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1.2 TEXTO CONSTITUCIONAL

1.2.3 Relações de Poder

O discurso de cidadania, como consta do texto constitucional, delimita as relações entre cidadãos e Estado. Identificado o dispositivo que serve como eixo semântico dessas relações, observa-se a contraposição de titularidade e exercício do poder político, cabendo destacar a inversão da ordem de prioridade quanto ao exercício, da representação sobre a participação, e, consequentemente, da democracia representativa sobre a participativa. Esse expediente não foi acidental, e sim proposital, estando os constituintes cientes de que, sendo a Constituição um conjunto de normas uno e coerente, as concepções de cidadania e democracia adotadas irradiam-se para os demais dispositivos constitucionais e

infraconstitucionais, que mantêm relação direta ou indireta com aquele, a partir do “texto jurídico bruto” ou “material jurídico”, que, publicado, passou a ser o cânone de interpretação e aplicação do Direito, o que se pode dizer a partir das observações de Robles (2005, p. 6-9).

Confrontando-se o texto constitucional à história e a teorias sobre cidadania, constata-se que sua formalização representa mais uma configuração do que uma construção. Falar em configuração, e não em construção da cidadania revela o sentido das relações entre cidadãos e Estado, por acomodação formal, não necessariamente por ampliação substancial. A normatização de necessidades e interesses como direitos e deveres fundamentais é horizontal entre os cidadãos e vertical do Estado para os cidadãos, o que não garante, por si só, o pleno exercício dos direitos, nem o integral cumprimento dos deveres, a demonstrar que a positivação é apenas o primeiro passo para a satisfação das necessidades e o desenvolvimento dos interesses, restando em aberto a questão de como os cidadãos exercem seus direitos e o Estado e os próprios cidadãos cumprem seus deveres fundamentais, conforme a terminologia de Alexy (2011, p. 41-69).

O discurso dos juristas não encontra respaldo no discurso do Direito, ou seja, o discurso sobre não reflete fielmente o discurso de cidadania, e vice-versa. Sem embargo a definição de seus sentidos deônticos (permitido, obrigado ou proibido, e também direitos contrapostos a deveres de abstenção ou prestação), há uma indeterminação quanto a seu sentido ideológico (se liberal ou social). A ideologia dos juristas faz carga sobre a ideologia do Direito, a possibilitar distintas “soluções corretas”, o que pode significar dinamismo, mas também pode conduzir a excessos discricionários e à insegurança jurídica, para citar aspectos da interpretação e aplicação do Direito mencionados por Grau (2005, p. 113 s.).

O texto constitucional é fonte primária para a identificação dos elementos e das estratégias ideológicas a ele incorporados ou nele camuflados. A análise de seu conteúdo, como da história e das teorias sobre cidadania, permite divisar a função ideológica de sua estrutura, os valores consubstanciados em suas normas, os indicativos de identidade e pertença, a divisão de tarefas e atividades entre cidadãos e Estado, os objetivos do Estado e as posições e papéis de cada um. Entretanto, somente essa análise não permite vislumbrar os recursos simbólicos, as atitudes discursivas e os modelos situacionais utilizados (v. DIJK, 1997).

O discurso sobre (de juristas e outros especialistas) sobre o discurso de cidadania (no texto constitucional) indica que, no tocante à intertextualidade manifesta, não há plena coerência entre as figuras dos cidadãos e do Estado, nem dos direitos e deveres positivados, ao contexto constituinte e, ainda por hipótese, à realidade social. Quanto às práticas discursiva

e social, cabe indagar: se a composição da Constituinte é a mesma do Congresso, por que os congressistas, apenas por serem qualificados como constituintes, mudariam os hábitos do funcionamento parlamentar ordinário, e por que mudariam sua forma de ver, ou não ver, os cidadãos? Trata-se de pergunta retórica, uma vez que, como se viu, a Constituição promoveu mudança discursiva, mas não mudança social, consoante indicações da teoria social do discurso de Fairclough (2001, p. 89-131).

Isso demonstra a continuidade entre o discurso sobre e de cidadania, isto é, que as relações de poder do contexto constituinte estão não apenas refletidas, mas mantidas no texto constitucional (como relações jurídicas de acordo com um determinado conjunto de direitos e deveres) e na realidade social (como relações de poder entre cidadãos e entre estes e o Estado). Identificada a estrutura dessas relações, faz-se necessário investigar suas funções, e posteriormente seus efeitos. Essa é a tarefa a que se pretende proceder nos capítulos seguintes, seguindo o procedimento de genealogia do poder concebido por Foucault (2013a, p. 262 s.; v. Roberto Machado, 2013).

2 CIDADANIA COMO SÍMBOLO

Como se pode ver, a formalização da cidadania está baseada nas relações entre os cidadãos e o Estado, intermediadas por seus direitos e deveres. Em outras palavras, as interações comunicacionais entre pessoas e instituições são feitas por mensagens de juridicidade que prescrevem condutas e regulam comportamentos. Considerando-se que a definição dos papéis de autoridade e comunidade condiciona a inserção e circulação de valores na consciência coletiva, pode-se caracterizar a cidadania como símbolo, no sentido de mecanismo de intermediação entre sujeito e realidade (NEVES, 1994a, p. 11 s.).

Aqui se pode apontar para a continuidade do discurso de no discurso sobre cidadania e para o fato de que assim a ideologia dos juristas influencia de modo ainda mais decisivo a ideologia do Direito. O quadro se agrava quando o discurso dos juristas se imiscui ideologicamente no discurso do Direito. É desse modo que os direitos e deveres, e, consequentemente, as necessidades e os interesses, passam a ser objeto de disputas ideológicas e da utilização de técnicas de dominação e programação de decisões (FERRAZ JR., 1980, p. 81-94, 177-194).

A ideologia se relaciona com o Direito não apenas como concepção de interpretação e aplicação de seus textos, mas também como hábitos e como práxis. Daí se poder falar em ideologia estática (aquela que se baseia em valores como certeza, estabilidade e segurança, priorizando os aspectos sintático e semântico das normas e tendente à manutenção do status quo) e ideologia dinâmica (aquela que visa adaptar o Direito às necessidades e aos interesses comuns, ressaltando o aspecto pragmático das normas e tendente à mudança da organização da vida em sociedade). Como a ideologia estática é limitada e limitante, qualquer mudança social depende de adesão “à ideologia dinâmica da interpretação e à visualização do Direito como instrumento de mudança social”, para que a interpretação e aplicação do Direito não seja “mera dedução dele, mas sim processo de contínua adaptação de seus textos [e discursos] à realidade e seus conflitos” (GRAU, 2005, p. 125-126).

Para tanto, deve-se investigar os argumentos do discurso dos juristas sedimentados no discurso do Direito, a fim de desvelar os elementos do discurso de utilizados como estratégias no discurso sobre cidadania. Isso tem a ver com as possibilidades sintáticas, semânticas e pragmáticas do discurso, com o que pode, o que deve e o que efetivamente é dito pelos agentes do discurso. Tem a ver também com os papéis desempenhados por estes, quem pode, quem deve e quem efetivamente diz algo e como o faz, isto é, quais são os mecanismos utilizados para fazê-lo (v. LEEUWEN, 1997).

Conhecendo-se os argumentos e as representações dos agentes do discurso, pode- se perceber como o discurso de e sobre cidadania é usado para limitar o acesso e exercício dos poderes. Partindo-se de microanálises de rotinas burocráticas, pode-se identificar como os agentes do Estado controlam esse discurso com vistas a controlar as mentes e ações dos cidadãos. Trata-se, pois, de abuso de poder, quando o discurso é manipulado ideologicamente para garantir a dominação destes por aqueles, o que é feito não necessariamente por persuasão, mas principalmente por pressuposição: assim a cognição de pessoas e grupos pretende controlar a cognição social; proposições ou tomadas de decisões são baseadas em crenças e opiniões são propaladas como verdadeiras; e as necessidades comuns são incluídas ou excluídas conforme a conveniência de interesses hegemônicos (v. DIJK, 1997; 2010).

Esse modus operandi, de manipulação por pressuposição, induz a reprodução do discurso de no discurso sobre cidadania. Desse modo, o exercício dos direitos e o cumprimento dos deveres de cidadania são apartados das necessidades comuns em função de interesses hegemônicos. Utilizando a cidadania como enunciado discursivo, as instituições políticas, por intermédio de seus agentes, ampliam sua influência, valendo-se da intertextualidade e da interdiscursividade, e dos produtos de suas próprias práticas discursivas, para reprodução na prática social (v. FAIRCLOUGH, 1997; 2001).

A perspectiva de uma microfísica do poder, no sentido de investigação do funcionamento de instituições em específico, também permite uma aproximação do discurso sobre ao discurso de cidadania e deste àquele. O texto constitucional é o suporte linguístico, ao passo que o contexto constituinte e a realidade social são espaços discursivos. A confrontação de texto, contexto e realidade permitirá descobrir como se estabelecem as relações e quais são os efeitos de poder entre os cidadãos e o Estado, isto é, como se regula e controla o exercício dos direitos e o cumprimento dos deveres de cidadania (v. FOUCAULT, 2008a, p. 3 s., 155 s.; 2013a, p. 278 s., 407 s.).

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