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3. A inspiração etnográfica como forma de aproximação e conhecimento do campo de

3.3. Relato de vida e as contribuições do campo

Outra escolha metodológica para essa pesquisa foi o uso dos relatos de vida como forma de entender a criação e organização da VTS Crew. Para o autor, deve haver uma

97 paixão do sociólogo pelo objeto de pesquisa, já que Bertaux (1989) considera isso como “o motor do descobrimento”.

Bertaux (1989) defende que a forma como a história de vida é coletada irá influenciar no uso que ela terá. “No entanto, não é desinteressante saber que o modo como as histórias de vida serão coletadas antecipa seu uso subsequente”50 (BERTAUX, 1989, p. 136, tradução

nossa). Além disso, o autor reflete sobre os rumos que essas histórias de vida podem ter ao serem contadas, já que muitas vezes não depende do narrador, mas do “narratário” em que essa história está inserida, sendo suscetível a interpretações de acordo com a forma como a entrevista foi feita, como a história será escrita e quem irá lê-la, por exemplo. “O texto que se segue é apenas o primeiro passo de uma reflexão aberta sobre as diferentes formas que as histórias de vida podem tomar: formas que não dependem do narrador, mas do ‘narratario’, da pessoa para quem a história é feita, de sua demanda (que, explicitamente ou não, é rapidamente percebida, segundo o relato de acordo com ela), de sua espera, de sua atenção: do contrato implícito que já contém o primeiro contato”51(BERTAUX, 1989, p. 137, tradução nossa). Com isso, Bertaux (1989) observa as funções existentes entre o pesquisador e o pesquisado (sujeito da pesquisa), sendo importante um equilíbrio entre eles. Nesse caso, o autor destaca que o investigador, além de escutar, deve contextualizar e explicitar o conteúdo dito pelo pesquisado.

Bertaux (1989) aponta as três fases que uma pesquisa teria: a fase exploratória, a fase analítica e a fase sintética. Cada uma delas possui funções distintas em que se colhe os dados, se analisa e interpreta e apresenta as possíveis conclusões. A abordagem que será dada em cada fase irá depender do pesquisador, de como essas informações serão colocadas e explicadas ao leitor, podendo ser uma abordagem biográfica ou autobiográfica.

Para entender e organizar os fatos sobre a VTS Crew, desde sua criação ao seu desenvolvimento como grupo de grafiteiros, realizamos entrevistas de novembro de 2018 até abril de 2020. As entrevistas, muitas vezes, ocorreram como conversas com os grafiteiros que possuíram diferentes temáticas, dentre elas: a criação da crew em 2005, os principais murais que já fizeram, o projeto Negras Raízes e a criação da loja Life Style Graffiti Shop.

50 “Sin embargo no carece de interés saber que el modo en que se van a recoger los relatos de vida anticipa su utilización ulterior” (BERTAUX, 1989, p. 136)

51 “El texto que sigue no es más que el primer paso de una reflexión abierta en tomo a las diversas formas que pueden tomar los relatos de vida: formas que no dependen del narrador sino del “narratario”, de la persona para quien se hace el relato, de su demanda (que, explícita o no, es rápidamente percibida, conformándose el relato de acuerdo con ella), de su espera, de su atención: del contrato implícito que encierra ya el primer contacto. El texto propone distinguir tres funciones de los relatos de vida en el proceso de investigación” (BERTAUX, 1989, p. 137)

98 Inicialmente, o relato de vida contribui para o pesquisador iniciar em campo, conhecer esse novo espaço e saber quais linhas de força que ele possui a partir daquela história de vida, sustentar uma teoria (para isso há a necessidade de várias histórias de vida) e utilizar a escrita sociológica para transmitir uma mensagem (BERTAUX, 1989). Conforme Bertaux (1989), a função exploratória é uma boa forma de se adentrar no campo para se perceber os aspectos estruturais e eixos centrais que envolvem o objeto de pesquisa. O autor revela a atenção para o pesquisador centralizar seu foco em algum aspecto que mereça um estudo mais aprofundado sobre o que os pesquisados relatam de suas histórias de vida e os desdobramentos que poderão ser relevantes para a pesquisa.

A perspectiva exploratória se nutre nela mesma, já que de tempos em tempos ela deve ser reorientada para as primeiras descobertas e os eixos centrais da pesquisa, as linhas de força que possuem e os nós do campo. Por ser o estágio inicial da pesquisa, o autor revela que os relatos de vida nessa fase podem não ser utilizados na pesquisa por ser “um discurso cortado pelas perguntas do entrevistador”52 (BERTAUX, 1989, p.137, tradução nossa), mas os primeiros entrevistados passam a ser os informantes centrais dela. Com o tempo de relacionamento entre pesquisador e pesquisado, o entrevistador vai compreendendo o campo (suas linhas de força e questões) e assim passa a assimilar melhor as questões colocadas pelos entrevistados.

Nesse período de novembro de 2018 até abril de 2020 Tubarão, Mils, Edi, Vivi, Ane e Baga foram fundamentais na construção e na compreensão que passamos a ter na investigação da VTS Crew. Para realizar a pesquisa, esses sujeitos foram acompanhados na realização de graffitis em Fortaleza, Região Metropolitana e em outros estados, como o evento Graffiti Queens, em julho de 2019, realizado em São Paulo. Nesse evento, viajamos com a grafiteira Vivi, para acompanha-la no processo desse encontro, conforme apresentamos dados da observação no primeiro capítulo.

Conforme Bertaux (1989), a segunda função que orienta a pesquisa é a função analítica, que tem um objetivo maior na análise do que na busca de explorar o campo como na função exploratória. Esse é o momento de comparar os fenômenos, esboçar as ideias e elaboração de hipóteses sobre o campo, ou seja, o momento de consolidação empírica para assim haver a construção de uma teoria.

Isso inclui dois “momentos” que muitas vezes se sobrepõem parcialmente: o momento da comparação dos fenômenos, do esboço da tipologia, da passagem de “idéias” para hipóteses, em resumo da construção de uma “teoria” que é, de uma representação mental do que acontece na “realidade social” (o referente): e o 52“ [...] es un discurso cortado por las preguntas del entrevistador [...]” (BERTAUX, 1989, p.137)

99 momento da verificação, ou melhor, da consolidação empírica das proposições descritivas e das interpretações avançadas. (BERTAUX, 1989, p. 140, 141, tradução nossa)53

O autor alerta sobre a importância da teorização, que é um processo que ocorre durante a pesquisa, já que ela deve envolver o contato com o campo. “Esse processo de construção, é nutrido tanto pela vitalidade intelectual dos pesquisadores, quanto pelas observações - feitas, na medida do possível, pessoalmente: não há nada para substituir o contato” (BERTAUX, 1989, p.142, tradução nossa)54. As repetições das ações feitas pelos

entrevistados em campo contribuem e são essenciais para a elaboração da teorização. Esse processo de observação deve ser feito partir do observador, de observações presenciais e de suas repetições em campo. Percebemos que os integrantes da VTS Crew possuem, na maioria das vezes, o mesmo “modus operandi” quando vão pintar em conjunto, todos decidem as cores dos sprays ou informam uns aos outros quais cores irão utilizar em determinado

graffiti, há uma conversa e um “acordo” de o que cada um fará naquela produção, que os

papéis se modificam de produção para produção.

Mostrar a solidez de cada voz também é algo importante na função sintética, explicada por Bertaux (1989), já que para ele a pesquisa enriquece e contribui, se casos considerados negativos forem colocados em destaque a fim de serem comparados com os outros e nos fazerem chegar a conclusões do que podem ser modificados e melhorados em determinados aspectos sociais.

No caso da VTS Crew, o grupo possui um certo destaque no graffiti em Fortaleza, já que é uma das crews pioneiras da cidade, compõem o cenário das crews e cada membro desenvolve atividades diversas, que podem ir além do coletivo do grupo. Entretanto, tudo é tratado e decidido coletivamente, segundo os membros. Percebemos que isso de fato ocorre, pois mensagens trocadas com Tubarão sobre uma determinada informação, antes contarmos para Vivi, ela já sabia do conteúdo e nos informou o que foi decidido entre o grupo, por exemplo. Uma questão a se refletir em termos de limitações que o grupo enfrenta, que percebemos na equipe, é que, mesmo sendo um grupo organizado com tarefas separadas para cada um, há falhas na comunicação deles para com um público maior nas redes sociais, já que

53 “Ello comprende dos “momentos” que a menudo se solapan parcialmente.: el momento de la comparación de los fenómenos, del esbozo de tipologías, del paso de “ideas” a hipótesis, en resumen de la construcción de una “teoría” es decir, de una representación mental de lo que ocurre en la “realidad social” (el referente): y el momento de la verificación, o más bien de la consolidación empírica de las proposiciones descriptivas y de las interpretaciones avanzadas” (BERTAUX, 1989, p. 140, 141)

54“Este proceso de construcción se nutre a la vez de la vitalidad intelectual de los investigadores y de observaciones –hechas, en la medida de lo posible, personalmente: no hay nada que reemplace el contacto” (BERTAUX, 1989, p.142)

100 os alcances, curtidas e comentários não são altos. Com nossa aproximação do grupo, temos tentado encontrar soluções simples para essas questões serem resolvidas. Por exemplo: postar os trabalhos antigos desenvolvidos pela crew e deixar registrado na rede social Instagram. Essa rede da crew foi criada apenas em 2016, por isso não há trabalhos mais antigos. Sugerimos a criação do #tbt, onde as quintas-feiras, eles postariam fotos antigas de determinados eventos que o grupo organizou e colocariam nos destaques da crew, deixando registrado na rede social os trabalhos já feitos e movimentando a rede com informações e processos vividos pelo grupo. Sabemos que esse problema de não obter muita visibilidade na rede, não é um problema exclusivo da VTS Crew, pois a rede é um espaço de poder, muitas vezes dominado por grupos hegemônicos. Entretanto, isso não significa que o grupo não possa buscar estratégias para se inserir com maio visibilidade possível.

Por último, Bertaux (1989) destaca a função expressiva que é a forma como se expressa através da escrita (dita muitas vezes no texto como escrita sociológica). Referenciando-se a C. Wright Mills e Bamey Glaser, que sugerem que ao longo da pesquisa sejam feitas pequenas fichas, resumos com observações e ideias sobre o campo que possam contribuir para a escrita e assim poder realizá-la por associação. “É também o mesmo método que eles propõem para alcançá-lo ao longo da investigação: escrever cartões, resumos; um por ideia, ou observação que reverte para uma hipótese; re-olhar para eles de vez em quando, reclassificá-los pela associação” (BERTAUX, 1989, p 144, tradução nossa).55

Percebemos aqui está num cruzamento entre a escrita etnográfica e a escrita sociológica. Isso é resultado da triangulação das estratégias metodológicas, porem tentamos deixar as duas se fundirem entre descrição e reflexões.