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Relações estabelecidas entre si e com o Estado

4. FORMA E CONTEÚDO DAS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL EM

4.4 PERFIL DAS ORGANIZAÇÕES CIVIS GUARAPUAVANAS

4.4.3 Relações estabelecidas entre si e com o Estado

Ao serem questionadas acerca do contato com partidos políticos, apenas uma organização (CEMPO) respondeu positivamente, sendo a relação por afinidade política, na realização de análise de conjuntura e concessão de espaço físico para realizar suas atividades. Todas as outras relataram não ter parcerias com partidos políticos. Este dado trouxe à tona a necessidade de, na etapa de realização das entrevistas, investigar de forma mais qualitativa os motivos desse distanciamento.

Já a parceria com entidades religiosas é mais recorrente, tendo apenas (02) se manifestado negativamente – UGAM e Outro Olhar – conforme Quadro 7. A influência religiosa, da Igreja Católica, em especial, é fundamental no quadro organizacional civil brasileiro. Faz-se presente de várias maneiras, desde a disponibilidade de recursos humanos e financeiros para o funcionamento das organizações, até o assessoramento de pessoal. Teixeira (2008, p. 84), ao estudar o associativismo civil no estado da Bahia, constata dado semelhante: “[...] esta influência está presente em vários movimentos históricos, desde a criação das CEBs, que estimulavam o engajamento dos cristãos, até a criação de ONGs que davam suporte material e de formação”.

No contexto organizacional pesquisado, nota-se que a relação com entidades religiosas se dá na forma de financiamento e de criação de espaços para reflexão e manifestação política, como é o caso das romarias promovidas pelo Movimento de Mulheres da Primavera, por exemplo.

Mas, o dado mais expressivo se manifesta no fato de que, das organizações que prestam serviços socioassistenciais (Caritas Socialis, Instituto Educacional Dom Bosco, Centro de Nutrição Renascer e Centro Educacional João Paulo II), todas têm alguma vinculação religiosa – seja no financiamento e, sobretudo, tendo a Igreja como lócus de criação da entidade.

No Brasil, o histórico mimetismo reproduzido entre assistência social, filantropia e benemerência faz com que, entre conceitos, políticas e práticas, seja difícil distinguir compromissos e competências de cada uma dessas áreas. “Entendidas como sinônimos, porque de fato escondem – na relação Estado-sociedade – a responsabilidade pela violenta desigualdade social que caracteriza o país” (MESTRINER, 2001, p. 14).

A Igreja católica tradicionalmente dominou o setor da filantropia e lhe atribui o sentido da caridade e da benemerência, de modo que o termo acaba sendo uma laicização da

concepção católica da caridade. Na relação com um Estado intencionalmente subsumido da obrigatoriedade quanto aos direitos sociais e apoiada pelas novas teses trazidas pelas encíclicas papais49, a Igreja investe nessa aliança nos momentos estratégicos de crise, de forma a expandir sua doutrina e seu poder50.

Para difundir seu ideário e projeto de cristianização da sociedade, amplia e diversifica seu repertório de atuação, principalmente por meio do movimento laico e da criação de instituições sociais. Sua “força disciplinadora” é acionada pelo Estado para colaborar com a estabilidade das relações sociais, especialmente em contextos de crise política. O que faz com que acabe disputando subliminarmente com o Estado o controle social e ideológico sobre a sociedade.

Os rebatimentos dessa relação Estado/filantropia religiosa são ainda muito expressivos no contexto da assistência social, mesmo com sua formalização enquanto política pública. O que é demonstrado empiricamente na configuração do universo organizacional pesquisado em Guarapuava e qualitativamente explorado na sequência do estudo.

QUADRO 7 – Parcerias com entidades religiosas

Organização Como

Caritas Socialis Igreja Católica; irmãs coordenam o trabalho – caridade social. Instituto Educacional

Dom Bosco Entidade mantenedora – Igreja Católica. Centro de Nutrição

Renascer Somente na contribuição financeira, sem intervenções religiosas. Centro Educacional

João Paulo II

Igreja Católica – Comunidade São Luiz Gonzaga – Ordem dos Salesianos.

Observatório Social Mitra Diocesana de Guarapuava e Conselho dos Pastores de Guarapuava (participam das discussões).

CEMPO Pastoral da Terra. Financiamento da Missão Franciscana Alemã.

49 “Com base na encíclica social Quadragésimo Anno (1931), que vai confirmar quarenta anos depois os

princípios da encíclica Rerum Novarum (1891), a Igreja procurará desenvolver um ‘projeto de cristianização’ da sociedade, munindo principalmente o movimento laico com uma série de programas e respostas aos problemas sociais, pautando a justiça social nos princípios da cristandade. Segundo este projeto, a tarefa de cristianização deverá se dar pela redução das distâncias sociais, harmonização das classes em conflito, restabelecendo entre elas relações de cooperação. Para tanto, deverá livrar o proletariado de liderança negativas e ordenar as relações de produção a partir da restauração ‘dos costumes cristãos’, que impeçam a exploração e a ambição excessiva por riqueza” (MESTRINER, 2001, p. 109).

50 “A Igreja católica, expulsa por fortes estados em três ciclos da revolução burguesa – a reforma luterana e as

revoluções inglesa e francesa – tentará principalmente até o início da Segunda Guerra Mundial, articular um novo projeto de hegemonia em todo o mundo, diferente do anterior prevalente ‘bloco católico feudal’ e adequado às novas condições. [...] A Igreja não retoma seu papel totalizador do anterior bloco católico-feudal, mas retoma agências fundamentais das sociedades civis, como a escola, e reforça sua posição doutrinária e normativa no interior da formação social” (MESTRINER, 2001, p. 108).

Movimento de

Mulheres da Primavera Romaria.

UGAM Não tem parceria com entidades religiosas. Outro Olhar Não tem parceria com entidades religiosas.

Fonte: Questionário Perfil. Organização: A autora.

Ao se relacionarem com órgãos internacionais, (04) relataram parceria na forma de financiamento orçamentário (Caritas Socialis, Centro Educacional João Paulo II, CEMPO e Outro Olhar), o que ocorre na forma de doação de pessoas físicas, mobilizadas pela igreja; e por meio de programas de voluntariado de “apadrinhamento” de crianças. Essa característica aparece como resquício do contexto de origem e proliferação de Organizações Não Governamentais em meados do século XX na América Latina, em que órgãos da “Cooperação Internacional” financiavam ações de desenvolvimento social em países “subdesenvolvidos”, conforme tratado anteriormente. O fato de as fontes de financiamento internacional se vincularem a órgãos religiosos (e se resgatados os dados acerca da pluralidade de fontes orçamentárias) é demonstrativo de que se tratam de recursos residuais desse processo. O contexto atual de múltiplas fontes orçamentárias impõe às organizações o estabelecimento de relações de “parceira” tanto com o Estado, ao inserirem-se no âmbito das políticas sociais, quanto com o capital privado.

As atividades realizadas em conjunto com outras organizações são bastante variadas, sendo citadas: palestras, seminários, fóruns, feiras e festas, reivindicações em geral e específicas, melhorias para a categoria, defesa de causas comuns, e encontros de formação política (Gráfico 7). Contudo, no relato das entrevistas esse dado é qualificado e permite constatar que a relação desenvolvida no seio da própria sociedade civil é bastante fragilizada em termos de vínculos, caracterizando-se mais no âmbito de parcerias pontuais, com dificuldades de diálogo no próprio território de atuação e ausência de uma rede de relacionamentos bem articulada.

GRÁFICO 7 – Atividades realizadas em conjunto com outras organizações

Fonte: Questionário Perfil. Organização: A autora.

Todas recebem algum tipo de assessoria jurídica, administrativa e/ou contábil. E (02) relataram obter também assessoria política (CEMPO e Movimento de Mulheres da Primavera) por meio de parcerias com universidade e partido político. As assessorias são fundamentais para o funcionamento das organizações, pois, em função de sua natureza não governamental e não empresarial, acabam contando com um quadro de recursos humanos bastante reduzido, com vínculos de voluntariado que se manifestam também dessa forma.

QUADRO 8 – Tipo de assessoria

Organização Como acontece

Caritas Socialis Jurídica e contábil. Serviço pago.

Instituto Educacional Dom Bosco Da matriz e do município (Secretaria de Assistência Social). Orientações, formações e reuniões.

Centro de Nutrição Renascer Administrativa e jurídica. Voluntária. Centro Educacional João Paulo II Inspetoria – contabilidade.

Observatório Social Cursos de capacitação. Parcerias com SEBRAE, Instituto GRPCOM e OS Brasil.

UGAM Assessoria jurídica voluntária.

Outro Olhar Assessoria de planejamento e execução de atividades. Auditorias financeiras.

CEMPO Contábil e de formação política. Parceria com partido político e universidade.

Primavera jurídica com a Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres.

Fonte: Questionário Perfil. Organização: A autora.

Ao serem questionadas sobre o tipo de relação que mantém com órgãos públicos, relataram a realização de discussões, promoção de eventos, realização de campanhas, seminários, cursos de capacitação profissional, busca por melhorias para os bairros, dentre outras. Nota-se que as ações se circunscrevem ao âmbito socioeducativo, socioassistencial e de geração de renda, num viés de complementaridade das práticas desenvolvidas pelas organizações. Esse dado também é qualificado na sequência das análises, pois foi necessário investigar detalhadamente como se dão os vínculos relacionais com o poder público local.

Ainda circunscrito ao tipo de relação que estabelece com o poder público, no que diz respeito à participação política em processos decisórios que se pretendem democráticos, todas relatam participar de conselhos de políticas públicas. O que é compreensível quando resgatados os dados acerca das áreas de atuação das organizações, que explicitam o direto envolvimento com o campo dos direitos sociais.

Os conselhos de políticas públicas se constituem em arranjos de participação institucionalizada junto ao Estado. Criados a partir do processo de redemocratização, impõem ao poder público o estabelecimento de órgãos colegiados que agreguem segmentos organizados da sociedade civil envolvidos diretamente com as áreas setoriais das políticas sociais. Objetivam o exercício do controle social democrático, enquanto espaços de deliberação relativa a processos decisórios sobre as políticas às quais se relacionam.

Justamente por se inserirem em um campo de disputas pelo poder de decisão no âmbito das relações Estado/Sociedade Civil, esses espaços, apesar de dotados de imenso potencial democratizante, são perpassados, também, pelos traços histórico-culturais constitutivos das relações sociopolíticas brasileiras. Nas palavras de Iamamoto (2002, p. 31 – grifo da autora)

É preciso ter clareza que a qualidade da participação nesses espaços públicos não está definida a priori, porque são espaços de disputa. Podem abrigar experiências democráticas, que propiciem o aprendizado de um tipo de socialização diferente, que permita viver a dimensão do coletivo, propiciem o partilhamento do poder e a intervenção em processos decisórios. Mas podem também alimentar velhos coronelismos, vícios populistas e clientelistas no trato da coisa pública.

Ou seja, se constituem em espaços que podem reproduzir tanto práticas de renovação democrática quanto de conservadorismo político. Estudos específicos se dedicam a apreender as dinâmicas relacionais reproduzidas nesses espaços51. Nesta pesquisa, o foco de análise recai não sobre os conselhos em si, mas sobre o significado que as organizações atribuem à sua inserção nesses espaços.

No contexto empírico estudado, as organizações citam que se vinculam a conselhos das seguintes áreas: Saúde, Criança e Adolescente, Assistência Social, Segurança Alimentar e Nutricional, Trabalho e Emprego, Conselho da Cidade, Meio Ambiente, Cultura, Habitação, Educação, Segurança Pública e Conselho da Mulher – sendo o Conselho Municipal de Assistência Social o mais recorrente, conforme o Quadro 9.

Também relacionado a formas de participação política, mas em formatos não institucionalizados e mais espontâneos, o Quadro 10 demonstra o envolvimento em atos mobilizatórios. Com exceção de apenas uma organização (Outro Olhar), todas relatam participar de mobilizações públicas. Foram citadas participações em audiências públicas; campanhas em defesa de direitos de segmentos populacionais, como crianças e adolescentes, mulheres, quilombolas e população negra; campanhas contra a corrupção; e mobilizações em defesa da reforma agrária.

Sobre a categoria mobilização, Gohn (2008) destaca seu caráter de novidade do ponto de vista das análises sobre os movimentos e ações coletivas na América Latina do novo milênio. Justamente por isso, trata-se de uma categoria com pouco tratamento específico por parte da sociologia do século XX. Na formulação feita pela autora, a mobilização social

[...] refere-se a ativações que visam mudança de comportamentos ou adesão a dados programas ou projetos sociais [...] envolve uma série de processos que objetivam mudança de comportamento, aquisição de novos valores, acesso a meios de inclusão social, etc. Apela-se para a adesão do outro numa dada ação social, com um certo sentido já configurado. Nesta acepção, mobilização é uma categoria gêmea de

participação. Desmobilização será justamente o bloqueio à participação

(GOHN, 2008, p. 65 – grifo nosso).

O contexto das mobilizações em massa/de rua desencadeadas a partir de 2013 no Brasil foi trabalhado no capítulo anterior. O que se nota, no entanto, a partir da análise do contexto organizacional civil de Guarapuava, é que a mobilização pública se coloca, assim

como a participação nos conselhos, como uma constante no repertório de atuação das organizações. Por isso, essas questões foram retomadas nas categorias analíticas do estudo.

QUADRO 9 – Participação em conselhos municipal/estadual/nacional

Organização Quais

Caritas Socialis Saúde; Criança e Adolescente; Assistência Social; Segurança Alimentar e Nutricional. Instituto Educacional Dom Bosco Trabalho e Emprego; Criança e Adolescente;

Assistência Social.

Centro de Nutrição Renascer Criança e Adolescente; Assistência Social. Centro Educacional João Paulo II Criança e Adolescente; Assistência Social. Observatório Social Saúde; Conselho da Cidade; Segurança

Alimentar e Nutricional. UGAM

Saúde; Meio Ambiente; Cultura; Assistência Social; Habitação; Conselho da Cidade; Segurança Alimentar e Nutricional.

Outro Olhar Comissão Regional de Segurança Alimentar e

Nutricional – CORESAN.

CEMPO Conselho Municipal e Estadual de Segurança

Alimentar e Nutricional. Movimento de Mulheres da Primavera Conselho da Mulher.

Fonte: Questionário Perfil. Organização: A autora.

QUADRO 10 – Participação em mobilizações públicas

Organização Quais

Caritas Socialis

Audiências públicas; mobilizações de rua contra a violência; rede de proteção à criança e ao adolescente e mobilização da rede intersetorial no território em que atua.

Instituto Educacional Dom Bosco

Mobilizações em defesa aos direitos da criança e do adolescente.

Centro de Nutrição Renascer

Campanha 18 de Maio contra a exploração sexual infantil; contra a redução da maioridade penal e marcha das vadias. Centro Educacional

João Paulo II

Dia do combate à violência contra criança e adolescente e comitê contra a redução da maioridade penal.

Observatório Social

Abaixo assinado – 10 medidas contra a corrupção. Coleta de assinaturas com relação ao aumento do número de vereadores; manifestações públicas (rua). Contra a PEC 37 e contra a corrupção.

UGAM

Comitê 9840; audiências públicas; conferências (defendendo negros e quilombolas do município); conferência nacional da saúde.

CEMPO

Marchas em defesa da reforma agrária, como o Abril Vermelho. Mobilizações das mulheres camponesas. Mobilizações com quilombolas.

Movimento de

Mulheres da Primavera

Comparecendo nas mobilizações, eventos, campanhas, passeatas, abaixo-assinado, mobilizações em redes sociais. Outro Olhar Não participa.

Fonte: Questionário Perfil. Organização: A autora.

O que se propôs neste item foi delinear um perfil de organização, atuação, e

relacional das organizações civis de Guarapuava52, do qual foi possível extrair elementos

acerca de seu modus operandi. No que diz respeito à organização interna, se destaca a escolha de líderes por meio de processos decisórios coletivos e a rotatividade dos ocupantes dos postos de liderança como elementos de democracia interna; as fontes de recursos são variadas (públicas e privadas), o que acarreta a necessidade de prestação de contas sistemáticas e regulares; a inserção territorial é predominantemente municipal, sem maiores articulações com outras formas organização no território em que se inserem.

A atuação se mostra bastante variada entre a realização de seminários e palestras, desenvolvimento de estudos e pesquisas, prestação de serviços socioassistenciais e promoção de atividades recreativas e/ou esportivas para o público atendido. Desenvolvem atividades coletivas com grupos, que atendem a objetivos variados, podendo ser ações de mobilização, educação e assistência social, por exemplo. A participação dos envolvidos é mesclada entre filiação formal (com vínculo trabalhista) e de forma espontânea (voluntária) e composta majoritariamente por mulheres.

E nas relações estabelecidas entre si se destaca a ausência quase absoluta de parceria com partidos políticos, em contraste com uma recorrência expressiva de parcerias com entidades religiosas. Enquanto nas relações estabelecidas com o Estado sobressai a

52 Reitera-se a relevância e originalidade da pesquisa diante da inexistência de um trabalho de coleta,

unanimidade de participação em conselhos de políticas e em atividades de mobilizações públicas.

Um dos intuitos desta pesquisa é justamente investigar os rebatimentos que a atual configuração do universo organizacional civil tem nas relações democráticas, para o que os dados do perfil traçado serviram de subsídio para as análises realizadas na sequência. A fim de aprofundar a investigação da realidade foram feitas entrevistas semiestruturadas (como metodologia de coleta de dados qualitativos) com representantes das organizações selecionadas para pesquisa. Os depoimentos coletados foram organizados em categorias analíticas emergentes do contexto empírico em articulação com o referencial teórico.

4.5 SOCIEDADE CIVIL E DEMOCRACIA: O CONTEÚDO POLÍTICO DAS