CAPÍTULO II A PESQUISA NO DELTA DO PARNAÍBA
2.4 RELATO DO CONTEXTO DA PESQUISA DA CHEGADA À PARTIDA DA ILHA DAS
Do Porto dos Tatus, a bordo de um barco a motor, percorremos56 os caminhos do delta até chegarmos à ilha da Barreira. Lá, encontramos Anchieta que se dirigiu conosco a casa de Bete e Paulo, conhecido como o “Paulão do Passarinho”, seu sogro, onde fui recebida por toda a família57. Ainda na varanda da casa expliquei sobre a minha estada na localidade, os objetivos da pesquisa, a necessidade de fazer entrevistas com os moradores e também a indicação recebida de Fabio Ferreira – que pareceu ser uma figura bastante querida desta família. A hospitalidade foi imediata com a observação: “A casa é sua”. Na ocasião uma foto guardada de nossa equipe do Programa MPE (2002), tirada naquela mesma varanda e deixada pra eles, de recordação em 2002, foi trazida e mostrada a mim para resgatarmos a lembrança de minha passagem no povoado, passados três anos.
Enquanto conversávamos sobre a viagem, o trabalho de Juliana com as rendeiras do Morro da Mariana, a ausência do Fabio, que fora estudar no Canadá, entre outros assuntos, Bete se dirigiu à parte de trás da casa para matar uma pata para o nosso jantar58. Já no interior da casa, deixei na cozinha algumas compras de mantimentos feitas no mercado em Parnaíba e esclareci sobre a minha disponibilidade em contribuir com as despesas. Com relação à acomodação, esclareci também que eu havia trazido a minha “casa”, ou seja, uma barraca de camping, que tinha a intenção de montar em algum lugar do quintal. Bete rejeitou esta idéia dizendo que ela não iria me deixar dormir do lado de fora da casa. Expliquei que para mim
55 Fabio Ferreira era, na ocasião da pesquisa, conhecido por muitos moradores como o dono da Barreira, a ilha
que pertence a sua família por herança de seu pai. Nesta ilha, vizinha ao povoado do Passarinho, Fabio mantinha como caseiros o casal Paula e Anchieta.
56 Eu, Léo (o barqueiro, morador do Porto dos Tatus e Juliana, uma amiga de Teresina que me acompanhou no
primeiro dia de campo para fazer registros fotográficos da paisagem da região.
57 Ver lista de entrevistados (Anexo 01) – membros da família que me hospedou no povoado do Passarinho. . 58 Posteriormente percebi que este ato acontece em ocasiões especiais, ou em último caso quando não há uma
não era nenhum incomodo e que eu tinha este costume quando viajava para outros lugares. Como era a primeira vez que eu montava aquela barraca, pedi ajuda e também a orientação sobre onde armá-la. Junto ao pé de ata, montamos em 5 minutos e todos pareciam surpresos e encantados. Depois da arrumação que fiz em seu interior, Bete ficou convencida de que eu podia então permanecer ali, apesar de ainda achar esquisito59.
A curiosidade dos homens da casa (em especial, Paulo e seu filho Adalto) era com relação à possibilidade de fincá-la na areia (dunas) e sua resistência ao vento forte – imaginando uma alternativa de abrigo em dias de pescaria longe de casa, uma associação com o que costumam realizar – o rancho. Dona Vidoca, a mãe de criação de Bete, parecia da mesma forma muito surpresa. Disse a ela que seríamos “vizinhas” e assim ela passou a me chamar – de “vizinha” por alguns dias. No dia seguinte, todos estavam igualmente curiosos para saber como havia passado a noite. Muito bem e feliz de estar iniciando o trabalho de campo. Esta barraca serviu para as horas de descanso durante toda a estadia no povoado.
O neto de Bete, filho de Paula e Anchieta, nos primeiros dias só sabia se referir a mim como “a muié” – impessoalidade esta que pode ser estendia a todos aqueles do povoado que me avistavam, mais ainda não me conheciam ou sabiam meus objetivos na localidade – o que durou pouco tempo, uma vez que a difusão de informações é relativamente instantânea (especialmente dormindo numa “barraca de camping” desconhecida pela maioria dos moradores deste povoado). Em pouco tempo – a maioria dos moradores já sabiam que tinha uma pessoa de fora fazendo pesquisa/entrevista por ali60 .
Minha chegada no povoado, assim como a minha hospedagem na casa de Bete e Paulo foram marcadas por uma grande hospitalidade, atenção e troca de experiências61 . O primeiro prato da refeição, o lugar a cabeceira da mesa62 , a utilização do garfo, que me foi oferecido,
marcaram um modo de me tratarem que perdurou por toda a minha estada63 . Aos poucos fui ficando mais a vontade para me colocar, interagir e observar os acontecimentos ao redor dos quais eu fazia parte.
As primeiras entrevistas foram realizadas com os membros da própria casa onde fiquei hospedada. A partir das primeiras conversas informais pude ir dimensionando o universo de entrevistados. Decidi não usar gravador de imediato e reservei os primeiros dias para andanças pelo Passarinho. No domingo fomos à igreja, passamos pelo jogo de futebol e visitamos o filho de Bete, que acabara de construir sua própria casa, com ajuda dos pais, para que pudesse morar com sua companheira, grávida de seis meses. Passamos também na casa da sogra deste – num tempo necessário para o reconhecimento do lugar, o observar e deixar ser observada64. A cada pessoa que encontrávamos no ir e vir pelos caminhos do povoado, Bete ia me apresentando (ou não) as pessoas, ou deixava para me transmitir quem era a pessoa
59 Alguns antropólogos consideram que aceitar o convite para dormir na casa é uma abertura para a o
estabelecimento do aporte para a pesquisa. No entanto, optei por resguardar alguma privacidade para meu descanso e meus apontamentos e preferi me estabelecer na barraca no quintal.
60 Comentários adicionais também eram manifestados junto à manifestação do conhecimento de minha presença,
mesmo entre aqueles que ainda não haviam me visto. “Eu já tinha ouvido falar que você estava por aqui e era bonita, do Rio de janeiro – mas ainda não tinha visto – agora você chegou”, relatou uma moradora.
61 Paulo, marido de Bete, não se cansava de querer conversar.
62 Este aspecto foi possível notar quando o professor da escola veio fazer a refeição conosco e Bete o designou
para sentar-se à cabeceira da mesa, como local para os que merecem atenção especial.
63 No decorrer do período, embora Bete quisesse me poupar de participação das tarefas do cotidiano (lavar roupa,
pegar água da cacimba, lavar louça, fazer comida, catar sururu no mangue, etc), acabei me integrando a elas, mantendo uma postura de acolhimento a toda atenção prestada.
64 Durante esta visita na casa dos sogros de (JP, xx anos) havia algumas pessoas do povoado assistindo uma
gravação em DVD da banda Calypso e de uma banda de forró no Sítio do Nena (Parnaíba). Entre elas, uma moradora, que fui apresentada e posteriormente entrevistei, me fez algumas afirmações em tom de perguntas que vale a pena deixar registrado: “Você é dos Morros?”, respondi: “Não do, Rio de Janeiro”; na seqüência: “Veio ver o Delta”, “Você têm filhos?”, “É solteirinha da Silva?” – em tom de espanto.
após o encontro. Deste modo Bete passou a ser o meu canal de entrada no Passarinho, minha primeira informante65 e também companheira. Em algumas não raras situações perguntavam o que eu era sua, e ela respondia: “amiga mesmo” – ou seja, eu não era parente66.
Minha participação no cotidiano da família se deu num misto de interferência e adaptação à rotina da casa. O galo cantava às 3h e às 5h, já havia indícios de movimentação, crianças acordando, homens saindo para pescar. O horário de saída para a pesca variava conforme a maré, podendo ser percebida pela lua. Às 6h começava os preparativos para o café. Em seguida, as mulheres assumiam outras tarefas domésticas: varrer quintal, pegar água na cacimba, lavar pratos/talheres no girau (na casa não havia faca e garfo somente um – que foi destinado a mim – os demais comem com a colher e com a mão), varrer a casa, lavar e encher os potes d´água (na casa não havia geladeira, diferentemente da casa vizinha – a pertencente ao morador que faz o transporte de passageiros e que também organiza a “turma” do caranguejo). Em alguns dias da semana: lavar roupa na lagoa ou próximo ao poço e cotidianamente: encher os baldes de água para o banho no cercado de palha. “Se banhar” é de costume sempre – o que consiste em jogar água no corpo. Ainda pela manhã: preparativos para as visitas domiciliares (entrevistas). O procedimento variava em avisar os moradores que iríamos passar em outro momento, e então, marcávamos um horário com estes, ou aproveitávamos a oportunidade da ocasião parar realizava de imediato a entrevista. Geralmente os mais velhos ficam em casa e não assumem tarefas (o que não significa que não comandem a organização familiar – como exemplo, dona Vidoca), as mulheres fazem os serviços da casa e os homens saem para “pegar o almoço” – pescar/catar caranguejo. O filho mais novo de Bete, Adalto – trabalhava, na ocasião, como ajudante dos eletricistas do Programa de eletrificação rural “Luz para Todos”, ajudando a colocar os postes nos povoados da ilha. No retorno das andanças para as entrevistas, os preparativos para almoço. A alimentação básica é a farinha de puba, o arroz e o peixe (preparado de diferentes maneiras). Após lavar louça, uma tarefa feminina, o sol a pino, a hora do descansar na rede de carnaúba, assistir novela da tarde – uma novidade do mês, com a chegada da luz. Neste momento da tarde, alguns ratos que habitavam a casa e apareciam no apagar das luzes, costumavam passar pelas ripas do telhado. Após a cesta e o café da tarde, novamente nos preparávamos para a saída pelo povoado, visitando as casas. No retorno: banho, janta, TV e conversas até a hora do descanso. Em pouco tempo, todos da casa se tornaram colaboradores da pesquisa, dando depoimentos como também fazendo indicações de quem procurar com relação a determinados assuntos. A relação com os da casa foi em clima de hospitalidade e muitas conversas, uma vez que eles também procuravam saber como era a vida no RJ, minha cidade de origem. Com relação a dona Vidoca, havia uma investida de sua parte em eu poder auxiliá-la em suas dores e doenças. Como expliquei que eu não era “doutora” ela me indagou: “Como uma moça com instrução não sabe o remédio, com que acaba com dor de cabeça?”
Na ocasião de minha passagem pelo Passarinho, um festejo em outro povoado da ilha, o Torto, foi anunciado e mobilizou os moradores que se programaram para participar, inclusive nós67. Bete, motivada por minha vontade de ir, realizou os preparativos para então caminharmos até lá. Na ida, um barco de um dos organizadores do próprio festejo estaria
65 Deixo aqui registrado que a companhia solidária de Bete nas entrevistas foi um potencializador no alcance da
pesquisa – embora não esteja alheia ao fato de que não circularia da mesma maneira entre os seus desafetos na comunidade (estes episódios foram igualmente registrados na pesquisa e são pontuais, não comprometendo o seu conteúdo).
66 Sobre a força que a referência dos laços de parentesco imprimem na tentativa de configuração das relações que
se estabelecem com as pessoas que chegam de fora numa localidade, ver (Comerford, 2003). Neste caso, ser amigo é não ser parente, mas ter afinidade/vínculo.
67 Fomos eu, Bete, Paulão e Anchieta (marido de Paula, filha do casal. Esta não participou, pois estava com a
esperando moradores do Passarinho em um porto próximo para auxiliar no transporte. Há mais de três anos Bete dizia que não ia para aqueles lados68 . E segundo eles, era o primeiro festejo do Torto. Apesar de serem 2 horas e meia andando para chegar lá, o caminhar na areia torna o deslocamento cansativo e é preciso ter “coragem” para encarar. Chegando lá, o lugar que serviu de referência para a nossa visita e onde realizamos a refeição do dia, foi a casa da filha de um compadre69 . O time de futebol do Passarinho também compareceu para o campeonato. O leilão e posteriormente o forró movimentaram a festa. Na volta, na caminhada no breu da madrugada, uma forte luz que apareceu no céu deixou a todos apreensivos e em silêncio retornamos ao povoado do Passarinho70.
Uma reunião agendada para acontecer no povoado, trouxe além do representante do IBAMA regional, Sr. Deolindo, o coordenador do CNPT, Sr. Vergara Filho. Sua visita teve o caráter de contribuir com o trabalho em andamento de implantação da RESEX. Na ocasião desta reunião, foram apresentados à comunidade os integrantes do projeto de mobilização comunitária elaborado pela ONG italiana COSPE, que incidirá na RESEX. O morador (TO, 6X anos), liderança do Passarinho, fez alguns questionamentos aos membros do IBAMA quanto à situação da terra e também comentou sobre alguns boatos oriundos de uma conversa com um vereador de Araioses que teme a chegada de pessoas de outra nacionalidade para empreender projetos na região. Segundo esses boatos, o que eles querem, nas palavras deste morador é “colocar o Passarinho na gaiola”.
Enquanto ainda estava no Passarinho realizando as entrevistas com os moradores, fui com Bete, numa caminhada de aproximadamente uma hora, visitar o povoado das Canárias. Quando eu comecei a encontrar as pessoas, as quais eu havia entrevistado na pesquisa anterior – eu me dei conta da importância do retorno. O encontro com o jovem (Liliu, 16 anos), que me guiou na pesquisa anterior pelo povoado foi de grande felicidade. Posteriormente o encontro com o morador (GD), foi igualmente feliz. Este morador que, na ocasião da pesquisa anterior, havia revelado suas expectativas e inseguranças com relação a construção da pousada no povoado e a chegada do turismo, não apenas lembrou deste momento, como pediu-me para “atualizar” seu depoimento frente os novos acontecimentos. Percebi que a minha passagem pela ilha havia deixado marcas de afetos e também de indagações com relação transformações que passaram a ocorrer na localidade. Aproveitei para marcar uma ocasião oportuna para realizar uma nova entrevista.
Na última semana do trabalho de campo, me dediquei a permanência no povoado das Canárias e me hospedei, como na ocasião anterior, na casa da então enfermeira do povoado e também moradora (Lina)71. Outro momento de feliz “reencontro” foi ver a menina, (GA), crescida, me confidenciando seus segredos de menina, que se tornara moça e também seu desejo e expectativa de morar em outro lugar. Em nossas andanças, foi possível também perceber o carinho e respeito que nutre por seus padrinhos e madrinhas de batismo e de fogueira, conforme o costume local.
O término de meu trabalho de campo coincidiu com a visita do pesquisador Fabio Ferreira à comunidade do Passarinho, juntamente com um professor da Universidade de
68 Mesmo sendo relativamente próximo, ou seja, habitarem a mesma ilha, as distâncias são longas e muitos
habitantes de cada povoado se enraízam em suas localidades, como é o caso da Bete. Seu movimento de saída do povoado é feito 1 vez por mês para Araioses e em tempos mais espaços a Parnaíba. A maior visita se dá ao povoado das Canárias, onde, inclusive, encontra-se uma irmã. Para o Torto não existe o costume de deslocamento.
69 Nesta mesma casa outras famílias e parentes apareceram para se hospedar, inclusive uma “inimiga” da Bete,
que mora no Passarinho. Embora não se falem mais, por brigas que envolvem ciúmes do marido da outra, elas conviveram no mesmo ambiente.
70 Entre os boatos esta é a manifestação do “Cabeça de Cuia”.
71 Não mais na casa de taipa e telha, mas na sua casa construída de tijolo na beirada do rio, próximos aos
Laval, no Canadá, que fora com ele conhecer a região. Retornei com eles para a cidade de Parnaíba e posteriormente para o Rio de Janeiro, onde realizei a análise e redação da pesquisa. Este encontro foi também a oportunidade de conversar sobre as atuais tendências de desenvolvimento para a região e demais estudos que realiza no seu doutoramento.