A religião contribui para a educação na medida em que fornece ao indivíduo uma experiência de sentido da própria vida. Nas palavras de Rubem Alves:
Um sentido característico dos encontros com o sagrado é a experiência do sentido. E esse sentido da vida é algo que se experimenta emocionalmente, sem que saiba explicar ou justificar. É algo que ocorre de forma inesperada, sem que saibamos de onde vem e para onde vai. É uma transformação de nossa visão de mundo, no qual as coisas se integram como em uma melodia.4
A afirmação de Rubem Alves nos faz compreender a relevância da experiência religiosa enquanto uma experiência de ressignificação da realidade pessoal e social do indivíduo. Relacionando a experiência religiosa com a condição humana, encontramos em Luís Felipe Pondé o elo entre experiência religiosa, finitude e busca de sentido:
A finitude é um problema que carrega em si uma profunda essência religiosa. Ela é diretamente ligada à experiência do sagrado na medida em que é um campo onde a indagação pelo sentido surge de forma violenta. (...) A materialidade existencial da finitude é a agonia que dela brota. Esta agonia será, portanto, o espaço onde a experiência humana poderá se dar como experiência do sagrado.5
Pondé vê na agonia que brota da experiência da finitude não algo patológico, mas a possibilidade de uma abertura para uma experiência mais profunda. “Esta agonia será, portanto, o espaço onde a experiência humana poderá se dar como experiência do sagrado”6.
J. Dellors busca também na experiência religiosa um componente favorável ao processo de educação para a condição humana. Em Educação: um tesouro a descobrir, Dellors atribui à educação o papel fomentador de um componente ético
4 Rubem ALVES, O que é religião, p. 122.
5 Luis Felipe PONDÉ, Finitude como experiência do humano e como experiência contemporânea do
sagrado: um esboço da mística da agonia, in: José Rogério LOPES (org.), O finito e o infinito na
experiência humana contemporânea, p. 83-84.
essencial e a necessidade de que ela abra um espaço para dar a conhecer os valores espirituais das diferentes civilizações.7 Tais valores se fundamentam na
experiência religiosa de cada povo. A “dimensão espiritual deve estar no centro de nossa reflexão sobre a educação”,8 insiste Dellors.
Hugo Assmann, ao falar da aprendizagem como um processo criativo que se auto-organiza, insiste na necessidade de repensar a educação para além dos modelos mentalistas do conhecimento: “E parece-me que o ponto de partida fundante de toda uma nova visão do conhecimento consiste em entender a profunda identidade entre processos vitais e processo de conhecimento”9. A experiência é
parte do processo vital do indivíduo, ou seja, faz parte da dinâmica da vida experimentar interiormente a realidade.
Na visão desses autores, a experiência religiosa tem um peso específico no processo educativo e ainda revela o limite desse processo.
Nosso objetivo aqui não é o de aprofundar a pertinência existencial da experiência religiosa, mas sim tentar mostrar como esta experiência nos faz compreender nossos limites cognitivos e, ao mesmo tempo, aponta para a existência de um além não acessível ao conhecimento racional. É a percepção dessa dupla dimensão que possibilita avaliar o quanto a experiência religiosa contribui para uma compreensão mais ampla da condição humana. Ela desnuda os limites da razão na busca de sentido e significado para a vida. Acostumamo-nos com a idéia de que o conhecimento é recebido de fora, que a palavra aprender passou a significar quase a mesma coisa que receber ensinamentos e lições.
Educação passou a significar simplesmente ensinar, no sentido mais raso da transmissão de saberes pré-existentes. Hoje começamos a perceber o que significa, no plano experiencial da vida das pessoas a construção de conhecimentos.10
Assmann nos introduz na idéia de que é necessário compreender a educação a partir da experiência do indivíduo.
7 J. DELLORS, Educação, p. 49. 8 Ibid., p. 244.
9 Hugo ASSMANN, Metáforas novas para reencantar a educação, p. 144. 10 Ibid., p. 134.
Na educação existe uma janela acolhedora das experiências mais íntimas do aprendente. Experiências essencialmente pessoais de contato com valores dotados de significado para o indivíduo.
A experiência religiosa faz parte delas e, ao possibilitar vivências e discussões sobre os limites humanos, dá ao processo educativo uma contribuição única. Além de ampliar a sua compreensão, superando uma visão puramente racional-científica do conhecimento, coloca ainda a condição humana como um pressuposto da educação. Sendo a experiência religiosa uma experiência de sentido e significado último, ela faz parte do desenvolvimento integral do indivíduo.
Falar de experiência religiosa é falar também de religião. Carlos Brandão nos lembra que religião deve ser compreendida como parte dinâmica da sociedade e da cultura. “Talvez a melhor maneira de se compreender a cultura popular, seja estudar a religião. (...) É um exercício de pensar a sociedade; um exercício que usa a religião como roteiro e pensa a partir do que vê no setor religioso”11.
A religião está ligada tanto à preservação da ordem vigente em determinada época, quanto ao processo de transformação da sociedade e do mundo, dependendo de como se pensa e age: “Os homens ao se relacionarem com o ‘outro mundo’ estão de fato elaborando formas ricas e significativas de se relacionarem neste mundo e, ao mesmo tempo, encontrando um sentido para a vida”12.
Embora as convicções e crenças sejam individuais, não deixam de estar relacionadas diretamente com o aspecto social, no que se refere ao caminho que se percorre até chegar a elas.
A religião é por assim dizer, síntese do homem e parte da cultura de um povo:
As crenças, bem como as opiniões, só podem existir através de indivíduos que as incorporem, mas é importante ter presente que elas só fazem sentido quando organizadas em sistemas que caracterizam a forma de vida de um povo. Estes sistemas compõem o ‘ethos’ de um povo, ou seja, definem o tom, o caráter, a qualidade de sua vida, seu estilo de agir e suas disposições morais e estéticas. Constituem, assim, sua visão de mundo, o quadro de referência que torna possível o desenvolvimento das condutas de grupos e de indivíduos.13
11 Carlos Rodrigues BRANDÃO, Os deuses do povo, p. 15-16. 12 Ibid., p. 16.
A religião assim entendida não está só ligada à noção de intelectualidade, mas sim de comportamento resultante de representações da vida. É fundamental compreender o que se modificou na vida social, familiar e cotidiana do indivíduo que começou a aceitar a existência da divindade:
Comunicar a Revelação de Deus, a sua Palavra, é muito mais do que transmitir doutrinas ou informações teológico-bíblicas ao povo, é ajudar as pessoas a aprender a aprender a ser verdadeiramente humanos. Quem conheceu a palavra sabe que nossa dignidade humana provém da nossa própria “natureza” – do nosso existir antes e para além de toda e qualquer cultura -, do fato de sermos amados por Deus e sermos sua imagem e semelhança.14
Toda religião tem um caráter universal, mas ao mesmo tempo, espacialmente distinto, um caráter específico.