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CAPÍTULO 2 – Traçado metodológico

2.2 Metodologia

2.2.2 Entrevista em profundidade

2.2.2.1. Relato da professora

As entrevistas são extremamente importantes quando objetiva-se mapear práticas. Nesse caso, quando bem realizadas, permitem ao pesquisador uma experiência de imersão na realidade que deseja pesquisar e, possibilita o levantamento de questões pertinentes que viabilizará o entendimento da lógica e das relações estabelecidas pelo grupo entrevistado.

Existe uma discussão no que se refere ao uso de entrevistas, pois há uma percepção corrente entre nós de que a entrevista é um instrumento fácil, principalmente quando comparado a outros métodos mais sofisticados, porém isso não é verídico. Como nos assinala Duarte (2004)

Cabe assinalar, então, que entrevista é trabalho, não bate-papo informal ou conversa de cozinha. Realizar entrevistas de forma adequada e rigorosa não é mais simples do que lançar mão de qualquer outro recurso destinado a coletar informações no campo:

49 talvez elas tomem menos tempo na fase preparatória do que a elaboração de questionários ou ckecklistspor exemplo, mas para serem realizadas de modo a que forneçam material empírico rico e denso o suficiente para ser tomado como fonte de investigação, demandam preparo teórico e competência técnica por parte do pesquisador (DUARTE, 2004, p. 215).

De acordo com Duarte (2004) para a execução de uma boa entrevista é necessário a) ter bem definido o objetivo da pesquisa; b) que o pesquisador conheça o contexto que pretende realizar a pesquisa; c) a introjeção por parte do entrevistador do roteiro de entrevista; d) segurança e autoconfiança; e) informalidade sem perder o foco nos objetivos da pesquisa.

Pensando nas palavras de Duarte (2004) para a realização de uma boa entrevista, buscamos inspiração em uma entrevista semiestruturada, em que se pede que o entrevistado fale livremente sobre um tema. Nesse caso especificamente, o que trouxe o tom necessário de informalidade e segurança ao mesmo tempo, foram as fotos usadas como estímulo para o resgate de memórias docentes.

A autora fala ainda, sobre o ato de analisar as entrevistas que é um momento que exige atenção e cuidado por parte do entrevistador, principalmente para não olhar para o material colhido, em busca de confirmar suas próprias hipóteses. Nesse momento, destaca a importância dos programas de Pós-Graduação destinados à formação de pesquisadores, ensinarem a fazer e analisar entrevistas articulando pesquisadores em formação e pesquisadores experientes. Assim, a entrevista realizada para a obtenção de dados empíricos para o presente trabalho, foi transcrita pela autora e sua análise foi realizada com a participação da orientadora do trabalho.

Ainda de acordo com Duarte (2004) há um “mito” comum relacionado às entrevistas que precisa ser superado. É comum associarem o uso de entrevistas ao objetivo de “dar voz” a comunidades silenciadas. Segundo a autora essa é uma ideia enganosa, pois por mais engajado e sensível que possa ser o pesquisador é ele quem idealiza e conduz o trabalho científico. Ainda que o pesquisador se envolva com o ambiente de sua pesquisa, ele não tem o mesmo papel que o de seus informantes. O que se espera ao final do trabalho que utilizou como metodologia de pesquisa a entrevista é uma polifonia, já que o seu resultado será fruto de várias vozes.

Assumir o papel de autor da pesquisa não é o mesmo que desqualificar os informantes ou a importância do olhar deles para o contexto estudado significa apenas,

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que o pesquisador não deve perder o foco dos objetivos da pesquisa. As contribuições do informante serão o ponto de partida (DUARTE, 2004).

Outra questão levantada pela autora é o fato de ser um equívoco pensar que tudo que é dito pelo entrevistado precisa ser objeto de análise. A ideia é tomar como objeto de leitura tudo aquilo que nossos informantes nos oferecerem que esteja diretamente associado à nossa pesquisa. Desse modo, selecionamos nas falas da professora, aspectos que fossem relevantes para a construção do escopo empírico em consonância com os referenciais teóricos da presente pesquisa.

Segundo Duarte (2004) a confiabilidade das pesquisas está na transparência com relação aos procedimentos adotados na coleta de material empírico, a literatura científica, o objeto de pesquisa e os resultados obtidos. Para isso, ela defende que sempre haja as seguintes informações nas pesquisas:

a) as razões pelas quais optou-se pelo uso daquele instrumento; b) os critérios utilizados para a seleção dos entrevistados; c) número de informantes; d) quadro descritivo do informantes – sexo, idade, profissão, escolaridade, posição social no universo investigado etc. e) como se deram as situações de contato (como os entrevistados foram convidados a dar seu depoimento, em que circunstâncias as entrevistas foram realizadas, como transcorreram etc. f) roteiro de entrevista (de preferência em anexo) e, g) procedimentos de análise (anexando, no final do texto ou relatório, cópia de uma das transcrições - desde que não haja necessidade de preservar a identidade do informante (DUARTE, 2004, p.219).

De acordo com Duarte (2004) o momento da entrevista é rico em aprendizado para ambas as partes. Para o pesquisador vai fornecer a empiria e a aproximação e contextualização com o objeto de estudo; para o entrevistado oferece a possibilidade de refletir sobre si mesmo, de refazer o seu próprio percurso biográfico, de pensar sobre sua cultura, seus valores etc.

Fornecendo-nos matéria-prima para nossas pesquisas, nossos informantes estão também refletindo sobre suas próprias vidas e dando um novo sentido a elas. Avaliando seu meio social, ele estará se auto-avaliando, se auto-afirmando perante sua comunidade e perante a sociedade, legitimando-se como interlocutor e refletindo sobre questões em torno das quais talvez não se detivesse em outras circunstâncias (DUARTE, 2004, p.220).

É importante destacar um momento crucial das entrevistas que é a transcrição. A autora nos chama a atenção para que esse processo seja realizado ainda no dia da entrevista e, de preferência, pelo próprio entrevistador. Depois de transcrita, ainda deve

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ser conferida para ter certeza de que a entrevista realizada foi fidedignamente transcrita. Assim, destaco que os registros das conversas, tanto do grupo focal quanto a da entrevista que foi posteriormente realizada individualmente com uma das professoras participantes do grupo, foram transcritas pela própria pesquisadora, sem a utilização de qualquer tipo de recurso.

A entrevista com a professora 3 foi realizada na UMEI onde trabalha em um momento oportunizado pela gestão da unidade. O espaço utilizado foi a própria sala de aula da docente. Essa entrevista aconteceu no dia 06 de novembro de 2019 às 14:30. A entrevista foi realizada baseada no relato da professora que se deu a partir das fotos guardadas como registro de seu trabalho. À medida que a professora me mostrava as fotos das atividades, me contava como tudo tinha acontecido.

A intenção nesta etapa foi buscar, nos materiais produzidos pela UMEI, registros e memórias das práticas docentes. Os registros de experiências vividos possibilitam analisar e descrever o cotidiano de uma sala de aula ou escola. Olhar para esses registros e refletir sobre eles, é crucial para o desenvolvimento de uma prática pedagógica consistente e significativa.

A UMEI selecionada para o desenvolvimento da pesquisa possui portfólios onde guarda os registros das atividades e projetos desenvolvidos com as turmas. Logo, articular essas fotos às memórias da professora que as vivenciou, foi uma rica fonte a ser explorada no que tange à prática docente.

Buscamos nesses portfólios imagens dos projetos desenvolvidos na escola que recorreram as temáticas das Ciências Naturais como fonte de produção de conhecimento e que valorizaram o contato das crianças com a natureza com o intuito de ajudar a aguçar a memória da professora envolvida e assim extrair relatos para a produção de um material de qualidade a ser usado na pesquisa.

Abordamos as narrativas docentes porque nosso objetivo é conhecer os sentidos e as formas como estas professoras lidam com conceitos das Ciências Naturais e com a relação criança-natureza na Educação Infantil assim, recorremos a técnica da história oral, não com o intuito de produzir uma pesquisa histórica, mas sim, de capturar os sentidos subjetivos e por isso, valorizamos a narrativa, a experiência e a memória das professoras.

Ao entendermos o conceito de narrativa como discursos com uma ordem sequencial clara que liga acontecimentos de modo significativo para um determinado

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público e que assim oferece vislumbres do mundo e/ou das experiências que as pessoas têm dele (Apud Gill; Goodson, 2015). E ainda, o conceito de histórias de vida que é uma compilação de experiência vivida de um indivíduo ou grupos no passado e no presente que é analisada por pesquisadores que depois situam os relatos da narrativa dentro dos sociais, políticos, econômicos e históricos onde essas experiências tiveram lugar (Apud Gill; Goodson, 2015). É possível compreender o objetivo da história de vida que, segundo o autor, é compreender a interação entre a mudança social e a ação de indivíduos e grupos (GILL; GOODSON, 2105).

Apesar de ter o esclarecimento da complexidade do trabalho do referido autor, e embora o foco do presente trabalho não seja história do currículo ou a trajetória profissional docente, encontro na pesquisa do Goodson (2015) inspiração metodológica no que se refere a produção de narrativas e memórias docentes, já que através da narrativa das memórias da professora busco investigar como, na prática, vão produzindo saberes e estratégias que favoreçam o desenvolvimento da relação criança-natureza na Educação Infantil. Em outras palavras, eu investigo a produção social do currículo da perspectiva dos atores sociais.

Além da produção de material empírico para a pesquisa, revisitar esses momentos e refletir sobre o trabalho realizado pela professora abarca um entrelaçamento de saberes que, dentro das discussões vão ganhando significado e proporcionando aos envolvidos a formação de sua identidade como profissional.

A escolha por revisitar esses projetos deve-se ao fato de ser uma proposta pedagógica concebida e produzida pela profissional que atua na referida escola e, portanto, valoriza a autonomia docente.

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