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CAPÍTULO V RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.2.3 Dimensão diagnóstica dos vínculos

5.2.3.1 Relato da história de vida de cada integrante

A facilitadora apresenta como tema disparador do processo grupal o conceito de vínculo que é uma construção de Pichon-Rivière (1985) que o apresenta suas diversas modalidades e propõe o processo de comunicação e aprendizagem como base da construção vincular. Na atividade desenvolvida cada integrante relatou sua trajetória com ênfase na caracterização da cidade onde nasceu e no processo de migração para a cidade onde trabalha (Eunápolis-Ba).

De uma maneira geral surgiram incômodos, dificuldades com o processo migratório, percepções de perda da família e dos recursos que a cidade natal oferecia, como expressa uma integrante do grupo:

Quando eu vim para Eunápolis eu não tinha ninguém e nem parentes nessa cidade, eu vim realmente contra vontade de meu pai e na loucura mesmo. Eu não tinha nada quando cheguei aqui e passei por uns momentos difíceis e (chorando) a gente começou a trabalhar e ficamos cinco meses sem receber o primeiro salário. (P2).

Ao relatarem esse processo algumas integrantes choraram o que denota o significado, a relevância desse fator, enquanto obstáculo no processo de integração e adaptação ao trabalho na cidade de Eunápolis. É importante destacar que uma integrante além dessa vivência de perda subjetiva da cidade natal vivenciou também perdas salariais ficando cinco meses sem receber o salário.

Após os relatos individuais, a facilitadora indaga sobre os vínculos e a comunicação no NASF, e o grupo responde com a análise da relação do NASF com as ESFs. O que provavelmente denota um processo de resistência em abordar os vínculos internos no próprio grupo. A despeito de considerarem que fazem esforços de comunicação como a criação de um grupo no “whatsapp” 23 com todos os

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Rede social que permite que usuários possam compartilhar mensagens de textos, vídeos imagens, e mensagens de mídia pelo celular. A grafia certa é "What's up", é uma expressão americana que seria o mesmo que O que há? E ai? Etc. É uma aplicação multiplataformas para smartphones. (DICIONÁRIO INFORMAL ONLINE, 2015).

enfermeiros para a comunicação interna e avaliam que os enfermeiros precisam ter mais iniciativa. A participante 8, comenta, “[...] Nós vamos muito até eles, normal, mas é preciso , também, que eles venham até nós[...]”.

Aqui temos outro fato novo enfrentado pelas integrantes do NASF, a cidade de Eunápolis, e como já vimos, anteriormente, a resistência à mudança que ocorre quando indivíduos ou grupos ao enfrentarem uma nova situação são mobilizados por medos, ansiedades e pela percepção de perda do conhecido (cidade natal, família) e a vivência de uma nova realidade de trabalho e de uma nova cidade.

Na análise da relação NASF/ESF, algumas percepções são recorrentes sobre a tarefa: a de que as ESF não compreendem a função dos NASFs e que não conseguem formular suas demandas para o NASF e ainda a percepção de que os enfermeiros da ESF acham que os integrantes do NASF trabalham pouco.

Emerge, também, que a reunião entre NASF e as ESFs, quando era semanal, promovia mais condição de escuta e agora que é mensal fica difícil por envolver muitos integrantes, tal como foi explicitado pela participante 2“[...] da última experiência que eu tive não foi nada produtiva, eu queria expor e ver a necessidade de como chegar realmente à meta que eu precisava. Eu saí de lá dizendo que prefiria trabalhar com pequenos grupos [...]”. Ao mesmo tempo em que surge a informação que já estão participando de reuniões na maioria das ESFs e há também a percepção que essa prática deve ser ampliada. E a participante 6, acrescenta: “[...] Trabalhar no que eles mais precisam que é a informação, trabalhar as questões deles mesmo de estresse, do vínculo entres eles, o NASF poderia ajudar nesse sentido. Isso ajudaria na nossa vinculação com eles. Estreitar mais esse vínculo”. Nesse estágio da espiral dialética pichoniana24 o tema das demandas das ESFs retorna, é recorrente, mas com uma novidade que é a identificação de serviços a

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Para Pichon-Rivière (1991) o processo de aprendizagem e mudança se dá em uma espiral dialética relativa aos momentos do grupo, ou seja, diante de um conteúdo que emerge a partir da interpretação e compreensão do significado é possível ocorrer um avanço qualitativo no conhecimento produzido ou não, pode também acontecer um bloqueio, ou um conflito paralisante do processo de aprendizagem. A espiral dialética abrange o todo do processo grupal, em todas as suas dimensões como um movimento constante entre processos psíquicos internos e a construção coletiva do conhecimento, dos caminhos da superação, da formulação do projeto de mudança.

oferecer a partir da leitura das necessidades apontadas pelos profissionais das ESFs como o fornecer a informação requerida, o trabalho para reduzir o estresse e fortalecer o vínculo. Por outro lado, foi mais fácil identificar a necessidade de trabalhar o vínculo no outro grupo do que no próprio. Esse é um processo comum no desenvolvimento vincular, as necessidades de melhoria estão no outro e não no meu comportamento. (LEMOS, 2010). A ideia de responder às ESFs trazendo a informação que eles necessitam é mencionada em diversos momentos do processo, entretanto, nem o grupo nem a facilitadora buscaram explicitar de que tipo de informação se tratava. Esse é um aspecto do processo de comunicação nos grupos que, segundo Manigot (1992) deve ser observado pelo facilitador, pois há uma tendência dos grupos a trabalharem com informações vagas e uma das funções do facilitador é clarear a comunicação.

No âmbito da relação entre os NASFs emergiu a figura da coordenação municipal do NASF como importante elo entre os dois grupos, como explicita a participante 1“[...] No processo de comunicação, NASF e NASF a comunicação flui, facilitada pela coordenação e o Whatsapp que ajuda muito [...]” e a participante 8 completa: “[...] nas reuniões entre os NASFs ela passa como foi, ela passa quais foram os interesses comuns, a gente estuda muito e isso ajuda na comunicação [...]”. O NASF Juca Rosa é visto com possuindo um “[...] bom vínculo, e o trabalho flui bem [...]” conclui a participante 7.

Surge o comentário que existe o vínculo entre os NASFs, mas que precisa ser fortalecido, que uma reunião mensal não é suficiente para o processo de vinculação e que quando programam encontros extratrabalho, a maioria das integrantes dos NASFs não participa. Consideram também que os diferentes regimes de trabalho (20, 30 horas, tempo integral) dificultam o estabelecimento desses vínculos.

É possível que o conceito de vínculo esteja sendo confundido com o de amizade, quando o que está sendo abordado é o vínculo no papel profissional em relação à tarefa grupal. Muito embora os vínculos extratrabalho tenham uma contribuição importante, não são centrais. (LEMOS, 2010).

A facilitadora utilizou a estratégia de estimular o processo de vinculação interna no grupo por meio da reflexão sobre as vivências e valores comuns desenvolvidos nas trajetórias individuais, no sentido de usá-los em benefício da articulação grupal no NASF. Ela explicita:

O que seria capaz de unir vocês? O que seria convocante para vocês? Por que é importante conhecer a necessidade de cada um, o que circula entre nós. Entre valores e práticas o que podem ser estimuladores do processo de interação? Vocês costumam saber como a outra está se sentindo quando está há quatro meses sem receber o salário? Vou chamar esse espaço de cultura, o espaço onde nasçam práticas, valores que podem ser compartilhados. Parece que o espaço é trabalho. O que o trabalho provoca em vocês? O que é trabalhar na comunidade? E nós que estamos aqui nesse mundo, quais são as nossas crenças, nossas práticas, nossos valores e como é entrar no mundo que não é o meu? (FACILITADORA DA OFICINA).

São várias perguntas que são dirigidas aos integrantes na tentativa de mostrar que os valores individuais podem servir para articular a equipe dentro e fora do trabalho. Trata-se de uma intervenção que se baseia nas histórias de vida dos integrantes onde a maioria se envolveu com experiências comunitárias e onde houve uma identificação e aprendizado. A facilitadora busca estimular o grupo a usar essas experiências no processo de vinculação no trabalho, pois se configuram como um traço comum de articulação. Entretanto não houve ressonância não foi possível para o grupo aproveitar essa intervenção a seu favor. Entretanto resulta na explicitação das dificuldades internas de comunicação e relacionamento.

É a participante 7, que desvenda o que ocorre em termos dos vínculos :

Agora vem o NASF. Estão misturados os pontos negativos e pontos positivos. Há muito ruído na comunicação, distorção e interpretação. Hostilidade, ou seja, reações, aquelas coisas assim "você chegou atrasado! Você tem alguma coisa contra mim?" Faltam compromissos, assertividade e compreensão por parte de algumas pessoas. No Juca Rosa existem alguns ruídos, mas a assertividade funciona, há entendimento. E acrescenta, no NASF Pequi, profissionais não sabem falar e não sabem ouvir, falta de união entre os colegas e a rotatividade entre os profissionais ainda é maior. A gente falou sobre isso, de pessoas saírem e entrarem, o NASF Juca Rosa não tem tanta rotatividade. (P 7 ).

O processo grupal de diagnose dos vínculos vai configurando uma dupla dinâmica de competição: entre os dois NASFs, simbolizadas pela percepção da existência de

um “grupo bom” e de um “grupo mau”, como também na relação NASFs/ESFs, a partir da dinâmica “Nós/eles” como fica explícito na fala da participante 1:

Na relação NASF/ESF, muitas equipes de SF nem querem criar o vinculo com o NASF. A unidade de saúde não entende qual o nosso papel, não sabe ouvir e não quer ouvir. Eles acham que o NASF vai dar mais trabalho e dizem que se não quiserem convidar o NASF, não convidam mesmo. Eles falam assim: "Voces estão cobrando muito".(P 1).

No que diz respeito à competição entre os NASFs, o grupo busca uma explicação em termos da rotatividade do Pequi que é maior do que a do Juca Rosa, como relata a integrante a seguir:

No ano passado o NASF Pequi sofreu um grande abalo, porque a gente estava começando e a farmacêutica juntamente com a nutricionista foram demitidas. Ficamos deslocadas, em choque. Ficaram três profissionais: a fisioterapeuta que possui carga horária de 20 horas e duas profissionais de 40 horas (eu e a assistente social). Somente em janeiro 2014, as meninas voltaram. Então assim é complicado, é difícil. Eu passo pelo terror sempre! (P 9).

Em relação a essa situação de demissões e rotatividade o grupo revela sentimentos de insegurança, indiferença e desmotivação. A facilitadora indica que esses sentimentos são variáveis que quebram o vínculo embora, ao mesmo tempo, a explicitação e o diálogo sobre essas dificuldades podem fortalecê-las. A fragilização vincular no interior dos grupos dos NASF acumula diversas variáveis que podem ser relacionadas a uma superposição de dimensões determinantes da precarização da organização do trabalho, ou seja:

 Contrato de trabalho temporário gerando demissões, alta rotatividade e competição entre as equipes do NASF e das ESFs por serem esses últimos concursados;

 Implementação do modelo NASF sem a capacitação requerida e inicialmente sem coordenação;

 Recrutamento de profissionais com pouca experiência anterior na saúde coletiva;

 Inexistência por parte da gestão de atividades de preparação das equipes, de sensibilização das equipes de saúde da família para receber os NASFs;

 Inexistência de um processo de familiarização dos componentes do NASF na cidade de Eunápolis tendo em vista as dificuldades do processo migratório e

 Descontinuidade do recebimento do salário.

Jorge et al (2007) enfatizam que as políticas de saúde no Brasil na área da gestão de recursos humanos tem sido negligenciadas, verificando-se a precarização do trabalho, caracterizada pela ausência dos direitos trabalhistas e de proteção social, pela inserção de trabalhadores com baixa qualificação profissional, além de condições de trabalho não satisfatórias, viabilizadas pelas modalidades de contratação de pessoal com formas e vínculos não estáveis com o Estado, formas diferenciadas de remuneração, ausência de uma política de educação permanente no trabalho, entre outras. Neste contexto, a saúde vive hoje uma estrutura de trabalho geradora de muitos conflitos em função da convivência de diversos vínculos contratuais no mesmo ambiente de trabalho, o que dificulta muito o desenvolvimento coletivo da tarefa.

Entretanto, a possibilidade de explicitação dessas dificuldades enfrentadas, e da consequente fragilização de vínculos e do próprio eu, faz com que o grupo valorize a experiência da oficina e a condução da facilitadora enquanto o espaço que gerou as condições adequadas para a análise coletiva das dificuldades, do se ver e ver ao outro como podemos constatar na fala seguinte:

Voce falou que era importante falar a minha impressão e ouvir a do outro. E se observar isso é muito interessante, nem sempre a gente faz isso. É mais facil observar outro do que observar a si mesmo. Vou falar com a coordenadora para pedir sua vinda mais vezes.(P 6).

Essa fala já denota um ponto de inflexão onde já é possível para o grupo iniciar um outro movimento o de se ver, ao mesmo tempo em que vê o outro. Essa é uma atitude fundamental de promoção do crescimento individual e relacional no processo dos grupos operativos, básico na construção de vínculos estruturantes. (LEMOS,2010). O texto “ O diálogo” de Paulo Freire (ANEXO F), apresentado pela facilitadora, consolida essa etapa quando propõe como ideia central que é na palavra que se faz o homem.