4 COLETA E ANÁLISE DOS DADOS
4.3 ORGANIZAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS COLETADOS
4.3.6 Relatos de aulas com a utilização de Recursos Didáticos Diferenciados
Para entender como os recursos didáticos são trabalhados nas aulas de Geografia, pedi para que os alunos relatassem uma aula em que o professor introduziu algum tipo de recurso, para analisarmos suas diversidades. O aluno 2 começou relatando que gosta muito das experiências, “porque a gente tem que mexer com terra, a gente pega lá e vê como que funciona a coisa na prática, a gente aprende bastante” (ALUNO 2). Percebemos assim, o gosto do aluno em aprender na prática aquilo que foi explicado na teoria, como relata também o aluno 4:
As experiências, principalmente a do efeito tampão que eu não acreditava muito naquilo quando foi falado, mas, na prática, da experiência mostrou que acontece. Era uma garrafa e a gente tinha que botar fogo no canudo e a fumaça ficar lá dentro, era pra ela cair verticalmente e eu não acreditava que aquilo realmente aconteceria, mas, na prática, aconteceu (ALUNO 4).
Com essa transcrição, constatamos a eficiência da utilização das experiências como um meio para favorecer que o conhecimento seja adquirido pelo aluno. Como dito acima, o aluno 4 não acreditou que a experiência do efeito tampão fosse dar certo, deduzindo que aquilo só era possível na teoria. O meio encontrado pelo professor para que os alunos entendessem esse processo foi muito criativo e didático, como pode ser visto na figura abaixo, facilitando a aprendizagem e tornando o aluno o ator principal daquele conhecimento.
Figura 17:Experiência sobre o Efeito Tampão.
Fonte: Acervo digital da E.E.E.M “Guilherme Milaneze”.
Essa experiência do efeito tampão foi bem citada pelos alunos, pelo fato deles nunca terem feito algo do tipo e por acreditarem que não aconteceria, como já citado. O aluno 9 afirma, “eu gostei de fazer a experiência igual ao aluno 4 falou, que tinha que colocar fogo, a do efeito tampão, foi muito interessante e ela foi feita no pátio da escola” (ALUNO 9).
O relato do aluno 9 concretiza o interesse e a participação dos alunos nessa experiência, percebemos que isso acontece pelo fato de ser uma atividade pouco desenvolvida na escola, dando todo o mérito ao professor pela criatividade. Outro ponto que analisamos, foi o fato da atividade ser feita no pátio da escola, considerando que no local não possui uma sala específica ou um laboratório apropriado para a realização dessas tarefas. Assim, eles usufruem a estrutura que a escol disponibiliza, nesse caso, o pátio. A utilização do pátio mostra que, mesmo sem um ambiente favorável para o desenvolvimento da experiência, o professor não se acomodou e realizou-a no lugar que considerou possível.
Outra experiência relatada pelos alunos foi sobre os tipos de energia, em que cada grupo deveria representá-los na prática. O aluno 8 explicou o que tiveram que fazer na experiência, “tivemos que recolher as plantas óleo argilosas que utilizavam para isso e fizemos também um pouco de biodiesel e mostramos na sala a queima desse
combustível” (ALUNO8). Com essa fala, identificamos o trabalho realizado pelos alunos na prática, assim como enfatiza o número 3:
Meu grupo também ficou com essa parte do Biodiesel e a gente pegou semente de mamona para poder extrair o óleo, e tipo, eu nunca imaginei que dava para sair daquele jeito, só que não é só uma etapa, você não pega só o óleo, só a semente e já tira o óleo, na verdade eu tive que ferver para sair o óleo (ALUNO 3).
Na afirmação acima, constatamos o espanto dos alunos ao realizarem experiências desse tipo, relacionando o conteúdo trabalhado na sala de aula com objetos disponíveis no dia a dia de cada um. A extração do óleo da folha de mamona despertou nos alunos o interesse em realizar a atividade, pelo fato de nunca terem tido a oportunidade de realizá-la. Assim, percebemos também que o professor de Geografia trabalha com experiências diversificadas, que fogem do comum, mas sempre relacionadas aos conteúdos que estão sendo trabalhados. Outro exemplo foi descrito pelo aluno 5, sobre o surgimento da vida:
No primeiro ano, também fizemos experiências para aprender a origem da vida no mundo, o professor trouxe musgos para a gente observar como acontecia, nós também trouxemos, e montamos uma experiência de como ocorria a formação da vegetação maior. Ele também fez a experiência da gente colocar um pedaço de carne em um vidro para deixar apodrecer para a gente ver como surgia a vida e nós trouxemos também tudo de casa (ALUNO 5).
Analisando essa fala, percebemos que o trabalho desenvolvido pelo professor acontece não só na série da turma entrevistada, considerando que os entrevistados são do terceiro ano e recordaram uma experiência feita no primeiro ano. Compreendemos também que a escola não fornece os materiais necessários para a realização das atividades, resultando em uma dificuldade ao professor, pois, o mesmo depende da participação dos alunos para trazerem o material de casa. O esquema resumo também foi citado pelos alunos, em que eles estudam o conteúdo a partir de um esquema com as principais palavras da matéria que ligam- se entre si, facilitando a aprendizagem, como destaca o aluno 12, “os esquemas resumos que ele ensina pra gente fazer, é uma forma mais fácil pra gente estudar” (ALUNO 12). O esquema resumo se torna um facilitador do conhecimento, que contribui tanto para o aluno quanto para o professor.
O aluno 7 também relata sobre os teatros realizados nas aulas, “o professor também passou um teatro pra gente com vários temas, que foi muito bom ter feito aquilo, que a gente viu e aprendeu a realidade das coisas que acontecem” (ALUNO 7). Esses teatros permitem que os alunos desenvolvam sua criatividade, buscando representações de temas disponibilizados pelo professor. Segue abaixo um exemplo de um teatro realizado.
Figura 18:Teatro sobre rompimento de Barragens em Minas Gerais.
Fonte: Acervo digital da E.E.E.M “Guilherme Milaneze”.
O exemplo mostra um teatro realizado pelos alunos do terceiro ano representando a queda das barragens em Minas Gerais. Com isso, percebemos o trabalho do professor em ligar temas atuais, presentes na realidade dos alunos, com o conteúdo trabalhado em sala de aula. Fica claro também a dedicação dos alunos para a realização do teatro, pois os elementos da cena acima são bem detalhistas e fiéis ao real, assim como, a caracterização dos alunos.
Essa abordagem feita pelo professor, de teoria e prática inseridas na realidade do aluno, acaba facilitando o seu aprendizado e tornando-o mais eficiente. Araújo e Troleis (2015) apontam que o professor tem o papel de mediar o conhecimento da melhor forma, utilizando os recursos pedagógicos necessários, “de modo que a teoria, a prática e as vivências do cotidiano possam estar cada vez mais interligadas” (ARAÚJO; TROLEIS, 2015, p.05).
Nesse sentido, buscar a interação entre a teoria e a prática com assuntos condizentes com a realidade dos alunos é fundamental para que eles aprendam melhor. Abordar temas reais faz com que os estudantes tenham uma bagagem sobre eles, proporcionando assim, um diálogo durante as aulas, tornando-as mais significativas.
4.3.7 Desafios de se utilizar esses recursos em sala de aula
Para entender os desafios encontrados na utilização dos recursos didáticos diferenciados, fizemos um questionamento aos alunos, a pedagoga e ao professor de Geografia, quanto às dificuldades que são encontradas no dia a dia. O professor começou afirmando que eles enfrentam dificuldades para utilizarem esses recursos e que uma delas é a disponibilidade de transportes para as aulas de campo.
[...] nós temos uma dificuldade enorme no município que é a acessão de ônibus para essas atividades de campo, então na verdade, as aulas de campo que nós fazemos os alunos estão pagando, eles querem pagar por contra própria né, mesmo que seja um valor de R$ 10,00 para que a gente possa fazer essas atividades de campo, porque eles entendem que é diferente (PROFESSOR DE GEOGRAFIA).
Analisando a transcrição acima, percebemos que mesmo com a dificuldade de conseguir um ônibus para as aulas de campo, os alunos não desistem de fazê-la, pagando do próprio bolso o valor do ônibus. Isso mostra o interesse deles por essas aulas diferentes, que saem do dia a dia da sala de aula, pois compreendem que elas podem agregar cada vez mais o seu conhecimento. Vale ressaltar também, o empenho do professor para diversificar suas aulas, visitando e conhecendo lugares que motivem a aprendizagem dos alunos.
Outra dificuldade relatada pelo professor é sobre o difícil acesso à internet, devido à falta de um laboratório de informática na escola, “o que a escola tem é o acesso, no corredor, de dois computadores e o que a gente abre mão para eles utilizarem os celulares para pesquisa, para até poderem fazer os vídeos, que eles têm que fazer para apresentar” (PROFESSOR DE GEOGRAFIA).
Devido a essa falta de computadores e de internet, percebemos que o professor, mesmo assim, busca alternativas que não limitem a realização de suas atividades, como por exemplo, a produção dos vídeos explicativos sobre as experiências que são feitas. Uma das alternativas pensadas foi utilizar o celular próprio dos alunos
para fazerem as edições dos vídeos e as pesquisas na internet sobre o conteúdo a ser apresentado. Dessa forma, o docente consegue mostrar para o aluno que pode ser feito o uso do celular na sala de aula, desde que seja de uma forma consciente e proveitosa.
A pedagoga também relata outra dificuldade encontrada na escola, a falta de um laboratório específico para a elaboração e execução das experiências. “A gente tem uma grande dificuldade aqui na escola, a gente compartilha o prédio, então, assim, a gente não tem laboratório” (PEDAGOGA). Como a escola funciona no prédio da prefeitura, as instalações disponíveis para o seu funcionamento são básicas, limitando a aprendizagem dos alunos à sala de aula. Todos esses problemas direcionam para um ensinoaprendizagem de Geografia focado no livro didático e preso à sala de aula, porém, não é isso que acontece, o professor, junto com toda a equipe pedagógica, consegue superar todos esses desafios.
Um outro problema, seria também, que nós não temos na escola um laboratório de Biologia, que serviria também para algumas experiências, mas nem por isso a gente deixa de fazer porque a escola tem alguns equipamentos de material de experiência e eu consigo também trazer material de experiência lá do Polo onde eu trabalho, lá tem um laboratório pequeno de Biologia, então eu trago de lá para eles usarem aqui para fazerem algumas experiências e na verdade também eles usam material reciclável e produzidos por eles mesmos, mas nem por isso a gente deixa de fazer (PROFESSOR DE GEOGRAFIA).
Com essa transcrição, constatamos que a falta de um laboratório com materiais para a realização das atividades diferenciadas não é um empecilho, visto que os alunos conseguem produzir materiais ou levar de casa. O fato de o professor disponibilizar recursos do laboratório de Biologia do Polo em que trabalha no contra turno também facilita, mas isso só é possível devido às especializações que ele possui. Com a sua formação complementar, o docente consegue aprimorar o seu conhecimento e inovar na sala de aula, fazendo o uso de materiais disponíveis no seu outro local de trabalho.
Essa é uma diferença que enxergamos em outras escolas, professores só com a graduação ficam acomodados na sala de aula, não buscam maneiras alternativas que contribuem para a aprendizagem.
A superação do professor diante da falta desse laboratório, tanto para a realização das atividades quanto para a sua exposição, também é vista pela pedagoga, que destaca a falta desse ambiente e as alternativas que são usadas, “não ter um
ambiente, não ter assim um laboratório propício para isso, dificulta, mas ele supera, ele faz na sala de aula, ele faz no pátio, ele usa o corredor, dá um jeito” (PEDAGOGA).
A fala da pedagoga mostra que o professor utiliza o espaço que a escola oferece, seja o corredor, o pátio, a quadra ou a sala de aula. O diferencial que encontramos aqui é o empenho e a dedicação desse docente em não se acomodar pelos desafios encontrados, mas de sempre adaptar as atividades propostas no ambiente que ele tem disponível.
A dificuldade abordada, assim como a superação, é reconhecida pelos alunos, como relata o número 4, “a falta de equipamento da escola prejudica, mas acaba que a gente traz de casa e dá tudo certo” (ALUNO 4). Essa parceria entre o professor e os alunos contribui muito para a realização das atividades, pois os educandos, empenhados no que é proposto, buscam maneiras, junto com o docente, para conseguirem os materiais necessários.
Com a certeza de que a utilização dos recursos contribui para a aprendizagem e que o trabalho do professor tem total influência sobre isso, o aluno 3 afirma que “ele tem total domínio das aulas, mas como falta muito material às vezes prejudica, só que como ele é um excelente professor no final a gente consegue aprender tudo que ele tenta ensinar” (ALUNO 3). Essa transcrição enaltece o trabalho do professor em conseguir utilizar todos esses recursos já citados mesmo com as dificuldades apresentadas, buscando sempre uma alternativa dentro dos elementos e do espaço que ele tem disponível.
Alguns autores também relatam sobre a dificuldade do professor em colocar em prática a utilização desses recursos, Araújo e Troleis (2015) destacam que “[...] isso se deve a diversos fatores, os quais podemos citar: problemas estruturais das escolas em oferecer determinados objetos pedagógicos” (ARAÚJO; TROLEIS, 2015, p.06). Isso ocorre, muitas vezes pela falta de estrutura da escola, desmotivando o docente e tornando-o acomodado quanto ao seu plano de aula, sem disposição para buscar alternativas que superem os desafios encontrados.