CAPITULO III NAS MARCAS DO ABANDONO ESCOLAR, A NEGAÇÃO
2.5. Relações professor/aluno no processo de ensino-aprendizagem
As relações humanas, embora sejam complexas, são fundamentais para o comportamento pessoal e profissional de um sujeito. Dessa forma, a relação professor/aluno envolve interesses e intenções e, na escola, há uma sistematicidade que deve ser permeada pelo conhecimento. Quanto às relações humanas na escola, Aldo afirma que
[...] eu gostava pelo convívio. Tinha um bom convívio com os colegas, fazia amizades e tinha uns professores que eram muito bons, muito atenciosos. E o aprendizado também. O pouco que eu aprendi lá tá sendo bem útil pra mim. (ALDO)
BeneGLWR Mi H[S}H TXH ³>@ JRVWDYD SRUTXH WDYD ID]HQGR QRYRV DPLJRV´ (BENEDITO). -i 3HGUR SRQGHUD TXH ³>@ JRVWDYD GDV DWLYLGDGHV GRV SURIHVVRUHV GRV colegas de aula e de estudar também. Gostei, da educação, do saber, o conhecimento. É muito boa. Eu não WHQKRTXHL[DQmR´3('52&RPRMiIRLGHVFULWR3HGURFRPHoRXHVWXGDUDRV 32 anos de idade, então, para ele a escola parece um mundo novo que se lhe abre.
A escola possibilita que os educandos conheçam pessoas diferentes e estabeleçam vínculos de respeito, amizade, confiança e essa experiência reforça a socialização desses sujeitos e, também, faz da escola um espaço de convivência entre grupos de amigos. Nesse aspecto, a escola não é somente um lugar de aprendizagens, ela é, ainda, um lugar onde se constrói relações humanas entre todos os sujeitos inseridos, principalmente, na Educação de Jovens e Adultos. Nesse caso, os professores, por meio da prática docente, são os responsáveis por desenvolverem processos de ensino e de aprendizagem que correspondam às expectativas dos seus alunos.
Sobre a prática docente, perguntou-se aos sujeitos desta pesquisa como era percebida a prática dos professores da EMC, os quais responderam o que se segue:
Falar desses professores não é muito difícil não. Alguns desses professores, assim, que eu me lembre era muito bom, entendia a gente. As vezes a gente chegava cansado e eles tinha paciência com a gente. Já outros é a gente percebia que... que talvez pudesse estar despreparado, com algum problema
em casa porque a maneira de conduzir as aulas deles era difícil...as vezes não entendia a gente... a gente chegava cansado do trabalho pra estudar. Acho que alguns desses professores talvez não tava preparado pra receber o jovem e o adulto, todo tipo de aluno igual a mim e outros colegas que a gente percebia lá. As vezes os professores não tava bem preparado pra isso a gente chegava cansado pra estudar né, as vezes meio sonolento e tinha aquela aula cansativa e a preocupação da gente com a família (ALDO).
Percebe-se na fala desse sujeito que existem professores atuando na EJA que não estão preparados para trabalhar com os atores principais dessa modalidade de educação. Professores que adotam postura de autoritarismo criam um obstáculo entre eles e os alunos, fazendo com que estes últimos adotem a postura de estar sempre na defensiva. Esses SURIHVVRUHV³GHVSUHSDUDGRV´QmRHQWHQGHPTXHDHVFRODpVHXORFDOGHWUDEDOKRHQTuanto que para os educandos a escola é um lugar para se aprender. No depoimento do Aldo percebe-se que o direito à educação, descrito na Constituição Federal de 1988, não atende, de modo geral, aos educandos da EJA, ou seja, a esses sujeitos não chega uma educação de qualidade.
Aldo fala ainda o seguinte:
Tinha deles [professores] lá que passava as tarefas pra gente e nem corrigia as vezes. Tinham professor que chegava lá meio zangado, não sei por qual motivo. Tinha professor mais atencioso que dava mais atenção pra gente e tinha outros que num mostrava muita preocupação em ensinar a aula pra gente (ALDO).
Na opinião de Aldo a falta de paciência do professor em explicar a matéria torna a escola desinteressante para o educando, fato esse que pode contribuir para a evasão desses sujeitos. O aluno sabe que o papel da escola é ensinar e que o papel do professor é fazer com que ele aprenda. Nesse sentido, toma-VHDTXLFRPRUHIHUrQFLD³VHX-RmR´VXMHLWRGDSHVTXLVD de Vera Barreto e José Carlos Barreto intitulaGD ³um sonho que não serve ao sonhador´ 6HJXQGRRVDXWRUHVDSHVDUGHVHUDQDOIDEHWR³VHX-RmR´HQWHQGHRSDSHOGDHVFROD PRVWUDQGRDVVLPTXHSDUDHVVHVXMHLWRFRPRSDUDDPDLRULDGHRXWURVVXMHLWRVGD(-$³>@a escola é o lugar onde os que não sabem vão aprender com quem sabe (o professor) os conhecimentos necessários para ter um trabalho melhor (menos pesado, mais bem pago) e um OXJDUVRFLDOPDLVYDORUL]DGR´%$55(72%$55(72S
Nesse sentido, o aluno espera encontrar na escola aquilo que, em sua concepção, é papel da escola como ensinar a ler, escrever, falar bem, resolver as operações de matemática, além das informações do mundo desconhecidas pelos educandos.
3DUD-~OLDWRGRVRVSURIHVVRUHVHUDPyWLPRVSRLV³HOHVH[SOLFDYDPGireitinho. Se a gente prestasse atenção a gente aprendia. Assuntos paralelos também que eles ensinavam
PXLWR GR GLD D GLD VREUH D YLGD GD JHQWH´ -Ò/,$ 3DUD HOD RV SURIHVVRUHV DOpP GH ³H[SOLFDUDVPDWpULDVGLUHLWLQKR´GLVFXWLDPDVVXQWRVGRFRWLdiano dos alunos. A articulação com os saberes cotidianos que dão sentido e significado ao que se ensina possibilita que a aprendizagem significativa se concretize e não apenas a mera memorização de fatos sem sentido e significado.
Segundo Eduardo, os profHVVRUHV³Wratavam assim, tudo de igual em geral todos os professores foram gente boa. O que eu mais gostava era dos professores que eram muito bons SUDH[SOLFDUHQVLQDU´ (EDUARDO).
As respostas acima retratam que os alunos reconhecem a autoridade pedagógica dos SURIHVVRUHVIDWRUTXHOKHVFRQIHUHDTXDOLGDGHGH³VDEHUHQVLQDU´,VVRILFDHYLGHQWHTXDQGR argumentam que as explicações dos professores os ajudaram no aprendizado. Com exceção de Aldo e Eduardo, os outros sujeitos pesquisados são unânimes quanto à boa atuação dos seus professores. Consideram que os professores são bons e atendiam as suas expectativas enquanto educandos.
Questionados acerca dos assuntos que estudavam na escola, relatam que estes são importantes porque precisam, principalmente, da matemática para desenvolverem suas funções no trabalho. Solicitados a estabelecer uma relação dos conhecimentos transmitidos pela escola com suas vidas, obteve-se as seguintes respostas:
Sim, é importante. É porque no dia-a-dia, até mesmo em casa, no trabalho, a gente usa aquilo que via lá né, a gente percebia que facilitava como matemática, por exemplo, história... história do Brasil, do Tocantins né, ajudavam a gente entender o local que a gente vive né. Como eu falei é porque se tratava da minha região, da minha origem, criação do nosso Estado... acho que a cultura nossa, tinha muito a ver com gente, realmente era coisa do nosso dia-a-dia e eu que fui criado na época do Estado, acompanhei também, foi um dos motivos. Eu também sabia contar um pouco da história nos debates (ALDO).
Aldo fala da importância da disciplina de história para sua vida. Para ele essa disciplina o ajuda a entender e conhecer a história do Brasil, do Tocantins e, principalmente, entender o lugar onde vive, ou seja, sua cultura, suas origens. Aldo fala que acompanhou a criação do Estado do Tocantins, e é por esse motivo que ele diz que quer conhecer suas origens. Não somente a origem familiar, mas a história da luta secular que resultou na criação desse Estado. Observa-se que Aldo aprende na escola o que é significativo para ele, demonstrando que para a aprendizagem ocorrer é fundamental a articulação do novo conhecimento com os saberes anteriores, dando-lhes significação, reestruturando-os com as novas informações, recriando o saber.
Já André apresenta o seguinte argumento:
A matemática foi a matéria que eu mais gostei. Toda vida eu gostei de matemática, então eu não tive dificuldade nenhuma com a matemática e mesmo com as outras matérias eu não tive dificuldade, mais sempre gostei mais de matemática. Neste trabalho a gente precisa muito ter estudo, principalmente a matemática. Tem que ter estudo. Pra tudo que você for fazer tem que ter estudo. Tem de entender de metragem (ANDRÉ).
Para Benedito:
Matemática. E mais conhecimento, né. No trabalho de hoje ajudou sim. Porque eu trabalho com elevador de carga que carrega 900 quilos e nunca pode usar acima do peso dele. Se botar 600 quilos tem que saber quantos tijolos dá 600 quilos. Dá pra fazer isso com quase todo tipo de material como tijolo, cerâmica, telha, argamassa, cimento. Tudo tem que passar pela matemática pra não passar de no máximo 900 quilos (BENEDITO)
3DUD (GXDUGR D ³>@ PDWHPiWLFD PH DMXGRX PXLWR QR OXJDU RQGH HX WUDEDOKR /i mede calçamento porque eu mexo com pré-moldados, medir treliças, tem as medidas das máquinas, das formas que DJHQWHID]DPDWUL]$MXGDPXLWRDPDWHPiWLFD´('8$5'2
Constata-se na fala de André, Benedito e Eduardo que a matemática é essencial para suas profissões. Esses três sujeitos trabalham com medidas e pesos. André trabalha como serralheiro e precisa fazer medidas exatas para não desperdiçar material, daí a importância da matemática na sua vida. Benedito, que trabalha com um elevador de cargas em uma construção civil, também precisa da matemática para não errar a quantidade de peso suportada pelo elevador. Caso erre, pode ocorrer um desastre.
Outro assunto questionado com os sujeitos foi se a escola servia para mais alguma coisa, além de estudar. Aldo afirma que na escola que estudava não tinha muitas coisas voltadas para cultura, somente em
[...] datas comemorativas como 7 de setembro, folclore... Às vezes tinha alguma coisa, mais eu muito raramente participava disso porque as vezes tava cansado e não tinha mesmo muito tempo e considerava isso mais como um lazer e eu naquela época num... achava que não tinha tempo pra lazer assim... Meu lazer era cuidar da família, essas coisas assim (ALDO).
Observa-se, nessa fala do Aldo, que o bem-estar da família é o foco principal dos VXMHLWRVGD(-$4XDQGRH[S}HTXH³PHXOD]HUHUDFXLGDUGDIDPtOLD´HVVHVXMHLWRFRnfirma que praticamente todo o seu tempo é dedicado ao custeio dos seus familiares. Para isso, trabalham em dois ou até mais empregos. Outro aspecto importante citado por Aldo é sobre como o espaço da escola é utilizado. Segundo ele:
[...] lá a gente participava de outras coisas a não ser só ir pra lá só estudar. Era reunião, reunião de algum candidato as vezes, de algum político. Eu lembro que uma vez o prefeito foi lá fazer reunião e usar a escola e também a gente usava o pátio da escola pra jogar bola. Naquele tempo era difícil e na escola tinha uma bola e o povo convidava os meninos lá da região pra jogar bola. Teve uma vez que levaram até filmes pro pessoal assistir (ALDO). Percebe-se, nas afirmações do Aldo, que a escola ainda é usada para se fazer política47 partidária. A escola é ou deveria ser um espaço somente de ensinar, aprender e proporcionar, no entanto, continua sendo um lugar de se fazer política partidária. De fato a escola é um lugar político, de formação política, mas, não partidária. É um lugar de debates científicos, de conhecimento e aprendizagens. Quando qualquer político procura a escola com fins eleitoreiros a escola perde a sua essência de lugar imparcial politicamente.
Outra temática que foi questionada aos sujeitos pesquisados foi, em suas opiniões, SDUDTXHDHVFRODVHUYHDOpPGHDSUHQGHUDVPDWpULDV(GXDUGRGL]TXHDHVFROD³>@Verve SUDHQVLQDUDJHQWHDFRQYLYHUFRPRPXQGRFRQYLYHUFRPDVSHVVRDVFRPXQLFDUPHOKRU´ (EDUARDO).
Para Aldo a escola é
[...] uma ótima oportunidade na busca do conhecimento né, porque é uma ótima oportunidade, é uma das únicas mesmo. Sem estudar ninguém vai conseguir nada né. Senão será mesmo um trabalhador da roça mesmo, um gari e olha lá que tá cada vez mais difícil. Sem estudo não dá mesmo. Então quando eu falo nessa oportunidade é isso mesmo. É falando dessa oportunidade pra vida, pro futuro, pra arrumar um emprego (ALDO).
Para Pedro a escola:
É importante. É porque eu aprendi muito, assim, porque eu não sabia nada mais o pouco que eu aprendi serviu pra. Tanto pra mim como pra outras pessoas também. Eu entrei na escola já adulto e aprendi resolver meus problemas. Tinha negócio no banco pra resolver e eu não sabia. Tinha que ir uma pessoa comigo e agora não precisa ninguém ir comigo no banco. Eu mesmo vou lá e resolvo tudo. Foi muito importante porque de antes de ir pro colégio eu não sabia nada disso (PEDRO).
Para esses sujeitos a escolarização é considerada importante enquanto valor social e, em geral, é percebida por eles como meio de alcançar um trabalho melhor e, consequentemente, melhores condições de vida. Para esses sujeitos há reconhecimento acerca
47 A despeito da fala de um sujeito desta pesquisa apresentar a temática sobre o uso da escola por políticos, há
que se ressaltar que este assunto requer um amplo debate em outro projeto de pesquisa. Por isso não será aprofundada a discussão sobre ele. (Nota do pesquisador).
da função e importância da escola desde que esta se torne rentável economicamente. A relação entre o nível de escolaridade e a garantia de melhores empregos direciona as perspectivas da volta à escola. Assim, os investimentos na escolarização objetivam a garantia de um futuro melhor, mesmo que percebam que a relação formada por escola e garantia de emprego não seja tão segura assim.