na concepção histórica fundada à luz do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro que jogava a idéia de nacionalidade para quando Cabral aportou nas praias deste enorme continente, o que havia naquela época era
426 Entrevista concedida por NIEHUES, Carlos. In DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte. Orleans, edição do autor, 1973. p.135.
um conjunto de capitanias, sem unidade política e econômica. Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro,
[...] há uma cilada historiográfica que consiste em transpor para o passado as fronteiras atuais do território brasileiro, como se já se soubesse, desde o desembarque de Cabral que as feitoras iriam virar uma colônia, e a colônia se transformaria num país independente, numa nação do jeito que está aí. 428
Para os que objetam, chamando a atenção para a presença do Vice-rei sediado no Rio de Janeiro, lembramos que seu controle ia ao máximo sobre algumas capitanias do sul. As capitanias se ligavam de fato diretamente com o governo de Lisboa. A falta de centralização interna do poder no período colonial chegava ao ponto de fazer com que muitos governadores de Província não tivessem controle sobre os capitães que governavam as vilas. A América portuguesa tinha todas as pré-condições para fragmentar-se em muitos estados como se deu com a América espanhola.
A nossa digressão se justifica para ressaltarmos que a miscigenação étnica entre lusos, açorianos, alemães e italianos, para tomar as maiores etnias no espaço sul catarinense, acontecia dentro de um espaço marcado pelo processo de gestação de uma identidade nacional.429 A idéia de nação, por ser um conceito histórico, estava sendo construída,
[...] formada e transformada no interior da representação. [...] As diferenças regionais e étnicas foram gradualmente sendo colocadas, de forma subordinada, sob aquilo que Gellner chama de ‘teto político’ do estado- nação, que se tornou assim, uma fonte poderosa de significados para as identidades culturais modernas. 430
Basta lembrar que nas revoltas regionais pela independência não se falava em Brasil, mas se falava em “nós americanos”, ou, como diziam os inconfidentes mineiros, “a pátria mineira”. Historiadores modernos que fazem análise desses eventos deixam bem claro que a bandeira, os hinos e as leis propostos pelos
428 ALENCASTRO, Luiz Felipe de. In MORAES, José Geraldo Vinci & REGO, José Márcio. Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo, 34, 2002. p.252.
429 Cf. JANCSÓ, István. (Org.) Brasil: formação do Estado e na nação. São Paulo, Hucitec, 2003. 430 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A, 2001. p. 47-65.
revolucionários em busca da independência não faziam jamais referência a um universo simbólico brasileiro.431 De fato esse universo simbólico não existia ainda.
Para terminar essa digressão sobre o argumento de que o sul catarinense se encontra dentro de um macro-processo de formação da nacionalidade, basta lembrar que os deputados constituintes presentes nas Cortes em Portugal depois da Revolução Liberal, não faziam referência em pertencer ao Brasil mas às suas capitanias; eles se auto-conceituavam referindo-se “aos povos do Brazil”.432 Segundo essa visão, os “povos” do Brasil viam a “nacionalidade” como algo restrito ao espaço regional. O espaço maior era o Império que, se por um lado oferecia a identidade política de um Estado, de forma alguma representava uma idéia de nacionalidade comum. A identificação simbólica e emotiva se dava para com a pátria regional. Ser patriota era pertencer a uma Província. O império era compreendido como um conjunto de nações, de “povos”, que partilhavam de uma mesma língua e de um mesmo Estado. A idéia de pátria nacional, ligada ao espaço brasileiro é uma construção muito atual. Como diz um grande historiador brasileiro, “o sentimento de identidade nacional, por sua vez, veio depois e muito devagar. Ainda hoje se baseia em dimensões que não tem a ver com a história política do país: futebol, o carnaval, a natureza, etc”.433
Além disso, há uma peculiaridade a ser acrescentada a esse processo de formação da nacionalidade. A unidade identitária brasileira foi construída pela força violenta do Estado Imperial e Republicano. Basta atentar-se para a cruel reação do governo militar de Floriano Peixoto em terras catarinenses sob a responsabilidade do Coronel Moreira César. Não há mais dúvida de que os assassinatos, principalmente na Ilha de Anhatomirim, eram de conhecimento de Floriano, conforme telegrama enviado pelo Coronel Moreira Cézar:
Telegrama – Estrada de Ferro Central do Brasil – Estação do Rio – 08 de maio de 1894 – Prefixo S n. 540 – nº de palavras – 15 – Hora de apresentação 4h55min – pelo telegrafista J.M.B.S – Procedente do Desterro:
431 Cf. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo, Edusp. 1996. Também a síntese
extremamente clara do processo de formação da cidadania no Brasil em, CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil – O longo caminho. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001. p.89.
432 TOMAZ, Fernando. Brasileiros nas Cortes Constituintes de 1821-1822. In MOTA, Carlos
Guilherme. 1822 – Dimensões. São Paulo, Perspectiva, 1986. p.79.
433 CARVALHO, José Murilo de. In MORAES, José Geraldo Vinci & REGO, José Márcio. Op. cit., p.
Marechal Floriano – Rio – Romualdo, Caldeira, Freitas e outros, fuzilados segundo vossas ordens – Antônio Moreira Cezar.434
A unidade das pátrias regionais é construída pela força do Estado, e não por uma identidade simbólica construída por movimentos sociais ou políticos que aglutinassem uma idéia de pertença a um todo maior.
Se de um lado, o período imperial conseguiu instituir um Estado e um espaço de fronteira correspondente ao domínio dessa instituição política, por outro, longe estava de haver conseguido criar a idéia de nacionalidade, de identidade nacional. Nem mesmo no período republicano, principalmente na fase conhecida como República Velha, consegue-se alcançar este objetivo. Pelo contrário, aguçou-o. Isto porque, na organização da nascente República brasileira, entre as várias correntes ideológicas de configuração de um governo republicano, venceu o federalismo baseado no modelo dos Estados Unidos da América. Esse modelo, transposto de outro contexto, e portanto, sem as pré-condições históricas que lhe davam validade prática, ao dar maior autonomia aos Estados Federados, irá aguçar ainda mais o separatismo que já vinha latente desde a colônia.
O modelo americano, em boa parte vitorioso na Constituição de 1891, se atendia aos interesses dos proprietários rurais, tinha sentido profundamente distinto daquele que teve nos Estados Unidos. Lá, como lembrou Hanna Arendt, a revolução viera antes, estava na nova sociedade igualitária formada pelos colonos. A preocupação com a organização do poder, como vimos, era antes conseqüência da quase ausência de hierarquias sociais. No Brasil, não houvera a revolução prévia. Apesar da abolição da escravidão, a sociedade caracterizava-se por desigualdades profundas e pela concentração do poder. Nessas circunstâncias, o liberalismo adquiria um caráter de consagração da desigualdade, de sanção da lei do mais forte. Acoplado ao presidencialismo, o darwinismo republicano tinha em mãos os instrumentos ideológicos e políticos para estabelecer um regime profundamente autoritário.435
Tal proposta de autonomia regional foi muito conveniente para estados com maior desenvolvimento econômico como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, apesar de este último sempre estar tentando fazer conchavos políticos com os Estados menores para se antepor à troca automática do poder federal entre São
434 Cf. Diário do Congresso, n º47, folha 820, de 19 de julho de 1896. In CABRAL, Oswaldo R. História de Santa Catarina. Florianópolis, Laudes, 1970. p. 277.
435 CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas – O imaginário da República no Brasil.
Paulo e Minas Gerais. O político Pinheiro Machado é a figura emblemática dessa luta gaúcha pelo poder dentro da federação.
Santa Catarina, entretanto, não havia passado por uma história regional que lhe permitisse ter construído certo tipo de identidade regional na forma de um “catarinensismo”, como os paulistas, mineiros e gaúchos. E isso simplesmente porque a colonização de seu espaço é muito recente, apesar de alguns enclaves no litoral serem um pouco mais antigos. Mas de forma nenhuma, as populações açorianas do litoral e os caboclos na imensidão do planalto, voltados para a criação de gado de forma extensiva, haviam criado uma idéia de identidade regional.436
Além disso, Santa Catarina, como já vimos na parte que tratamos sobre a produção do espaço, era formada por regiões autônomas com pouquíssimo contato entre si, devido à peculiaridade de seu revelo, processo de povoamento, falta de vias de comunicação terrestre interligando essas mesmas zonas, e principalmente pelo modelo econômico que, na ausência de um comércio catarinense, comercializava o excedente produtivo com os mercados de Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro e principalmente São Paulo. Isto porque “[...] o preço dos produtos coloniais, porquanto encarecido pelo preço dos transportes custosíssimos, pelas taxas, etc, era por demais vantajoso, por causa da procura dos Estados que produziam exclusivamente café”.437
Se de um lado esse modelo permitiu uma capitalização primária que criou as pré-condições para a industrialização catarinense, de outro marcou o estado catarinense por um longo processo de regionalização interna e carência de uma identidade nacional.
Assim, os nacionais, os alemães, os italianos, os polacos, os letões, espanhóis, austríacos, franceses, paraguaios, holandeses, ingleses,438 estavam vivendo em ato o processo de construção da identidade catarinense e nacional. Para eles, cuja referência mais próxima de identidade brasileira era constituída pelo Estado Imperial, não se estranha o fato de que, “na proclamação da República, quando a notícia chegou houve uma concentração e gritavam: ‘Viva a República’! A
436 Cf. RODRIGUES, Jane de Fátima Silva. História Regional e Local: problemas teóricos e práticos. Revista História e Perspectivas. nº 16\17, 1997.
437 “Relatório do Sr. G. Caruso Macdonald, Regente do Real Consulado em Florianópolis – Outubro
de 1906”, in DALL’ALBA, João Leonir, Imigração Italiana em Santa Catarina - Documentário, Florianópolis, Co-edição: UCS, EDUCS e Lunardelli, 1983, p. 162.
438 Para as várias etnias que aos poucos construíam o espaço sul catarinense, veja-se as várias
estatísticas feitas pelas empresas de colonização in DALL’ALBA, João Leonir. Colonos e Mineiros
maioria não aderiu e gritavam: ‘viva o Kaiser’. Kaiser era o imperador Dom Pedro II.”439
Santa Catarina se encontrava na peculiar condição de estar construindo sua identidade regional concomitante à construção da identidade nacional. Outras regiões do país já tinham uma certa identidade regional quando o Estado brasileiro decidiu construir de forma autoritária uma concepção de nacionalidade.440 Todas as manifestações políticas dos imigrantes apareceram no sul catarinense como uma força geradora de identidade. Nesse sentido, a revolta civil em Orleans representava, além de uma reação contra a política de cunho oligárquico, a demonstração de força identitária de uma comunidade que não aceitava qualquer imposição sem ser consultada: “Queria sim, dar uma demonstração de força. Fora instigado, acirraram-lhe os ânimos. (...) Mas fora, para demonstrar que sabia defender seus interesses”.441 Se o Estado que os recebeu não forneceu esse substrato simbólico identitário, não lhes propiciou as garantias típicas de um cidadão, como educação, estradas, saúde, as manifestações políticas tentaram construir uma identidade local fruto dessa orfandade simbólica e social gerada pela omissão do Estado.
De fato, antropologicamente, o ser humano está buscando referir-se a algo maior que a si mesmo, que lhe dê uma identidade particular. Referir-se a um todo maior no qual cada pessoa em particular se sente pertencente. O ser humano não é uma abstração racional, é um ser cultural. Tem sede de pertencer a um mundo que forneça sentido ao que faz e ao que pensa e que não precise, a todo instante, estar criando justificativas para a sua práxis, mas vivê-la de modo natural e espontâneo por adquirir um sentido já presente no contexto em que a pessoa vive e se historiciza.442
Essa dinâmica antropológica tem sua dimensão social. As comunidades humanas, por causa dessa necessidade antropológica básica, naturalmente procuram criar vínculos com valores, símbolos e outros referenciais diversos que
439 Entrevista concedida por SPECK, José. In DALL’ALBA, João Leonir. O vale do Braço do Norte.