doenças em que o alcool desempenha um papel etiológico preponderante.
I N S A L U B R I D A D E DA HABITAÇÃO E EXCESSO
DE POPULAÇÃO. — Aqui, tocamos nós em uma das maiores chagas da cidade.
As casas e bairros insalubres abrangem uma grande parte da sua area predial devendo extremar- se pela sua maior densidade as freguezias da Sé, Victoria, Bomfim, S. Nicolau e parte baixa de Miragaya.
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do Barredo, que em compactas pilhas de húmidos e escuros casinholos se estende do morro da Sé até á Ribeira.
O investigador curioso de coisas passadas, que alguma vez transpoz as barreiras d'esta cidade de porcaria, poderá facilmente encontrar ahi em toda a sua pujança um vivo modelo de burgo me- dieval.
Em infectas e tortuosas ruellas, que em certos pontos não recebem um único raio de sol, abrem- se longos e escuros corredores, ao fundo dos quaes as escadas, escorregadias e estreitas, co- bertas de detrictos de toda a natureza, escassa- mente illuminadas por pequenas jãnellas que se abrem sobre saguões ainda mais acanhados e sombrios, dão ingresso até 3 6 4 andares.
De todos estes prédios exhala-se um fedor in- supportavel, consequência de fermentações de lon- gos annos.
Nos dias chuvosos principalmente, quando uma humidade pegajosa e suja envolve todos es- tes antros de miséria, pôde avaliar-se dolorosa- mente as miseráveis condições em que vive toda esta.gente.
Para completar o quadro, a rapacidade dos proprietários, multiplicou os alojamentos onde se albergam familias de cinco ou seis pessoas, vi- vendo e estiolando-se em nichos de alguns me- tros cúbicos.
E é n'estes quartos que ordinariamente se faz tudo: cosinha-se, come-se, dorme-se, etc. A s latri-
nas que estas casas possuem, muitas vezes inte- riores, são horríveis de ver e descrever.
E' ahi também que os nossos tuberculosos tossem, escarram, emagrecem e morrem, cercados pelos seus, que ignorantes dos mais elementares preceitos hygienicos, se tornam preciosos instru- mentos de contagio. Ahi as moscas e variados pa- rasitas, attrahidos por toda a casta de imundícies, accorrem de todos os lados, transportando comsi- go e semeando por toda a parte o bacillo de Koch, que pollula sobre estes excellentes meios de cul- tura.
São frequentes os grupos de habitações n'es- tas condições, mesmo nos pontos mais centraes da cidade.
Deixando este, encontramos na cidade um ou- tro género de habitação collectiva, a «Ilha», que deixa tudo a desejar sob o ponto de vista da salubridade.
A propósito d'ella diz o illustre prof. Ricardo Jorge:
«Esta creação caseira do proprietário indíge- na prosperou e multiplicou: não melhorou por certo de construcção nem de aluguer, mas peorou na accumulação, porque as ha que albergam dezenas de famílias.
São renques de cubículos, ás vezes sobrepos- tos em andar, enfiados em coxia de travesso.
Este âmbito onde se apinham camadas de gente, é por via de regra um antro de imundície; e as casinhas em certas 'ilhas, dessoalhadas e mi-
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seraveis, pouco acima estão da toca lobrega d'um troglodita. Existem vários espécimes, dissemina- dos por toda a cidade, mais frequentes no Carva- lhido, Paraiso, Fontinha, S. Victor, Antas, Monte- bello, Fontainhas, etc.
São o coito das classes operarias e indigentes que, mercê d'um aluguer usurário, pagam o seu direito de residência a preço mais subido do que as classes remediadas.» (')
Ainda no mesmo tom, falia o Snr. Dr. Aran- tes Pereira, no seu relatório clinico, do dispensário anti-tuberculoso, de 1900.
«As casas são baixas e a vida dos seus mora- dores, quasi sempre operários, obriga-os a terem fechadas durante o dia as tristes mansardas onde pouco a pouco a humidade, de sociedade com o
fartum humano, vai elaborando um cheiro nausea-
bundo especial, que estonteia todos os que o aspi- ram pela primeira vez.
,«As fossas não mereceram cuidado na sua construcção e por isso frequente é darem-se infil- trações enormes tornando viciadíssimo o ar das casas que lhes estão próximas».
A estatistica colhida antes de 99, como subsi- dio para o problema do saneamento, dava a cifra de 1:048 ilhas com [1:129 casas.
(!) Prof. Ricardo Joiige.—Demographia e hygiene da ci- dade do Porto.
Este numero deve naturalmente subsistir ainda hoje, se não tiver augmentando, attendendo á par- ticularidade que tem o portuense de conservar e ampliar o que possue de mau.
Corresponde a estatistica á area dentro do pe- rímetro da Companhia das Aguas, excluindo Foz, Campanhã, e parte de Lordello, e a uma popula- ção que pôde calcular-se em 120:000 almas. Vê-se que quasi metade da gente do Porto mora e aca- ma-se nas ilhas gerando uma accumulação insalu- berrima.
Para completar este breve estudo da influencia da habitação insalubre e agglomeração excessiva na génese da tuberculose do operário portuense, influencia que reputo de capital importância, seria util conhecer a densidade das diversas zonas, mais povoadas por operários.
Empreguei esforços n'este sentido, mas debal- de, porque nas estações officiaes onde alguns ele- mentos poderia colher nada se sabe a tal respeito.
A titulo de curiosidade apenas, apresento as cifras seguintes, resultado de um inquérito aberto pela direcção do «Comité Central de Académicos e Operários» sobre o analphabetismo e condições económicas do operariado e sua repartição numé- rica, pelas freguezias e bairros mais populosos.
Campanhã, rua e travessa das Eirinhas com as immediações, comporta uma população de cerca de 6:000 operários, na maior parte analphabetos, bem como seus filhos.
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Fontainhas, Corticeira e immediações, 4:000 operários em idênticas condições de ignorância e miséria.
Fontinha, Bomjardim (alto) e Costa Cabral com as suas numerosas ilhas, cerca de 4:000.
Sé e Barredo, 3:000.
Miragaya, na parte baixa, 2:000. Massarellos, na parte baixa, 1:000. Arrábida e Lordello, mais de 5:000.
Campo Alegre, Bom Successo e Campo Pe- queno, cerca de 5:000.
Cova do Monte e Ramalde, 3:000.
Um total de 37:000 operários, bem que esta ci- fra esteja ainda muito abaixo da verdade, que com suas familias por vezes numerosas, vivem em mi- seráveis condições.
Mais adiante veremos como a tuberculose campeia por estes arraiaes da miséria colhendo innumeras vidas.
I N S U F F I C I E N C Y D E S A L Á R I O . C O N D I Ç Õ E S
ANTI-HYGIENICAS DE TRABALHO.—Na impossibili- dade de estendermos o nosso breve estudo a todas as classes trabalhadoras da cidade, limitar-nos- hemos a considerar uma das mais importantes e numerosas e que mais digna de nota se torna, pela sua miserável situação, tantas vezes publica- mente patenteada. Refiro-me á classe dos fiandei- ros e tecelões.
A industria de fiação e tecelagem n'esta ci- dade, quer na fabrica de producçâo intensiva, quer no pequeno atelier e ainda na sua forma domes- tica, pelo grande numero de braços que emprega, e pelas condições em que se exerce, servir-nos-ha de typo para o breve estudo e conclusões que te- mos em vista. Desde já devemos annotar a difficul- dade de colligir dados globaes, estatísticas com- pletas sobre este-ramo de trabalho.
Não existem em publicações officiaes, nem nas respectivas associações de classe, nem se encon- tram em publicações adequadas.
Relevem-se pois as deficiências.
A industria de tecelagem no Porto, para mais facilmente se poder estudar, deve dividir-se em três grupos a cada um dos quaes correspondem differenças ou nas condições de hygiene em que se effectuam as tarefas, ou nas cathegorias dos salários.
i.° grupo—As grandes fabricas movidas a va- por : Asneiros, Marinhos, Graham, Companhia Fa- bril de Salgueiros, Companhia Fiação e Tecidos do Porto, Companhia Fiação Portuense, Bahia.
2.° grupo — Pequenas fabricas, cuja resenha seria fastidiosa e sem importância, localisadas na sua quasi totalidade na freguezia do Bomfim.
3.0 grupo — Tecelagem manual exercendo-se:
a) em ateliers ; b) nos domicílios.
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A totalidade dos operários occupados é de dif ficil estima, apontando nós, apoz informes de com petentes, a cifra de 25 a 30:000. Tornase o calculo bastante dificultoso porque a classe d'operarios que classificamos na subdivisão b) do 3.0 grupo,
tem soffrido varias reducções de pessoal habitando na área da cidade, mercê de repetidas, crises, principalmente desde 1900 para cá.
Em compensação dia a dia se estende para os povoados circumjacentes da cidade, onde ella é praticada, não como industria de que um casal ou familia possa viver, mas como industria subsi diaria.
Vejamos agora os salários usuaes nos três gru pos e as condições hygienicas em que o operário vive nas fabricas.
Na fiação e tecelagem mecânicas (i.° e 2.0 gru
pos) os salários achamse como que unificados. São eguaes no grosso dos artefactos, divergindo apenas na obra designada commummente «de cai xão » executada com os teares de quatro lança deiras, obra essa que é paga differentemente em cada fabrica e para cada tipo de tecido.
Mas o numero de operários que se occupam n'esse género é diminutíssimo.
Tanto na fiação como na tecelagem predomina
■ a mulher, desde a idade de 16 annos. Cada vez
se accentua mais a preponderância d'ella, preferida por se contentar com uma jorna mais baixa e não se levantar a miúdo em reivindicações de caracter social. Apenas os serviços de batedores e cardas são
exclusivos dos homens por exigirem notável força braçal, e também aos mesmos pertencem os servi- ços chamados de acabamento, como a tinturaria, a
engommagem e a 'calandragem. N'estes diversos la-
bores podemos calcular que a percentagem d'ho- mens seja de 12 a 18 °/0.
A s mulheres que trabalham na fiação (lamina-
doras e bancos) obtêm um salário que vai desde
240 a 300 réis diários. Os homens dos batedores e cardas, de 300 a 340 réis. Além d'estes, para auxiliar o serviço, empregam-se muitas creanças desde 12 (edade legal) aos 15 annos.
Os salários d'estes vão desde 60 a 100 réis de jornal diário.
No ramo de tecelagem as ferias semanaes os- cillam entre 1&500 a 2$6oo réis. A differença de- pende da pericia da operaria que trabalha com um, dois, ou três teares. O mais corrente, o que constitue o grosso dos salários, é a feria de 1:800 a 2$ooo réis, o que dá um ganho de 300 a 333 réis por dia de trabalho.
Mas se entrarmos em linha de conta que o tra- balhador labora 6 dias e que a semana tem sete, e por sete dividirmos a feria semanal, todos esses números nos apparecem diminuidos, havendo por conseguinte o respectivo desfalque na ração ali- mentícia.
E assim nos resulta a jorna de 240 réis redu- zida a 205; a de 300 a 257 ; a de 333 a 285 réis !
São estas as médias dos salários nos dois pri- meiros grupos, mas as condições hygienicas em
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que se réalisa o trabalho peoram no z.° grupo. Nenhuma das fabricas do Porto foi construida sob o ponto de vista da hygiene industrial. Em todas ellas as poeiras toldam o ar e apesar dos edifícios do i.° grupo terem grandes salões de fiação ou te- celagem, a ventilação ou é insufficiente, ou se acha combinada por maneira que se não lava o ambien- te. No 2° grupo, salas, ventilação e asseio, é tudo parco e geralmente porco.
De resto, nem a nossa acanhada legislação sa- nitaria industrial, nem as leis de protecção a mu- lheres e menores são cumpridas.
A duração do trabalho nos dois grupos é de 11 horas por dia.
Passemos á tecelagem manual que subdividi- mos em dous ramos.
a) a que se exerce nos ateliers; b) a que se exerce nos domicílios.
Importa que comecemos pela segunda, a mais numerosa e a mais miserável. Em todos os bairros ou ruas excêntricas, como S. Roque, Campanhã, Antas, Lordello, Eirinhas, Monte Pedral, Carva- lhido, etc.; nos cubículos sem ar nem luz das ilhas, se vê o tecelão 12 ou 15 horas por dia deitado ao trabalho. A maioria das vivendas são tão acanha- das e tanta a miséria, que o tecelão dorme por baixo do tear. Rara mulher se emprega n'esta faina.
Ao cabo d'uma semana o operário tira a feria de 600 a 800 réis, tendo ainda de pagar á sua
custa, canellas, gomma para preparo da peça e carqueja para seccar a mesma!
Quatro ou cinco mil d'estes famintos, que as- sim obteem uma diária de 8o a 11 o reis, se con- tam ainda dentro da cidade.
Nos ateliers manuaes, ou se trabalha no mesmo typo de artefacco inferior que o tecelão isolado produz, e o salário é idêntico, soffrendo raramente uma pequena elevação, ou se dedicam a typos de artefacto qualificado, empregando-se o tear de qua- tro lançadeiras, e n'esse caso os salários sobem desde 400 a 700 réis por dia.
Comtudo as casas que no Porto se consagram somente a obra d'esse género são apenas 4 ou 5 e não exploram em grande escala.
Quanto ás condições hygienicas, dos primei- ros já dissemos o sufficiente quando nos referimos á insalubridade da habitação; dos segundos, são quasi na totalidade installações velhíssimas em que a luz se poupava, e o ar se julgava prejudi- cial, quando em quantidade.
Estas más condições de hygiene notam-se tam- bém na quasi totalidade das ofncinas ou ateliers espalhados pela cidade, onde o acanhado do âmbi- to, o ar confinado e uma excessiva agglomeração de artifices, contribue para o depauperamento con- tinuo d'essas classes.
Figuram em primeira linha, como adiante ve- remos, os alfaiates, costureiras e sapateiros.
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M I S É R I A A L I M E N T A R . — A analyse summaria
que vimos fazendo das condições de vida do nos- so operário, leva-nos forçosamente a fazer algu- mas considerações, embora d u m a maneira muito geral, sobre o que é a sua alimentação, quer como quantidade quer como qualidade.
O operário come pouco; e come pouco, porque a exiguidade do seu salário não lhe permitte co- mer o sufficiente. Mas ha mais ainda. O operário também come mal, porque os géneros alimentares que é obrigado a consumir, são por via de regra da peior qualidade.
E' isto, sem duvida, uma banalidade milhares de vezes repetida, mas nem por isso deixa de ser uma verdade bem pungente.
A ninguém resta duvida de que o operário se não alimenta de molde a sustentar p árduo traba- lho que lhe é exigido. Todos conhecem de sobejo em que consiste essencialmente a sua alimentação quotidiana.
O pão entra n'ella por uma parte maxima. O resto é constituído quasi exclusivamente pelo que elle chama «mistura», metade arroz, metade feijão. A alimentação azotada é-lhe, por assim dizer, ve- dada.
Como compensar, pois, as perdas incessantes produzidas por 10 ou 12 horas de um trabalho sem tréguas ?
Em um estudo sobre o pão que se consome no Porto, que um antigo condiscípulo meu está ela- borando para complemento dos seus trabalhos es-
colares, vi eu que a média da percentagem de hu- midade apresentada pelas amostras da boroa (o pão do operário) por elle analysadas é de 50 %. Isto é, metade do alimento que toda a gente sup- põe dar força, é . . . agua, que o operário paga bem generosamente.
Consumindo um kilo d'esté pão diariamente e suppondo assim introduzir no seu estômago um bom alimento, o desgraçado ingere 500 grammas de agua, que juntas ao farello, cellulose e outras substancias não assimiláveis, diminuem em muito mais de metade o valor nutritivo do seu principal alimento. E isto quando o pão é feito com farinha! Que dizer então d'esse caldo sem adubo, d'esse insipido cosi mento de couves que com o pedaço de boroa constitue o almoço da maior parte dos operários e também a maior parte do jantar?
Que percentagem de materiaes nutritivos te- rão essas odiosas tigelladas?
Seria interessante e concludente sabel-o, mas não é preciso ter uma grande imaginação para bem se poder calcular a sua aterradora mesqui-
nhez.
Mas a fraude não se limita só ao pão. Todos os dias os géneros de largo consumo, taes como, leite, vinhos, azeites, etc., são fornecidos ao consu- midor em condições impróprias para a alimenta- ção, como bem o demonstram as analyses quoti- dianamente feitas nos laboratórios d'esta cidade.
Para o leite, por exemplo, a percentagem das adulterações é de 80 %.
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Como conseguir, pois, que n'estas deploráveis condições, o operário possa reparar as forças dis- pendidas no trabalho e ainda em cima adquirir a resistência precisa para luctar contra o agente da doença profusamente espalhada pelas suas mise- ráveis habitações?
Os resultados d'esté conjuncto de morbificas influencias seriam bem fáceis de presumir, sem que para isso tivéssemos de nos soccorrer de alga- rismos, que nos dessem a medida da extensão d'essa prodigiosa colheita que a tuberculose faz annualmente na população portuense.
O costume, porém, de illustrar numericamente assumptos d'esta natureza é hoje seguido por to- dos os que pretendem basear as suas considera- ções e conclusões que, por ventura, d'ahi possam derivar, sobre elementos de indiscutível valor.
E na realidade, nenhum processo mais com- modo se poderia encontrar, do que inserir a miúdo no decurso d'esses trabalhos, cifras, quadros, gra- phicos e outras miudesas, que se agrupam sob a designação simples e rápida de «Estatística » e que, dispensando-nos a leitura das, por vezes en- fadonhas, paginas que as acompanham, em pou- cos instantes nos poriam a par das intenções do seu author.
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cam as breves palavras que abrem a nossa dis- sertação, convencidos de que seria isso fácil tarefa e de alguma importância para regular desenvol- vimento do thema escolhido.
Depressa nos convencemos da dificuldade de realisar o nosso desideratum, em face da exiguida- de dos materiaes que pudemos haver á mão.
Os resultados a que chegamos serão pois ne- cessariamente falseados.
Para os obter tivemos de nos servir dos docu- mentos emanados das repartições, a cargo das quaes está o registo numérico das coisas de saúde e hygiene publicas, cuja organisação e boa ordem enfermam do mesmo mal que todos os restantes serviços de administração publica, como é do co- nhecimento de todos.
Assim, apenas poderemos annotar muito gros- seiramente os effeitos da acção devastadora da tuberculose no Porto, peccando certamente por omissão, mas nunca por excesso.
Os-dados estatísticos que apresentamos foram na sua quasi totalidade colhidos nos « Boletins mensaes de Estatistica Sanitaria » publicados pela
«Repartição Municipal de Saúde e Hygiene da cidade do Porto ».
As deficiências e causas d'erro com que de- frontamos a cada passo são bastante numerosas, como facilmente poderá avaliar aquelle que al- guma vez tiver necessidade de os compulsar.
São sobretudo dignos de nota : a falta de uni- formidade da nomenclatura nosographica, o que
torna impossível a organisação d u m a classifica ção regular.
Para este facto chamou o snr. Prof. Ricardo Jorge a attenção dos medicos da cidade, logo apoz a publicação do primeiro boletim, mas pas sados bastantes annos ainda as suas palavras não tinham encontrado echo condigno da sua importân cia.
■ Ainda para registar, as faltas que provêm d'uma lamentável indulgência d'alguns membros do corpo medico da cidade, que deviam guardar um pouco mais de decoro no cumprimento dos deveres' da sua profissão (1).
Terminando estas breves, mas justas, conside rações que nos suggeriu o serviço da estatistica sanitaria do Porto, vejamos como as cifras, apesar da pouquissima confiança que nos inspiram, vão ainda assim confirmar a opinião — já sufficiente mente fortalecida pelos resultados apurados no decorrer do precedente estudo sobre a etiolo
(') A propósito contounos ha dias um nosso amigo, co nhecedor dos hábitos e costumes do operário portuense, o se guinte: O operário muitas vezes para se furtar âs consequên cias d'uma desinfecção, pede ao medico da sua associação de soccorros—no que é geralmente attendido — para mencionar na respectiva papeleta uma causa différente da que causou a morte, no caso de doença infectuosa.
E apontounos em uma ilha visinha da sua habitação, uma casita em que tinham morrido successivamente tubercu losos, três membros da família, sem que uma só vez lá tives se entrado o serviço de desinfecção. Simplesmente lastimável !
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gia — , de que é o bacillo de Koch o mais pos- ** santé destruidor das forças vitaes da cidade.
MORTALIDADE.—As múltiplas influencias mor- tíferas, já apontadas, deviam reservar ao Porto um • logar destacado entre as cidades europeias, que mais desoladoramente se notabilisam pela sua elevadíssima cifra obituária.
E na verdade assim é. Se confrontarmos a sua mortalidade geral com a d'aquellas que em tal sentido se lhe possam equiparar, em três somen- te encontramos uma taxa obituária superior á sua: Bucharest, (31,2 °/00) Rouen (32,1) e Moscow
(35,8)-
Entre aquellas cuja população é proximamente