3 JUVENTUDE E CATOLICISMO NO BRASIL
3.4 Religiosidade como dimensão humana
A religiosidade é entendida segundo Simmel (1968) como uma dimensão humana, ou seja, todos e todas têm em si uma religiosidade que os envolve e lhes confere sentido à vida. Simmel concebe a sociedade como uma forma de reciprocidade “há sociedade onde há ação recíproca dos indivíduos e sociologia é o estudo das formas da socialização”, ele entende a sociedade de um ponto de vista dinâmico, que constantemente se faz e se desfaz e por isso que ele prefere falar de socialização e não de sociedade, no estudo dos múltiplos modos com que os homens entram em relação e fazem a sociedade. Religiosidade, portanto, será conceituada para Ribeiro (RIBEIRO, 2006 p. 115) da seguinte forma “uma dimensão humana, histórica e culturalmente determinada, que se abre à transcendência, mobiliza energias e se materializa em formas cognitivas e emocionais na construção de sentido para a totalidade da existência”.
O homem é naturalier religioso. A religiosidade é um modo de ser do homem, quer ela tenha, agora, um conteúdo, ou não, quer esta característica possa ser incorporada ou não, numa fé. Assim como é inteligente, erótico, justo ou belo, assim é religioso:
o ser religioso, portanto, é uma maneira primária, absolutamente fundamental, do ser. (SIMMEL, 1968, p. 75).
Simmel é um crítico das religiões cristalizadas em conteúdos dogmáticos e quadros institucionais, ele assume uma postura “agnóstica”, mas reconhece a dignidade desse fato e sua permanência conforme, Ribeiro (2006).
Para esse pensador, os objetos religiosos são exclusivamente fatos da consciência, representações dotadas de sentido e fontes de energia para quem acredita neles. Ao postular que a dimensão religiosa é radicalmente humana, Simmel revela sua natureza profunda, a se recriar permanentemente na história, nas manifestações culturais e na multidão de ações interindividuais. (RIBEIRO, 2006, p. 115).
O fenômeno religioso é dinâmico e evolutivo, também é um fato histórico que tem sentido e está intrinsecamente ligado ao “divino”. Simmel segundo Ribeiro (2006) analisa
a religião ao mesmo tempo como forma e como conteúdo, de um lado como a formalização particular da existência humana, formas são categorias a priori da experiência histórica que permitem estruturar o real numa multiplicidade de perspectivas - ora artística, religiosa, científica, ética ou lúdica. As formas são aplicáveis a todo e qualquer conteúdo, o que explica a diversidade, mas também a unidade de mundos que modelam, do outro lado temos o conteúdo particular que entra nas formas gerais de socialização, conteúdos são as pulsões, interesses, objetivos, tendências e movimentos psíquicos que se tornam sociais quando se inscrevem concretamente no Estado, em comunidades religiosas, grupos econômicos, famílias e outros. O ser religioso, artístico ou cientifico não existe em estado puro, estes fazem combinações singulares dessas formas.
O religioso não se define unicamente através dos objetos sociais (as “religiões”) nas quais se manifesta de modo compacto e concentrado. O religioso é uma dimensão transversal do fenômeno humano, que trabalha de modo ativo ou latente, explícito ou implícito, em toda a espessura da realidade social, cultural e psicológica, segundo modalidades próprias a cada uma das civilizações. (HERVIEU-LÉGER, 1999. p.
19).
A religião para Simmel é uma forma de ressignificação do mundo, ou seja, uma formalização particular do mundo, “o religioso não constitui um setor particular da realidade social, que se justapõe aos outros, mas uma formalização de toda a vida, na realidade, existe ao lado de outras formalizações – artística, cientifica etc.” Simmel não se interessa pela realidade dos objetos religiosos, ele os apreende apenas como fatos de consciência, representações que fazem sentido para as pessoas que deles são portadoras e que são fonte de energia para elas.
Antes de ser um mundo objetivo de crenças sedimentadas culturalmente e reguladas institucionalmente com mais ou menos sucesso, a religião constitui de início, para Simmel, uma função “subjetiva humana”. Assim como precisamos distinguir entre o processo pensante e o mundo objetivo que constitui seu conteúdo, devemos também distinguir entre o conteúdo religioso em sua existência e valor objetivo, e a religião considerada como função subjetiva humana. E assim como o conhecimento não cria a causalidade, e sim a causalidade o conhecimento, “do mesmo modo, não é a religião que cria a religiosidade, e sim a religiosidade que cria a religião”.
(HERVIEU-LÉGER & WILLAIME 2009, p. 136).
Simmel (apud IVERNEL, 1999) concebe a religião ainda como “coincidentia oppositorum”, a coincidência dos opostos, uma expressão de Nicolau de Cusa (séc. XV), “as tendências incompatíveis da alma encontram a pacificação e a solução de suas contradições na atitude religiosa”, pois a religiosidade introduz na existência uma unidade de sentido mais profundo. A religião é posse e desapossamento, ter e não-ter. Para Simmel, tanto a miséria como a opulência geram deuses, tanto a pobreza como riqueza geram religiosidade, no
entanto como a religião pode dar um sentido tanto à riqueza quanto à pobreza, por esse motivo não é redutível, pois não legitima nem uma nem outra; “a religião brota do demasiado cheio da alma que, não tendo mais lugar suficiente para conter sua felicidade, projeta-a, por assim dizer, no infinito, afim de que este restitua a felicidade a ela” (SIMMEL apud IVERNEL, 1999, p. 132).
Simmel define ainda a religiosidade como “piedade”, um tipo particular de sentimento emocional. A piedade, que é a religiosidade num estádio quase fluido, não se cristaliza, necessariamente, em formas estáveis de comportamento em relação aos deuses, isto é, em “religião”, mas permanece como uma atividade do espírito que permite a sua formação,
“há uma extraordinária analogia entre o comportamento do indivíduo com relação à divindade e seu comportamento para com a sociedade” (SIMMEL, 1997, p. 157).
Fonte da piedade, a fé é, sobretudo, uma atitude de confiança, uma relação entre humanos. Segundo Willaime (2001) essa fé prática pode estabilizar-se na sociedade, na família, em si mesmo e em Deus (objeto de crença por excelência). Para Simmel (1997), esses aspectos manifestam a capacidade de a fé harmonizar a vida em suas fontes mais profundas.
É usual que a fé em Deus e em si- mesmo ofereçam um senso de confiança no futuro. Considere-se quantas coisas se pode fazer pelo simples motivo de que se acredita que se pode fazê-las. A fé prática é uma qualidade fundamental da alma e é sociológica na essência, isto é, se concretiza como uma relação com alguém exterior ao eu. Ela é à base da natureza humana. As diferentes formas de fé (em outra pessoa, em si- mesmo, em Deus) encontram-se tão relacionadas porque são variadas expressões (sociológicas) da mesma tensão espiritual. (SIMMEL, 1997, p. 169)
O homem experimenta tanto um desejo de liberdade quanto um desejo de dependência, desejando ora ser um todo ora ser um membro de um todo. Simmel nos apresenta uma ideia de construção de uma unidade social, dando o exemplo de “modelagem religiosa”, ou seja, é representação ideal de concordância e de luta entre seus membros, “a construção da unidade social provoca uma reação religiosa, se orienta na direção de um Ser autossuficiente, a quem damos o nome de Deus” (SIMMEL, 1999. p. 92).
Ao pensarmos como a juventude vive essa religiosidade, estamos buscando como a religiosidade confere e dá sentido aos jovens, neste caso especifico, os jovens que estão inseridos nos diversos grupos de jovens que fazem parte da Pastoral da Juventude, como Simmel já nos disse, a religiosidade faz parte da dimensão humana e lhe confere sentido à vida. Segundo Tomazi (2013) as explicações tradicionais da religião, tais como a de fato social de Durkheim, de ideologia encontrada em Marx ou a de modelo mental de Weber,
parecem insuficientes quando se pretende compreender o sentido e o significado da religião para os jovens hoje. O cotidiano juvenil é rico de religiosidades.