3. Ballet corpo e cultura: A configuração de um artefato cultural
3.1 Relatos do ballet como familiar e como estranho
Na carta número 2 do livro “Cartas para um jovem bailarino”10, Maurice Bejart relata
a seguinte história:
(...)queria, antes de tudo, encontrar um professor de Ioga autêntico (coisa
estranha e escondida) e me deixar guiar por ele nessa via desconhecida (...) Conheço ao mestre:
- por que deseja fazer Ioga? (obviamente, um jovem estudante intérprete nos permitiu estabelecer este diálogo)
- Acho que vai me ajudar a construir minha vida e me fazer avançar no meu trabalho.
- Qual é o seu trabalho? - Bailarino
- A dança é um presente dos deuses. Shiva-Nataraha é o senhor da dança. É uma arte difícil. Qual é a sua dança?
Fico balbuciando algumas explicações incomodas. No fundo não sei qual é a minha dança.
- Suponho que você tem um treinamento diário, exercícios. - Sim, é claro.
Não sei como explicar. E ele: - Mostre- me
Vejo um balcão de madeira que circunda um terraço coberto onde nós estamos sentados.
- Fazemos barra todos os dias - Muito bem, adiante!
Respiro profundamente, mais nervoso do que em uma estreia, e fico na frente dele, segurando a varanda. O chão era, coisa estranha na Índia, de maneira natural, polido mas não liso, e me permitiu um trabalho simples e cuidadoso.
Após 40 minutos, nem o corpo, nem os olhos dele se moveram. Eu digo, coberto de transpiração:
- Isso é o que chamamos de barra Um silêncio longo e depois:
- E por que quer fazer Ioga? Se a sua mente está livre e seu corpo reto, mas sem tensão, se você deixa ao exercício dirigi-lo e não ao contrário, se você não deseja do exercício mais do que a beleza e a verdade, você tem seu Ioga. Não procure em outro lugar! Faça logo o que chama de barra pela beleza da barra, sem pensar na ideia de progresso, pois só se progride quando abandonar a ideia de progresso.
Daquele dia em diante, a barra, para mim, deixou de estar relacionada apenas a uma técnica, a um estilo, a uma certa forma de dança. Ela é um Ioga que constrói meu corpo e a minha mente e abre a possibilidade de compreender toda outra forma de dança, pois a dança é a pessoa mesma.
(BEJART, 2005, p. 18-21 )11
11 Tradução minha. Texto original: “Queria ante todo encontrar un maestro de yoga auténtico (cosa rara y escondida) y dejarme guiar por él em esta via desconocida (…) Conozco al maestro: - por qué desea hacer yoga? (desde luego un jóven estudiante nos permitió establecer este diálogo). - Pienso que podria ayudarme a construir mi vida y hacerme avanzar em mi trabajo. - ¿cual es su trabajo?. -Bailarin. - La danza es un don d elos dioses. Shiva-Nataraja es el señor de la danza. Es un arte difícil. ¿cual es su baile?. Balbuceo algunas explicaciones incómodas. En el fondo, no sé cuál es mi baile. -Supongo, me dice, que tiene un entrenamiento cotidiano, ejercicios. -Sí, claro. No se como explicarle. Y el: - ¡Muéstreme!. Veo un balcón de madera que rodea una terraza cubierta em la que estamos sentados. - Hacemos barra todos los dias. - Muy bien, ¡Adelante!. Respiro profundamente, com más nervios que durante una premiere, y me ubico frente a él, tomándome del balcon. El suelo era, cosa rara em la India, de madera natural, pulido pero no resbaloso, y me permitía un trabajo simple y cuidado. Al cabo de cuarenta minutos, ni su cuerpo ni su mirada se habian movido. Le digo, cubierto de transpiración: - Esto es lo que llamamos “barra”. Un largoo silencio, luego: - ¿Y por qué quiere hacer yoga? Si su mente es libre y su cuerpo recto pero sin tensión, si deja al ejercicio dirigirlo y no a la inversa, si no desea del ejercicio más que la belleza y la verdad, usted tiene su yoga. ¡No busque em outras partes! Haga barra, sin pensar em la idea de progreso, pues solo se progresa abandonando
A partir da primeira vez que li este relato, fiquei encantada com as suas possibilidades antropológicas e poéticas para pensar a construção da corporalidade em relação à cultura. Como construímos aquilo que consideramos nosso e aquilo que é diferente? Da mesma forma que Bejart encontrava-se na busca por uma coisa além daquilo que seu corpo tinha incorporado como natural, eu também, de alguma maneira, comecei pensando o ballet como algo que sempre foi parte de mim.
A tentativa de analisar o processo de incorporação do ballet como sistema de movimento, passa necessariamente pela minha própria experiência. Será fundamental entender, à maneira de Bejart, como foi que meu corpo chegou também a utilizar estes códigos e o que significam na experiência com a dança e com esta pesquisa.
Só depois de ser questionada sobre se o ballet era ou não uma coisa familiar para mim, entendi que o processo era ainda mais complexo. Rosaldo (2000) explica esta situação a partir do estranhamento. Para ele, o estranhamento acontece nesse processo de se aproximar e se afastar do fenômeno estudado repetidas vezes.
Rosaldo trabalhou durante muito tempo com um povo indígena que pratica a caça de cabeças como forma de aliviar a dor e a raiva pela perda de um ser querido. Várias vezes o pesquisador questionou-se sobre a racionalidade daquela prática que não entendia. Só quando sua esposa faleceu por um acidente, e o pesquisador viu-se envolvido na frustrante situação de ter que resolver vários problemas burocráticos referentes à morte da sua companheira, só nesse momento, confessa o autor, ele entendeu o sentimento que mobilizava os indígenas à caça de cabeças.
Este parece um relato exagerado neste caso. O que quero dizer é que esse processo de estranhamento só acontece quando alguma coisa sai do lugar habitual, fazendo-nos pensar sobre como chegamos a considerá-la daquela forma. Neste processo, muitas coisas saíram do lugar. Sair do meu pais (Colômbia), mudar de disciplina (da antropologia para as artes), me aproximar de um método de ensino diferente do que eu conhecia, questionar minha trajetória como pesquisadora e como artista. Tratando-se de estranhamento, minha situação durante o desenvolvimento desta pesquisa foram uma serie de acontecimentos que me obrigaram a sair do lugar habitual.
la idea de progreso. Desde aquel día, la barra, para mí,. Dejó de estar ligada a una técnica, a un estilo, a una cierta forma de baile; es un yoga que construye mi cuerpo y mi mente y me abre la posibilidad de intentar
De alguma maneira, só quando fui questionada sobre se o ballet sempre foi parte da minha vida entendi que o exercício de estranhamento devia passar por mim para depois fazer eco na forma como acontece com outros. Nessa procura, voltei para algumas anotações feitas no diário de campo há vários meses que tentavam (e que eu tinha esquecido) justamente lembrar alguns momentos nos quais o ballet esteve presente na minha vida.
Como eu comecei? Eu pedi para minha mãe me inscrever no ballet. Quem dançava era minha prima. Eu tinha 5 anos e ela era 3 anos mais velha do que eu. Eu queria ser como ela. Uma tarde, a gente estava brincando de alguma coisa que não lembro mais e ela sugeriu brincar de ballet. Acho que não tinha muita ideia do que era.
Ela começou me ensinar uma coreografia que, como me explicou, ia apresentar uns dias depois no espetáculo do final do ano. Ela brigava comigo porque eu não sabia fazer os passos nem as posições direto. Ela ria. Eu, para não acabar a brincadeira me esforçava para fazer o que ela mandava e tentava segui-la. Estava fascinada com a sensação das duas dançando ao mesmo tempo, seguindo a música e com a possibilidade de lembrar uma coreografia toda.
Depois daquela tarde, insisti durante uma semana para minha mãe me levar no espetáculo da minha prima e consegui convencê-la. Era um espetáculo de natal e as crianças dançavam vestidas de diferentes coisas, árvores, estrelas, presentes...minha prima dançou de boneco de neve. Eu adorei. Quando o espetáculo acabou insisti muito em ir falar com a professora e perguntar como eu fazia para entrar na escola. Minha mãe vendo meu interesse, finalmente me colocou nas aulas.
Sobre esse “começo” no ballet ainda é importante acrescentar o contexto que permitiu chegar a essa familiaridade: Cresci numa cidade pequena chamada Pereria no centro-ocidente da Colômbia. Uma cidade onde a oferta cultural era limitada. A escola de ballet onde ingressei era praticamente a única da cidade. A professora, uma mulher muito conhecida na cidade era quem dava todas as aulas. Eu gostava da sua voz forte que contrastava com seu jeito maternal de tratar as alunas.
A escola de ballet se tornou um universo paralelo ao colégio. Ali eu tinha outras amigas, outras atividades, outras exigências. No começo tinha aula duas vezes por semana. Eram meus dias favoritos. Várias colegas da turma do colégio entraram também na escola de
ballet. Era comum na nossa idade iniciar no ballet. Talvez se perguntar hoje, várias gerações
A escola recebia meninas, principalmente de classe média da cidade, e algumas de setores mais populares. Ela não era muito cara, e respondia a essas lógicas de cidade pequena onde é possível fazer acordos verbais, trocas e descontos para quem precisava. A professora nunca deixou fora uma criança que realmente quisesse aprender.
Dentro deste contexto me aproximei do ballet. No começo sentia que a gente tinha que aprender muitos passos e muitos nomes. A professora ensinava primeiro com palavras conhecidas e só depois de um tempo a gente aprendia o nome “verdadeiro” em francês.
O espaço da escola era o único lugar onde eu estava em contato com este tipo de dança. No colégio eu não tinha contato nenhum com ballet clássico e pelo contrário todas as aulas de dança que recebi trabalhavam danças folclóricas nacionais. Esta condição faz parte de uma política pública na Colômbia, que obriga as escolas a terem aulas de dança folclórica no ensino fundamental.
Eu me interessava muito por estas aulas. Normalmente a gente aprendia as danças segundo as regiões geográficas da Colômbia. Danças Andinas, danças da Costa Pacífica, danças da Costa Atlântica, danças da Orinoquia e danças da Amazônia. As que correspondiam ao folclore da minha região eram as danças andinas. Eu gostava do bambuco e do pasillo. Talvez a minha simpatia com essas danças vem também de uma memória familiar. Meu avô é seresteiro e eu cresci cantando, tocando e dançando essas músicas que são muito típicas da região onde eu nasci.
Essa memória corporal faz parte também da minha relação com o ballet. A minha professora de ballet, que tinha ampla experiência com danças folclóricas achava muito engraçado nossa forma de executar alguns passos do ballet. Com frequência apontava: “esse
pas de bouree está muito 'bambuqueado'” para explicar que nossa execução lembrava mais o
corpo folclórico que o corpo do ballet clássico.
Nas aulas de dança no colégio, acontecia o contrário. A professora achava que meu corpo era muito clássico mesmo dançando folclore. No entanto, isto parecia muito menos problemático. A noção de manter os pés em ponta, as pernas esticadas, as costas alongadas eram características que uma vez foram incorporadas por mim através do ballet, pareciam me servir para desenvolver outras danças.
A professora do colégio, com frequência me colocava como exemplo para mostrar que minha postura e meus movimentos eram muito limpos. No fundo ela também pensava que o
escuto ainda hoje com regularidade: “quem dança ballet, dança qualquer coisa”.