4.2 Práticas Discursivas e de poder no âmbito local
4.2.5 Relatório do Projeto “Casa do Sol Nascente”
Este projeto da Secretaria Municipal de Assistência Social de Assis/SP funcionava em uma parceria com o Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, com a Secretaria de Saúde de Assis/SP e com a Unviersidade Estadual Paulista (UNESP-Assis). Era dirigido às crianças e adolescentes, do sexo feminino e masculino, na faixa etária de 08 a 14 anos. Esta população também era encaminhada pelo Conselho Tutelar sob o estigma de estar “em situação de risco pessoal e social”. O projeto visava:
Atender crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social, buscando fortalecer seu vínculo familiar e a construção de sua cidadania,
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ASSIS. Secretaria Municipal de Assistência Social de Assis. Relatório sintético das atividades desenvolvidas em 1998. Projeto Casa do Sol Nascente. Assis/SP, 1998.
integrando-os ao processo social. (SECRETARIA MUNICIPAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DE ASSIS, 1998, sem número de página)
Apresentamos ao longo deste capítulo as mudanças trazidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente referentes ao papel relevante conferido aos especialistas na proteção de crianças e adolescentes, que Botelho (1993) designou como tutela tecnocrática. Este projeto, como os anteriores, reafirma as contribuições de Botelho (1993), pois, podemos em todos eles observar a preocupação de uma gestão dos corpos de crianças e adolescentes por psicólogos, pedagogos e assistentes sociais.
Neste projeto, vemos pela primeira vez aparecer a preocupação com a promoção da cidadania, porém esta aparição é ligada ao processo disciplinar e ao dispositivo de integração social.
Em outro documento14 referente a este projeto intitulado “Descrição do
Projeto “Casa do Sol Nascente”, encontramos o relato das práticas dos responsáveis pelo projeto, justificando sua importância por desejar retirar das ruas as crianças e adolescentes que ficam:
“à mercê do abandono, buscando nas ruas centrais da cidade, lenitivo para suas carências afetivas, através da mendicância ou cometendo atos anti- sociais.” (SECRETARIA MUNICIPAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DE ASSIS, 1998, sem número de página e data).
Transitar pela rua seria o efeito do desapego dos pais ou responsáveis por estas crianças e adolescentes, segundo os idealizadores do projeto, pois, apontam a carência afetiva como causa determinante da mendicância e dos pequenos desvios que cometem na rua. Esta concepção referente às crianças e adolescentes que são encaminhadas para o projeto retrata qual é o real objetivo da Casa do Sol Nascente: retirar desta população a possibilidade de circular pela cidade. Este projeto seria o resultado da tentativa da Secretaria Municipal de Assistência Social responder às
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ASSIS. Secretaria Municipal de Assistência Social de Assis/SP. Descrição do Projeto Casa do Sol Nascente. Assis/SP, sem data.
demandas de diversos grupos e instituições que demandavam ações dirigidas a estas crianças e adolescentes.
Com a demanda de reivindicações da comunidade, principalmente do órgão judiciário, Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Conselho Tutelar e outros inúmeros profissionais das áreas de atendimento; foram implantados os programas para dar atendimento às criança e ao adolescente consideradas em ‘risco pessoal e social’. (SECRETARIA MUNICIPAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DE ASSIS, 1998, sem número de página e data).
Os idealizadores do projeto qualificavam o estado destas crianças e adolescentes com as seguintes categorias:
“vítimas de negligência, vítimas de maus-tratos, mendigos, em pré e/ou marginalidade, drogaditos, alcolizados, viciados em jogos de fliperama, explorados pela família e pelo mundo do trabalho e as que apresentam evasão escolar.” (SECRETARIA MUNICIPAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DE ASSIS, 1998, sem data e sem número de página)
Estas categorias remetem às pequenas infâmias descritas por Foucault (2003), ao falar da gestão administrativa dos pequenos desvios das populações pauperizadas, que entrariam na história através do registro de seus minúsculos atos infames. A gestão das crianças e dos adolescentes, desta forma, é da ordem de uma microfísica do poder, onde os corpos são atravessados por relações de poder disciplinar e de gestão de risco continuamente pelos trabalhadores sociais.
A preocupação com o futuro parece vigorar na política de proteção às crianças e aos adolescentes, principalmente, se este futuro não se enquadrar nos moldes dos corpos disciplinados e controlados esperados.
Os técnicos também consideravam relevante a atenção do projeto às meninas que estariam pelas ruas mendigando ou prostituindo-se e propõem, para elas, oficinas específicas como a de culinária que, segundo eles, seria profissionalizante e as prepararia para os afazeres domésticos. Também ofertavam às meninas,
exclusivamente, a oficina de educação artística, nesta, aprenderiam a costurar, bordar, fazer crochê e tricô, confeccionar flores artificiais que as levariam a um equilíbrio emocional e auxiliaria na geração de renda, de acordo com os especialistas idealizadores do projeto.
Rago (1985) e Costa (1989), em seus estudos já apontaram a separação da assistência de acordo com a categoria de gênero, em consonância com a idéia de que seria natural a mulher estar em casa e zelar pela limpeza e alimentação, bem como pelo cuidado dos filhos, podendo completar a renda familiar com pequenos bicos que não implicassem a retirada da mãe de seu papel principal, que seria a vigilância dos filhos.
Finalizando, os autores do projeto enfatizam a necessidade de que se fizesse uma ronda noturna contínua pelas ruas da cidade, retirando as crianças e adolescentes que estivessem vagando sem a companhia dos pais pelas ruas. Podemos perceber uma clara política de limpeza urbana, como só pudesse transitar pelas ruas quem fosse consumir ou trabalhar, questão típica da modernidade, de acordo com Bauman (1999).