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4.3 C ONVIVENDO COM HIV/A IDS

4.3.3 Religiosidade

A religiosidade, muitas vezes, serve como suporte emocional, tendo em vista que a vivência do HIV e da Aids vem acompanhada de aspectos clínicos, sociais e psicológicos que podem acarretar sofrimento físico e psíquico. Segundo Faria e Seidl (2006), “em contextos de cuidados à saúde, observa-se alusão freqüente à influência de aspectos religiosos como auxiliares na cura e no tratamento de enfermidades” (p.155). É importante definir aqui o que se entende por religiosidade. Neste trabalho, religiosidade é vista como “a adesão a crenças e a práticas relativas a uma igreja ou instituição religiosa organizada” (Lukoff,1992 citado por Faria & Seidl, 2006, p.155).

Kübler-Ross (1991) ao descrever em seu livro relatos de pacientes terminais, aponta em alguns depoimentos como a fé está presente como possibilidade de enfrentamento da doença. Para a autora, “(...) não está na natureza humana aceitar a morte sem deixar uma porta

aberta para uma esperança qualquer” (Kübler-Ross, 1991, p.124). A esperança que a autora se refere neste trecho, é a esperança calcada na fé, em uma crença religiosa.

As referências que os jovens entrevistados fizeram ao longo de seus depoimentos à religiosidade surgiram de forma espontânea. Não se tinha o objetivo, a princípio, de tentar relacionar a religiosidade ou fé com a questão da soropositividade. No entanto, devido ao que entrevistados expuseram, considerou-se importante analisar também esta questão. Pôde-se perceber que a religiosidade ocupa um lugar de destaque na vida de alguns dos participantes da pesquisa, pois a crença e práticas religiosas fazem parte do cotidiano de três dos cinco jovens investigados. É importante destacar que entre os entrevistados que afirmaram ser religiosos, nenhum deles diz ter procurado a religião em decorrência do HIV. Graciele e César, por exemplo, freqüentavam o terreiro e culto, respectivamente, antes mesmo de saberem que eram soropositivos.

Ventania afirmou freqüentar a Assembléia de Deus semanalmente há cinco meses por incentivo do pai da namorada, César também é evangélico, assim como toda a sua família, e freqüenta os cultos há um ano e diz que foi na igreja que conheceu sua namorada. Graciele que freqüenta semanalmente o terreiro de Candomblé, também conheceu seu parceiro em um ritual religioso. Somente Kinho e Fernando afirmaram não acreditar nem praticar uma religião, porém fizeram referência a Deus em seus discursos.

Ventania disse que mudou alguns hábitos por causa de sua religião:

“Agora não vou mais para a praia. Vou para a igreja. (...) Eu sinto assim na minha cabeça, eu tenho que escolher a praia ou a igreja. Aí eu escolhi a igreja e vou só para a igreja. Porque não é uma coisa que é bem vinda para Deus, né? Essa coisa de tomar banho, ficar assim...Quem é crente tem que andar só de calça, né? Na verdade até de manga comprida parece. Eu não..em um calorão desse”.

Diferentemente de Ventania, César que também diz ser evangélico e freqüentar a Assembléia de Deus, relatou ir para praia freqüentemente e não diz ter mudado seus hábitos devido sua crença. César foi o único que não fez referência a Deus ou outra entidade durante a entrevista, apesar de ser religioso.

Já Kinho que diz não ter religião fez referência a Deus, quando ao final de seu depoimento deixa um recado e fala que as pessoas nunca desanimem, pois o HIV é algo que se deve enfrentar e afirma:

“Viva a vida como é pra viver.... e.... vá vivendo. Até a hora que Deus quiser”.

Assim como Kinho, Graciele também atribuiu a Deus a responsabilidade pelo tempo de duração de sua vida:

“Mas está aí, né? Fazer o quê? Agora é só cuidar, né? Ver se a gente vive bem, né? Até onde Deus quiser”.

Em diferentes falas aparece a responsabilidade atribuída a Deus, o “deixar na mão de Deus” pode ser entendido como uma forma, uma estratégia de enfrentamento. Faria e Seidl (2006), afirmam que a “percepção de não ter controle sobre a doença – sem cura, muitas vezes ainda percebida como sinônimo de morte e altamente estigmatizante – pode remeter a conteúdos religiosos no processo de enfrentamento, com possibilidade de influências diversas sobre o bem estar subjetivo” (p.156). Um exemplo do que atestam as autoras é a fala de Graciele:

“Desanima...desanima, mas não pode. Não pode desanimar, né? Eu peço força para os meus orixás também,né? Para Deus..” (Graciele).

“(...) e eu meio que entreguei....eu não sou católico, eu não sou praticante de fato, eu não sou nenhum pouco religioso, bem pelo contrário, eu sou muito cético, entendeu? Eu acho que até por isso eu tenho sofrido um pouco, eu não sei, talvez tenha sofrido um pouco menos, tenha encarado um pouco mais as coisas, mas...eu entreguei na mão de Jesus digamos assim, entendeu?(...)” (Fernando).

No trecho acima Fernando refere-se ao período que ficou internado no hospital. O jovem relatou que achava que ia morrer, que estava muito mal, com muitas dores e diz que entregou “na mão de Jesus”, apesar de não ser católico praticante. Pode-se dizer que entre os jovens investigados, Deus aparece como o senhor da vida e da morte, ele é quem decide o momento da morte, isso fica explícito na frase “Até a hora que Deus quiser”. Faria e Seidl (2005) afirmam que “encontra-se, freqüentemente, em relatos de pacientes de diversas religiões, alusão a causalidades religiosas de suas doenças assim como da cura desses males, ilustrada por falas como: Deus quis assim ou Se Deus quiser ficarei bom” (p.382). Porém, no relato dos jovens nenhum deles atribuiu a Deus a responsabilidade pela infecção ou pela resolução de seus problemas, pelo contrário, Graciele, por exemplo, pontuou a sua responsabilidade no tratamento.

“Graças a Deus estão tudo aí com saúde (os filhos). Eu devo a Deus e a eu também, que eu me cuidei também com os medicamentos certos. Se eu não tivesse me cuidado, né, não estavam bem aí com saúde”.

A jovem começa agradecendo a Deus pela saúde de seus filhos, por eles não terem se infectado com o vírus, mas em seguida atribui a si a responsabilidade pelo cuidado e pela saúde deles. A religiosidade e a fé podem favorecer a adaptação e o ajustamento das pessoas à condição de saúde, servindo como apoio e esperança em momentos adversos, sendo

obstáculos no cuidado somente para aqueles que atribuem toda a responsabilidade pelo cuidado e cura a uma força superior.

Entre os jovens investigados a referência a Deus apareceu nos relatos mesmo daqueles que se disseram não religiosos. Tendo em vista que o diagnóstico positivo para o HIV aparece muitas vezes como decreto de morte antecipada, colocar na mão de Deus a responsabilidade pelo seu tempo de vida, é tirar o medo da morte de seu encalço, é pensar que independentemente de um vírus ou uma doença, quem decide quando alguém irá morrer, é Deus. Assim, acreditar que uma força superior “tem nas mãos” essa decisão é se conformar com a mortalidade, com a finitude escancarada pelo exame anti-HIV positivo.