1. Ecumenismo: um agente para o desenvolvimento humano?
1.2 Religião, desenvolvimento e mudança de valores
1.2.2 Religião e desenvolvimento se inter-relacionam
O futuro começou religioso. Esse paradoxo do mundo moderno é interessante. Na contramão de todas as previsões, o século XXI começou com uma superabundância de deuses que competem pela lealdade das pessoas (BERGER, 2012, p. 1).
A ironia de Berger (2012, p. 1) é feliz ao afirmar que o século XXI é marcado pelo politeísmo, como se os muitos deuses da Antiguidade tivessem voltado para se vingar. Esse retorno da religião não significa apenas uma retomada da dimensão da fé religiosa na vida das pessoas. Mais do que isso, a religião voltou a desempenhar um papel importante no espaço público. Valores religiosos voltam a influenciar decisões políticas e a moldar o comportamento das pessoas.
O ressurgir da religião na esfera pública vem acompanhado por perguntas humanas existenciais, tais como: o que é o bem comum? Qual é o propósito da vida e quando ela começa? Qual o objetivo último da humanidade? O que é o ser humano? Há limites para o desenvolvimento econômico?
Esse novo estágio do processo histórico leva também à revisão do projeto de desenvolvimento. A avaliação desse projeto ancora-se na abordagem sobre as capacidades das pessoas de levarem o tipo de vida que para elas é importante. Essas capacidades podem ser promovidas pelas políticas públicas, que por sua vez podem ser influenciadas pelo uso efetivo das capacidades participativas das pessoas (SEN, 1999, p. 32). Nesse sentido, o êxito de uma sociedade deve ser avaliado não pelo PIB que ela gera, mas pelas liberdades substantivas que os indivíduos dessa sociedade desfrutam3.
Desta forma, recupera-se o desenvolvimento como um empreendimento que envolve crenças, práticas, programas e organizações que buscam estimular o progresso moderno em direção à melhoria das condições de vida das pessoas. Esse empreendimento envolve uma rede complexa formada pelo Estado, por organizações multilaterais, grupos não governamentais que trabalham juntos para a promoção das liberdades humanas, contribuindo para que elas possam cuidar de si mesmas e exercer mais influência na sociedade em que vivem.
Assim como o desenvolvimento, a religião pode ser compreendida como um conjunto de crenças, práticas, identidades e organizações formais, ou não, de grupos de
3Para exemplificar, vale lembrar a iniciativa do Butão, que criou indicadores alternativos para medir o seu desenvolvimento. Algumas variáveis consideradas são: bom padrão de vida econômico, gestão equilibrada do tempo, bons critérios de governança, educação de qualidade, boa saúde, vitalidade comunitária, acesso à cultura, bem-estar psicológico.
pessoas em torno da compreensão e das relações estabelecidas com a realidade transcendente (NOY, 2009, p. 29).
Tanto a religião quanto o desenvolvimento acreditam em sistemas de práticas que têm como propósito a promoção do bem-estar social e o progresso individual por meio da transformação humana interna (NOY, 2009, p. 30-32). Ambos estão inter-relacionados em todos os níveis da sociedade humana. Essa inter-relação contribui para que a religião influencie no desenvolvimento, desempenhando um papel de “estrutura mediadora” (BERGER; LUCKMANN, 2012, p. 106).
Como estrutura mediadora do desenvolvimento, a religião desempenha a função de elo entre os indivíduos e os padrões de experiências e ação estabelecidas na sociedade, levando as pessoas a compreenderem a sua função pública de acordo com a concepção que a sua religião tem do mundo. Segundo Berger e Luckmann (2012, p.101), as instituições intermediárias
Atuam como geradoras e sustentadoras de sentido na conduta de vida dos indivíduos e na coesão das comunidades de vida. Elas dão orientação para as pessoas mesmo quando a sociedade toda não é mais a portadora de uma ordem supra ordenada de sentido e valor, mas só atua como uma instância reguladora dos diferentes sistemas de valores. As regras que valem para toda a sociedade servem para tornar possível a coexistência e a necessária cooperação das diferentes comunidades de sentido, sem impor-lhes uma ordem comum de valores.
Como agente intermediário, as organizações religiosas podem desempenhar o papel de força motriz do processo de desenvolvimento humano, na medida em que contribuem para a promoção de valores sociais que aumentam a autonomia das pessoas para tomarem suas próprias decisões e realizarem opções. Nesse sentido, as organizações religiosas podem ser importantes agentes de fornecimento de uma ética da fraternidade e da responsabilidade (WILLAIME, 2012, p. 130).
A inter-relação entre religião e desenvolvimento humano contribui para identificar a religião como uma força indutora das autonomias individuais e do pluralismo democrático. Segundo Willaime (2012, p. 175), ela representaria um recurso simbólico que impediria a política de se transformar em uma mera gestão burocrática das aspirações individuais, evitando que o processo de modernização caia em um relativismo. As ancoragens simbólicas da religião podem constituir um recurso valioso para o exercício da cidadania.
A religião, como instituição cultural, que se inter-relaciona com o desenvolvimento, seria uma fomentadora de valores de autoexpressão, ou seja, de valores que enfatizam as forças sociais emancipadoras, necessárias para pressionar por democracia. Esses valores são
fundamentais para as diferentes fases do quadro de desenvolvimento humano, que é composto como mostra o Quadro 1.
Quadro 1– Processo do Desenvolvimento Humano Dimensão
Socioeconômica
Dimensão cultural Dimensão institucional Processos que promovem o desenvolvimento humano Modernização Mudanças de valores Democratização Componentes do desenvolvimento humano Recursos socioeconômicos Valores de autoexpressão Liberdades civis e políticas Contribuições no desenvolvimento humano Aumentar a capacidade das pessoas para agir conforme suas escolhas
Aumentar a
prioridade das pessoas para agir conforme suas escolhas
Ampliar os direitos das pessoas para agir conforme suas escolhas
Temas subjacentes A ampliação das escolhas humanas (uma sociedade cada vez mais humanística)
Fonte: INGLEHART E WELZEL, 2009, p. 19.
No entanto, a inter-relação entre religião e desenvolvimento não acontece apenas pela via da promoção de valores de autoexpressão. A inter-relação entre religião e desenvolvimento humano é ambivalente. A religião pode tanto promover o desenvolvimento humano quanto obstaculizá-lo.