1. A ORIGEM DA MENTE: CAUSAS DISTAIS
1.2 RELIGIÃO
grupo humanos. Consciência, auto reflexão e linguagem foram vantagens seletivas que inauguraram a capacidade simbólica e a possibilidade de construir culturas cada vez mais complexas. A partir dessa nova estrutura existia a manipulação da realidade.
A religião surge como organizadora do mundo caótico. O ambiente humano já não era mais apenas o ambiente físico; as capacidades eram transportadas para um ambiente metafísico, resolvendo uma série de novos problemas que surgiram: os problemas existenciais, resultados da Fluidez Cognitiva. É a religião que dá conta de organizar o mundo e a partir dela a cultura se torna uma vantagem seletiva.
1.2 RELIGIÃO
Somente quando as inteligências especializadas puderam interagir entre si o ser humano pôde ter a capacidade simbólica tão fundamental na construção da religião. A criação de uma realidade que não seja física difere em muito do modo de vida de Homo habilis ou Homo erectus, que estavam adaptados a resolver problemas mais imediatos, com relação direta ao ambiente natural onde estavam inseridos. O argumento para essa definição está no sepultamento de indivíduos com objetos depositados nos túmulos (MITHEN, 2002).
Esse fato seria indício de crença em vida após a morte, uma pessoa que sobrevive depois da morte e permanece como um ser de crenças e desejos. É o conceito de morte como transição para uma forma não-física. O totemismo também é considerado evidência para a explicação do surgimento da religião, onde as Inteligências Social e Naturalista são combinadas para criação de seres animais com características humanas (MITHEN, 2002). A Fluidez Cognitiva permite a passagem das informações sociais para elementos de característica naturalística, conferindo atributos humanos, de si próprios, a esses seres.
Do mesmo modo, o antropomorfismo é outro fato considerado evidência de crenças. As forças desses seres são conferidas aos humanos. Esse trabalho mental funciona como forma do humano pensar seu lugar no mundo, refletir sobre a sua fragilidade em relação à natureza. Pela auto reflexão possibilita a construção de ambientes sociais de relação com a natureza. Os primeiros humanos modernos chamados caçadores-coletores estavam diante de uma realidade majoritariamente
natural e o totem e antropomorfismo surgem como formas de socializar esse ambiente, tornando-o mais humano (MITHEN, 2002).
Da relação social que os humanos estabeleceram com entidades não sociais do mundo naturalista, surgem as primeiras ideologias religiosas, fruto da Fluidez Cognitiva. Um componente não-físico afeta um componente físico a partir da execução de uma atividade (ritual) realizada por humanos. A interação de “mundos”
que possuem “naturezas” opostas é uma característica quase universal das mais diversas religiões e refletem diretamente a estrutura da mente cognitivamente fluida.
Humanos só podem se relacionar com seres que possuem características como as suas, como uma forma de apreender essa realidade sobrenatural.
Com a Fluidez Cognitiva, a Inteligência Social começou a ser acessada por informações não sociais. A religião então toma a característica de combinação entre violação e conformidade com o conhecimento natural do mundo, conferindo aos humanos pertencimento à realidade que os rodeia (MITHEN, 2002). Papéis sociais são definidos para manter a estrutura do mundo criado pelos humanos e garantir o lugar de pertencimento de cada um dentro da sociedade. Como fenômeno humano, a religião está diretamente relacionada com a capacidade da Fluidez Cognitiva.
Os indivíduos que podiam explorar essas invasões ficaram em posição de grande vantagem seletiva. Deixaram de ser observadores e passaram a ser agentes, aumentando seus conhecimentos sobre o mundo. Puderam explorar o conhecimento não social de outros indivíduos pelo uso da linguagem. Surgem os mitos que são definidos como histórias que servem para encapsular as ideias que os grupos têm sobre a origem e estrutura do mundo e são relacionadas à causalidade. O pensamento mítico é entendido como um sistema unificado e coletivamente mantido por metáforas explanatórias e reguladoras (DONALD, 1999).
Com as narrativas míticas podemos ver que o espírito humano expandiu para uma modulação compreensiva do universo humano total. A explicação causal, a capacidade preditiva e o controle constituem a tentativa do mito de abarcar todos os aspectos da vida. A capacidade linguística permitiu a criação do mito com um sistema integrador da mente (DONALD, 1999). A linguagem teve a função de desenvolvimento do pensamento integrador, sendo um mecanismo social usado na construção de modelos conceituais do universo humano. A partir da inteligência representacional do mundo, a mente humana é capaz de criar a religião, que encontra seus fundamentos no pensamento mítico.
O pensamento narrativo que constrói histórias de acontecimentos está ligado à capacidade de descrever e definir objetos. A mente mítica está no centro da aquisição da linguagem e leva à utilização de novas capacidades para construção e reconstrução da realidade (DONALD, 1999). A invenção simbólica permite uma versão coletiva da realidade como produto do pensamento narrativo. A religião se manifesta pela interação com o elemento metafísico e é uma ferramenta social para manipular a comunicação. Regula o comportamento e envolve o conhecimento, restringe a percepção da realidade e canaliza as capacidades de pensamento dos seus participantes.
Ao utilizar elementos da sua realidade natural, os primeiros humanos estabeleceram relação com esses elementos, criando mecanismos de compreensão sobre seu lugar na natureza (MITHEN, 2002). Isso possibilitou a noção de pertencimento, uma característica marcante da subjetividade humana. Pertencer significa dar significado para sua existência diante da natureza e, ao atribuir significado, é possível estabelecer relações sociais com o ambiente natural. O metafísico se torna humano e coopera com eles, conferindo maior sobrevivência e sucesso reprodutivo aos indivíduos que o apresentam esse mecanismo na sua estrutura mental.
Atributos humanos são convocados na relação com entidades metafísicas com características humanas. Isso facilita a compreensão da realidade invisível, estabelece a relação e permite ressignificar afetos e sentidos. Os primeiros humanos religiosos olharam para os elementos da natureza na qualidade de entidades metafísicas e viram a si mesmos (MITHEN, 2002). É o altruísmo, que foi transportado da relação metafísica para a relação física junto à comunidade. O altruísmo no interior do grupo possibilita resolver problemas adaptativos de natureza social (YAMAMOTO;
VALENTOVA, 2018).
A noção de pertencimento e o altruísmo implicam a manutenção da estrutura social. Dentro dos grupos há coesão e definição de papéis (MITHEN, 2002). O sujeito está ancorado no lugar social que lhe foi definido e, ao estar sustentado por esse lugar que é afirmado pelo grupo, a tarefa de emergir afetos se torna suportável. Além das estruturas cognitivas, o comportamento religioso pode ser uma importante ferramenta para a emancipação humana por possibilitar a compreensão e ressignificação de afetos e sentidos nas experiências humanas dos sujeitos.
A cooperação surge como um elemento fundamental para a sobrevivência e manutenção da nossa espécie, mostrando a importância de uma estrutura humana organizada para resolução de problemas (YAMAMOTO; VALENTOVA, 2018). A religião tem a capacidade de facilitar a colaboração no interior do grupo, com a definição de papéis e coesão social sendo importantes mecanismos para a sobrevivência de um grupo. O comportamento religioso é a interação dos sujeitos, estabelecendo papéis sociais e modelando as relações humanas. A cooperação é outro benefício adaptativo da religião.
O comportamento religioso ativa padrões de uso do cérebro muito redundantes e culturalmente específicos, que implicam a existência de tradições culturais que têm uma base neurológica indireta (DONALD, 1999). Mostra que a cultura ativa padrões cerebrais. Valores simbólicos são atribuídos ao ambiente físico e então, todo o ambiente religioso tem conotação simbólica compartilhada de modo coletivo na experiência individual. Como vantagem seletiva, a religião afirma seu papel de sobrevivência e manutenção da espécie humana, agora localizada num ambiente socialmente construído. É um dos mecanismos que atua na convergência entre biologia e cultura.
A subjetividade humana se forma na convergência dos aspectos biológicos, culturais e sociais a partir das experiências que o sujeito estabelece com seu ambiente (YAMAMOTO; VALENTOVA, 2018). O exercício da fé no comportamento religioso interfere nas conexões das estruturas cognitivas. As vias de conexão encontram processos biológicos, culturais e sociais como moduladores que, na interação, vão definindo as conexões e construindo sua subjetividade (DALGALARRONDO, 2011).
Organismo e ambiente se afetam, sujeito e seu contexto se constroem mutuamente.
Assim a religião é um mecanismo adaptado a mente modular, ativando estruturas fundamentais para a evolução humana.
A crença em elementos metafísicos é um poderoso instrumento de organização da psique (CARDEÑA, 2011). Articula importantes elementos adaptativos, garantindo sua manutenção no ambiente cultural. Atua com processos biológicos, culturais e sociais, possibilitando o ser humano estabelecer relações com o mundo ao mesmo tempo em que se constitui a partir dessas relações. É um comportamento que responde às pressões seletivas sociais de modo satisfatório, localizando-se na base de formação da subjetividade humana. A religião foi a primeira vantagem seletiva que a mente modular foi capaz de criar (MITHEN, 2002).