Uma vez que é objetivo deste estudo a expressão do tempo em crónicas desportivas, e sendo já percetível o tipo de análise macroestrutural que se fará adiante (cf. 3.3), torna-se importante um estudo das principais relações semânticas que se estabelecem entre frases e que contribuem para a coesão textual. A essas relações semânticas no modelo de Mann & Thompson (1988) dá-se o nome de relações retóricas.
Com efeito, como forma de identificar a estrutura hierárquica dos textos, Mann e Thompson (1988) desenvolveram a Teoria da Estrutura Retórica (Rhetorical Structure Theory, tradução minha).
88 Há, na literatura, quem opte por designar a modalidade da apreciação como modalidade avaliativa (cf.
51 Segundo os autores, a coesão e coerência de um texto89 dependem, em parte, das relações
estabelecidas entre “duas porções de texto” (Mann e Thompson, 1988: 245). Uma dessas porções é o núcleo, a outra, o satélite. Uma rede de relações, denominadas na literatura por relações retóricas, forma padrões que constituem os chamados schemas:
They are abstract patterns consisting of a small number of constituent text spans, a specification of the relations between them, and a specification of how certain spans (nuclei) are related to the whole collection.
(Mann e Thompson, 1988: 246-7)
Os autores (1988: 250-7) elaboraram uma lista aberta de mais de vinte relações retóricas possíveis, das quais aqui se destacam apenas quatro90, pelo facto de me parecerem as mais relevantes
para a análise de expressões de tempo em crónicas desportivas91. São elas:
a) Narração:92 há uma relação de sucessividade entre as situações no núcleo;
b) Elaboração: apresenta-se um detalhe adicional relativamente ao núcleo, ou algo que se possa inferir neste, no satélite;
c) Enquadramento: o conteúdo do satélite permite ao leitor compreender o núcleo;
d) Contraste: as situações de dois núcleos têm pontos em comum, mas o leitor percebe diferenças entre eles. As situações são comparáveis93.
(Mann e Thompson, 1988, apud Silvano, 2010: 180-2) Para o desenvolvimento da análise a realizar no Capítulo 3, importa, sobretudo, referir a relevância que têm certas questões linguísticas na construção de relações retóricas. Aqui são resumidas duas delas, seguindo o estudo de Silvano (2010): o Tempo e o Aspeto e os adverbiais temporais.
Embora não seja sempre esse o caso, o tempo linguístico é muitas vezes determinante para a escolha das relações retóricas. É o caso das relações de narração, de elaboração e de enquadramento. No caso da narração, só pode haver sucessividade entre situações se a segunda situação for posterior à
89 A coesão e a coerência são noções fundamentais para o estudo do texto. Dá-se o nome de coesão à
“interdependência semântica das ocorrências textuais de processos linguísticos (...) de sequencialização, i.e, de ordenação linear dos elementos linguísticos.” A coerência trata da “interdependência semântica das ocorrências textuais [que] resulta dos processos mentais de apropriação do real”, ou seja, dos elementos extralinguísticos do mundo real com que o texto se relaciona (Duarte, 2003: 89).
90 A escolha destas quatro relações retóricas prende-se com o facto de terem sido as únicas encontradas com
frequência nas crónicas desportivas analisadas, pelo que são as mais ilustrativas e mais relevantes neste tipo de textos.
91 Uso também algumas contribuições de Asher e Lascarides (2003) e ainda de Asher et alii (2008), que
desenvolveram a teoria de Mann e Thompson (1998), para explicar certos fenómenos.
92 Na taxonomia de Mann e Thompson, a relação retórica de narração é denominada de sequence (sequência).
Contudo, para que o termo não se confunda com o de sequência textual proposto por Jean-Michel Adam (cf. 2.3), traduzo por narração.
93 Não são aqui apresentados exemplos de relações de contraste porque não têm uma relação direta com as
expressões de tempo. Contudo, é frequente encontrar este tipo de relação semântica nos corpora (cf. Capítulo. 3).
52 primeira. Esta é a única relação retórica, na teoria de Mann e Thompson, em que a ordem das situações é relevante (Silvano, 2010: 184).
(7) Max fell. John helped him up.94
(Asher e Lascarides, 2003: 62, apud Silvano, 2010: 216) No que diz respeito à elaboração e ao enquadramento, a leitura temporal das situações é de sobreposição ou de inclusão.
(8) Max entered the room. The room was dark.
(Asher e Lascarides, 2003: 62, apud Silvano, 2010: 219) (9) Alexis did really well in this school this year. She got As in every subject.
(Asher et alii. 2008: 159, apud Silvano, 2010: 206) O exemplo (8) retrata uma relação de enquadramento, com duas situações que têm o mesmo tema (the room); o ponto de referência é o mesmo em ambas, tal como a relação temporal - anterior ao momento da enunciação, estando sobrepostas. As relações retóricas de enquadramento fornecem, no fundo, mais informação sobre o estado de coisas no intervalo de tempo no qual o núcleo está incluído. Já o exemplo (9) é uma elaboração, inferindo-se que a segunda situação (She got As in every
subject) está incluída temporalmente na primeira e consiste numa particularização da mesma.
Também o Aspeto pode interferir na determinação das relações retóricas. Se o núcleo for um evento e o satélite um estado com leitura não-terminativa, a única leitura temporal possível é a de sobreposição no intervalo de tempo da situação do núcleo e a relação retórica é de enquadramento95,
como ocorre em (4).
(10) John went into the old house. The silence was breathtaking.
(Silvano, 2010: 220) Esta breve apresentação mostra como o Tempo e o Aspeto, ainda que analisados em sequências textuais pequenas, podem influir na compreensão global do texto, através do estabelecimento de relações retóricas entre as suas unidades. Todas estas correlações são importantes para perceber a construção textual. Neste ponto, procurou destacar-se apenas as relações retóricas mais frequentemente encontradas nos corpora (cf. Capítulo 3) e perceber de que forma são influenciadas pelas duas dimensões acima mencionadas. Este trabalho visa ainda enquadrar as relações retóricas na determinação do tipo de sequências textuais96, que em muito contribuem para definir o subgénero crónica desportiva e para perceber as particularidades deste tipo de texto para os estudos de tradução.
94 Note-se como esta sequência não seria compreensível se a ordem das situações fosse contrária: *John helped
him up. Max fell.
95 Esta análise é feita por Silvano (2010: 220-1), a partir da teoria de Asher e Lascarides (Segmented Discourse
Representation Theory) (2003).
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2.5. Conclusões do capítulo
Neste capítulo abordaram-se várias noções relacionadas com tempo e com tempo linguístico. Do tempo se pode dizer que é contínuo, irreversível e direcional, sendo o tempo linguístico o meio de localizar linguisticamente as situações.
Existem dois modos de localizar uma situação: uma deítica, em que a situação é localizada num eixo temporal, seja num instante ou num intervalo mais prolongado desse eixo; e uma anafórica, em que o tempo de uma situação se relaciona com um outro tempo já presente nos enunciados. Dentro de várias classes de palavras que expressam temporalidade, a que mais carreia informação temporal é a dos tempos verbais.
Serviu então este capítulo para dar a conhecer alguns fundamentos teóricos sobre tempos verbais, nomeadamente a noção de ponto de referência temporal, introduzida por Reichenbach em 1947 e posteriormente desdobrada por Kamp e Reyle (1993) em ponto de referência e ponto de perspetiva temporal, na Teoria da Representação Discursiva. Esta teoria é, aliás, fundamental para este trabalho, na medida em que explica a forma como alguns tempos verbais se correlacionam com os demais elementos da frase, introduzindo a importância do discurso para a expressão das relações temporais.
Considero, por isso, que as teorias de Reichenbach (1947) e de Kamp e Reyle (1993) abrem a porta ao estudo da sequencialidade temporal, através de noções que explicam a progressão narrativa. Além destes autores, refiro-me também a Comrie (1985), para quem a noção de contexto é fundamental para a compreensão do texto (uma associação também feita por Kamp e Reyle (1993)); e a Declerck (1990), que introduz os conceitos de esfera temporal e de domínio temporal, ambos importantes para o estudo das sequências de tempos verbais.
De todos estes autores, apenas Reichenbach se refere aos tempos verbais pela sua informação temporal. Sabe-se, no entanto, que os tempos verbais raramente têm valor temporal único, seja em português ou em inglês. Decorre do que foi dito neste capítulo que a expressão da temporalidade das situações não pode ver-se apenas em abstrato, ligada apenas a pontos ou intervalos num eixo temporal, na medida em que a estrutura interna dos predicados influencia a forma como as situações são interpretadas.
O estudo do Aspeto é, pois, fundamental para uma compreensão global da forma como as situações podem ser linguisticamente descritas, seja do ponto de vista lexical (Aktionsart) seja do ponto de vista gramatical. Neste trabalho partiu-se da teoria de Vendler (1967), que define quatro propriedades aspetuais das situações (dinamicidade, telicidade, homogeneidade e duração) para classificar diferentes tipos de situações e adotou-se a taxonomia mais tarde desenvolvida por Moens (1987). Este autor utiliza um sistema que divide situações dinâmicas - eventos - e situações não- dinâmicas - estados. Dentro dos primeiros assume-se a existência de quatro classes aspetuais distintas:
54 processos, processos culminados, culminações e pontos. Os segundos são mais tarde desdobrados por Cunha (1998) em estados faseáveis e estados não-faseáveis.
Neste capítulo procurou explicar-se que, para a coesão de um texto, existe um conjunto de relações semânticas, aqui denominadas relações retóricas, que se estabelecem entre as mais diversas unidades textuais. Utilizando a proposta de Mann e Thompson (1988), optou-se pela limitação a quatro relações retóricas mais relevantes para este estudo: narração, enquadramento, elaboração e contraste.
No próximo capítulo, faz-se uma análise de dois corpora – um em português, outro em inglês – onde o(s) enquadramento(s) teórico(s) aqui explanados são postos em prática.
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Capítulo 3.Crónicas desportivas em português e inglês: análise de
expressões de temporalidade e relação com sequências textuais
Os primeiros dois capítulos deste trabalho forneceram um enquadramento teórico que serve agora de base para uma análise de dois corpora de textos jornalísticos originais. Neste capítulo procura-se encontrar as características que definem os textos em análise no que à expressão do tempo linguístico diz respeito. Essa análise serve como ponto de partida para um modelo tradutivo que se apresenta posteriormente (cf. Capítulo 4).
Para esse efeito, procura-se, em primeiro lugar, explicar a nomenclatura escolhida para os textos em estudo; em segundo, apresentam-se os corpora e descreve-se a forma como foram constituídos. Uma análise quantitativa permite mostrar a preponderância dos sistemas e dos tempos verbais nas crónicas desportivas e serve como base para um estudo detalhado sobre as expressões de temporalidade (cf. 3.3 e 3.4.).