4. Contrato de sociedade
4.2. Relações internas
4.2.1. Obrigação de entrada dos sócios Tipos de entradas:
• Entradas em dinheiro
• Entradas em espécie
• Entradas em indústria
Celebrado o contrato de sociedade, ficam os sócios adstritos ao cumprimento de uma obrigação de entrada (art.983º e 984º CCiv), através da qual contribuem para a prossecução do fim lucrativo.
Qual o objeto da obrigação de entrada?
Tendo em conta que o art.984ºCCiv não delimita quais os bens ou serviços que podem constituir objeto da obrigação de entrada, parece que fica à disponibilidade das partes determinar livremente o objeto das entradas dos sócios.
Segundo o professor MENEZES LEITÃO, deve o objeto da obrigação de entrada:
i. Ser útil para a realização do objeto social, utilidade essa que tem de ser apurada tendo em conta:
30 a. Que não têm idoneidade para constituir objeto de entrada dos sócios, as contribuições desprovidas de valor pecuniário (derrogação à regra do art.398º/2 CCiv)
b. Não constituem objeto de entrada dos sócios as realidades que se apresentem como simples efeito do contrato de sociedade e não constituam uma contrapartida assumida pelo sócio à sua participação social (ex.: a assunção da responsabilidade pelas dividas sociais, sendo um dos elementos da participação social, não pode ser considerada objeto da obrigação de entrada)
ii. Ser determinado ou determinável, sob pena de nulidade (art.280º CCiv).
ATENÇÃO: a determinação das entradas dos sócios não se confunde com a avaliação das entradas, na medida em que esta não é exigida para a perfeição do contrato, podendo os sócios não proceder à avaliação, situação em que vale a presunção do art.983º/2 CCiv. No entanto, isto não retira a importância para os contraentes da avaliação de entrada, uma vez que é em face dela que se distribuem os lucros e se determina a parte que cabe a cada sócio na partilha dos bens sociais (art..992º/1 e 1018º/1 CCiv)
Caso o valor das entradas não se encontre delimitado no contrato → art.983º/2 CCiv → esta presunção restringe-se às situações em que há entradas de bens in natura e equivalente entradas em dinheiro
Relativamente ao art.984º CCiv, defende o professor MENEZES LEITÃO que a sua função é apenas sujeitar as entradas dos sócios ao regime dos outros contratos em que estas se apresentem como efeito típico, apresentando-se o contrato de sociedade, nestes casos, como um contrato misto, de tipo duplo ou geminado, em que de um lado aparece a participação social e os direitos que a integram, regida pelas normas do contrato de sociedade, e do outro a entrada do sócio, integrante de outro tipo contratual por cujas normas se rege.
4.2.2. Direitos e deveres dos sócios Direito dos sócios:
• Direito a influenciarem a vida societária através da manifestação da sua vontade (manifesta-se na exigência do consentimento unânime _ art.989º, 990º e 995º CCiv _, do acordo dos sócios _ art.1007º, 1008º, 1011º, 1018º e 1019º CCiv _, e da deliberação por maioria _ art.986º/3, 991º e 1005º CCiv)
• Fiscalização dos administradores (art.988º CCiv), que se decompõe em dois subdireitos:
o Direito à informação, mediante o qual o sócio pode obter em qualquer altura as informações que necessite sobre os negócios da sociedade e consultar os documentos a eles relativos.
Este direito funda-se no interesse que o sócio tem em conhecer os negócios sociais, e na existência de uma responsabilidade ilimitada e solidária, em princípio, dos sócios pelas dividas sociais.
o Direito à prestação de contas, que o sócio pode pedir periodicamente, nos termos do art.988º/2 CCiv. É um direito importante, na medida em
31 que dele depende a própria averiguação da existência de lucros (excesso do valor do património social sobre o montante das entradas dos sócios) Por força do carácter intuitu personae deste contrato, não pode este direito ser exercido por intermédio de mandatário ou de terceiros
• Direito à distribuição dos lucros, nos termos do art.991º CCiv Como se processa a distribuição dos lucros?
➢ Regra geral: os sócios participam nos lucros e nas perdas da sociedade, segundo a proporção das respetivas entradas, que se presumem iguais em valor, quando ele não é determinado no contrato.
o Exceção → relativamente aos sócios de indústria e ao sócio que apenas se obrigou a facultar à sociedade o uso e fruição de uma coisa, a proporção das entradas é avaliada, por parte do tribunal, de acordo com juízos de equidade (art.992º/3 CCiv)
➢ Caso o contrato se limite a regular a participação nos lucros → a participação nas perdas presume-se idêntica, todavia, os sócios de indústria não respondem, nas relações internas, por essas perdas (art.992º/2 e 4 CCiv)
➢ O contrato pode estabelecer uma participação nas perdas diferente da participação nos lucros, desde que a cláusula que a estabelece não viole o disposto no art.994º CCiv, sob pena de nulidade
➢ Cabendo a divisão dos lucros a terceiro:
o O terceiro tem a obrigação de efetuar a divisão de acordo com o critério estipulado, ou de acordo com juízos de equidade (art.993º CCiv)
o Caso a divisão não seja feita no tempo devido, passa a ser o tribunal a proceder à divisão, de acordo com os mesmos juízos, não ficando sujeito à regra do art.992º CCiv
▪ Caso não se tenha estipulado prazo para o cumprimento da obrigação por parte de terceiro, recorre-se à fixação judicial do prazo prevista no art.777º/2 CCiv r 1026º CPCiv
o O sócio tem direito de recurso para o tribunal, segundo o art.993º/2 e 3 CCiv
Relativamente aos deveres dos sócios, estes são manifestações de um dever acessório de lealdade, a cargo dos sócios, que se justifica pelo facto de existir, durante toda a vida societária, uma relação de confiança e colaboração entre os sócios.
São exemplos destes deveres, entre vários outros, a proibição do uso dos bens sociais para fins estranhos à sociedade (art.989º CCiv), a proibição da concorrência (art.990º CCiv), e a utilização das informações obtidas nos termos do art.988º CCiv por forma a causar dano à sociedade.
4.2.3. Estrutura organizativa
Administração → órgão da sociedade, através da qual se estrutura a organização da mesma. É através da administração que se atribuem poderes de gestão da empresa social a todos ou alguns dos sócios, ou a terceiros, que assume a qualidade de administradores.
As regras de administração estão sujeitas ao regime do mandato (art.987º/1 CCiv), apresentando, no entanto, um desvio ao disposto no art.1161º, al. a) CCiv, já que, tendo
32 em conta que os administradores possuem autonomia na gestão da prossecução do objeto social, não podem os sócios intrometer-se nos negócios sociais ou dar instruções aos administradores, durante o exercício da administração.
Como são conferidos os poderes de administração?
➢ Através do contrato de sociedade – nestes casos, os poderes de administração incorporam-se na participação social como direito individual dos sócios, o que significa que a relação de administração apenas é revogável ocorrendo justa casa, visto que corporiza um mandato de interesse comum (art.1170º/2 CCiv)
➢ Através de ato posterior ao contrato de sociedade – a relação de administração adquire autonomia em relação à participação social, levando a que se aplique, por força dos art.986º/3 e 987º CCiv, o art.1170º/1, sem qualquer restrição, salvo quanto à simples exigência de uma deliberação da maioria (art.1173º CCiv)
Relativamente aos sistemas de administração conjunta, em ambos, têm os administradores, isoladamente, competência para praticar os atos urgentes, destinados a evitar à sociedade um dano iminente (art.985º/5 CCiv)
Direito de oposição no sistema de administração disjunta
Art.985º/2 CCiv: atribuição aos administradores do direito de oposição aos atos que outros pretendam realizar.
Esta oposição tem como função evitar a prática de um ato, e não a sua realização por determinado administrador.
A oposição de um administrador é uma declaração recetícia, o que significa que, segundo o art.224º CCiv, para que produza efeitos, é necessário que seja recebida por todos os outros administradores
Efeitos da oposição:
Sistemas de administração
Administração disjunta
Os poderes de administração concentram-se integralmente em cada um dos administradores, podendo estes individualmente
praticar todos os atos que incumbem àquele órgão, sem necessidade de consentimento nem sujeição às diretivas dos
outros (art.985º/1 CCiv)
Administração conjunta
Administração conjunta stricto sensu
A administração precisa do consenso de todos os administradores para praticar os
atos compreendidos na sua competência
Administração conjunta maioritária
Exige-se apenas à administração uma deliberação da maioria
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• Perda da competência dos administradores para praticar esse ato, que fica suspensa até à deliberação da maioria
• Em sede de representação, ficam suspensos os poderes individuais de representação necessárias para a prática desse ato; esta falta de poderes não é oponível a terceiros que, sem culpa, a ignorem ou desconheçam (art.996º/2 CCiv, por analogia)
Caso a oposição seja revogada, os poderes para a prática do ato que é objeto do poder funcional9 de oposição do administrador é devolvido a cada um dos administradores.
Consequências do exercício infundado ou omissão da oposição por parte de um dos administradores → os administradores respondem para com a sociedade pelos prejuízos causados