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2. IDENTIDADE NO FOCO DO TRATAMENTO: CLÍNICA-DIA, SEU PÚBLICO E

2.5. Grupos e Atividades

3.5.1 Religiosidade e Auto-ajuda

Existem, por fim, dois grupos de atividades realizados na clínica-dia que, ainda que não contem em si mesmas com um grande número de adeptos, representam um importante aspecto da instituição que é a mobilização de explicações espiritualistas ao lado de outras investidas terapêuticas. Uma das atividades é chamada de Grupo de Motivação e era realizada semanalmente por um voluntário que tinha como objetivo trabalhar com o tema da motivação dos frequentadores da clínica ou, mais importante, sua capacidade de “auto

motivar-se”59, uma vez que este se mostraria um dos problemas que afetava grande parte dos pacientes na perspectiva deste terapeuta. Uma prática comum do Grupo de Motivação, e nas demais atividades que qualifico dentro deste grupo de religiosidade, era a leitura de mensagens de auto-ajuda60 que, em geral, como afirmei anteriormente, eram retiradas de um site espírita. Elas cumpriam aqui um papel semelhante ao desenvolvido nos “grupos de fala”

mas aqui não se produzia tanto a dimensão da exposição pessoal, mas um refinamento do conteúdo moralizante destas mensagens, que sempre endereçavam uma crítica direta ao modo como cada indivíduo parecia conduzir suas próprias vidas e, mais importante, um conteúdo religioso e, em geral, orientado por perspectivas espiritualistas de encará-lo. Neste grupo, os profissionais responsáveis são voluntários e manifestam um interesse ao mesmo tempo caritativo e assistencialista no exercício de suas atividades, fazendo que não haja aqui uma discussão – como acontece em outros grupos – sobre reforma psiquiátrica ou aspectos psicossociais da saúde mental. Todos os conceitos, por assim dizer, que são repassados nestes grupos são frutos ou de experiência pessoal do voluntário – histórias de vida, leituras feitas, opiniões, pontos de vista, etc. – ou de, neste caso, pertencimentos religiosos. Em ambos os grupos que descreverei a dinâmica de realização é a de exposição de mensagens e imagens, seguidas de comentários feitos pelo voluntário responsável. Não existe muito empreendimento na discussão em torno das opiniões específicas das pessoas sobre o assunto, o que dá aos grupos uma imagem de “palestra”, como eventualmente são chamados pelos pacientes.

Numa das ocasiões em que participei do grupo de motivação o objetivo do voluntário era discutir a distinção entre intuição, intenção, inspiração e suas diferentes representações na vida das pessoas. Para promover a distinção entre os termos ele apresentou, neste dia, um vídeo com uma palestra sobre os termos que eram tomados, a partir da fala da palestrante do vídeo, como fenômenos bastante diferentes na vida das pessoas e para os quais se precisaria prestar atenção com o fim de alcançar um desenvolvimento humano adequado. Ainda que isto não fosse considerado relevante pelo responsável pela atividade, que afirmou tratar-se o vídeo de uma palestra realizada por pessoas religiosas e de bem, a fala fora concedida no que parecia ser um ambiente espírita e assumia as características das palestras sobre doutrina espírita que geralmente caracterizam os encontros em centros espíritas: mesa de toalha branca; com sujeitos também trajando branco em posição de concentração; imagens de Allan

59 A “motivação” é usualmente considerada como algo que precisa “brotar” do próprio sujeito, isto é, a motivação tem que partir das próprias pessoas.

60 Para uma noção apurada do tipo de mensagens de auto-ajuda presentes na clínica, visualizar Anexos.

Kardec e Jesus. Ainda que a informação não fosse compartilhada pelo terapeuta, mais tarde vim a saber que os conteúdos abordados naquela atividade eram sempre conduzidos a partir de uma perspectiva espírita kardecista, mas sem vincular explicitamente esta forma de religiosidade às práticas do grupo de motivação, que tinha como objetivo veicular imagens, vídeos e mensagens que pudessem suscitar a motivação nos pacientes.

A fala sobre intuição, intenção e inspiração é crucial para se compreender o objetivo deste grupo e como ele se relaciona com os demais grupos no sentido de uma justificação mútua da ideia de que o corpo, a fala e o espírito são constituintes do ser humano. Isto se dá pois é possível observar que, ainda que cada grupo aborde aspectos diferenciais, todos eles abordam indistintamente a problemática do desenvolvimento pessoal visando melhores relações com o mundo. Na perspectiva espírita a intuição seria um produto de memórias carregadas de vidas passadas para a mente atual de cada sujeito, ela seria verdadeira e teria um objetivo benéfico, funcionando como um sinal para guiar práticas da pessoa. A inspiração, neste mesmo caminho, seriam mensagens insufladas a partir de espíritos bons ou não, que sugeririam ideias, práticas, pensamentos. A realização ou não destas mensagens ou sensações intuídas, no entanto, dependeria somente do sujeito que usando de seu livre-arbítrio poderia optar ou não por praticar, por um lado, novamente atos que em outras vidas o sujeito possa ter tido mas que o corpo atual não teria carregado integralmente e, por outro, atos que seriam sugeridos mas que não seriam benéficos para o sujeito. O pensamento pessoal tem importância crucial neste processo, pois a mensagem intuída e/ ou insuflada por outras instâncias assume forma de uma sensação e cabe ao sujeito administrar a presença de bons pensamentos, o que atrairia para a vida da pessoa intuições e práticas também positivas61. A intenção está diretamente conectada com esta dinâmica dos pensamentos pessoais, pois seria a partir da intenção que toda a vontade interior, a motivação pessoal se manifestaria, buscando organizar e atrair coisas boas para a vida de cada um. Foi nestes aspectos que a fala do terapeuta se concentrou, mostrando outros vídeos de crianças prodígio ou de grandes realizações humanas, apontando para o quão benéficos os pensamentos podem ser quando alimentados por boas práticas individuais.

O segundo grupo é mais claramente vinculado ao espiritismo, sendo reconhecido como grupo de Espiritismo pelos pacientes e como fala do voluntário espírita, pela equipe.

Também aqui existe a mobilização forte de mensagens de auto ajuda, mas é na doutrina espírita que se concentram as discussões da voluntária que, nas ocasiões em que participei do

61 O conteúdo desta explicação se encontra disponível no vídeo de cujos trechos o palestrante retirou suas explicações. Ele se encontra disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=dJi37B6jID8.

grupo, veiculava por entre os momentos de leitura das mensagens explicações sobre o que era o espírito e o que isto significava; como a felicidade e outras sensações poderiam estar relacionadas com a presença de bons ou maus espíritos e etc. Numa das ocasiões em que participei do grupo outra alternativa utilizada pela terapeuta foi a proposição de um grupo de relaxamento e meditação, como nomeou um grupo de movimentos que pretendia conduzir a uma recepção de energias positivas paralelas a um momento de auto-reflexão do sujeito.

Aqui, também fica muito evidente o acionamento da ideia de auto-ajuda, ou da motivação, mas é mais forte a mobilização de explicações espíritas ou a explicação a partir de categorias propriamente kardecistas. Conforme apontou Stoll (2002) existe no contexto espírita brasileiro, em especial após a entrada de Luiz e Zíbia Gasparetto no cenário editorial, uma incorporação da cosmologia dos movimentos New Age na produção espírita, reinterpretando a tradição cristã e espírita à luz de um discurso de auto-ajuda (p.388). Esta reinterpretação, aponta Stoll (2002), teria incluído no caso da experiência de Luiz Gasparetto a utilização de diversos discursos terapêuticos tais como “o uso da música, da expressão corporal, de técnicas de relaxamento e do psicodrama, bem como da representação teatral” (p. 390). O contexto de realização das atividades que remetem a alguma discussão religiosa na clínica-dia se beneficia diretamente deste tipo de associação entre a auto-ajuda e a espiritualidade, pois se constrói um tipo de discurso onde a terapêutica é ao mesmo tempo tomada como propriamente psiquiátrica mas não exclusivamente medicamentosa, realizando um tipo de síntese que é tida como importante para a grande maioria do público desta clínica.

Através de práticas como a meditação, o relaxamento, a própria Yoga,o Tai-Chi, Reiki, que são atividades que mesclam distintos campos de interpretação, se torna possível uma compreensão do fenômeno religioso como proposição simultaneamente terapêutica e de desenvolvimento pessoal – compreendido como a trajetória individual de cada pessoa, envolvendo aspectos corporais, espirituais e sociais. Falando especialmente do caso do Tai-chi e da Yoga, Lau (2000), afirma que através destas atividades “individuals are equipped – and almost obliged – do address issues of the self, modernity, and globalization through personal practice” (p. 95). Como em outras atividades, tais como a aromaterapia e alimentação macrobiótica, que também apareceram em alguns momentos nos discursos dos pacientes da clínica, a autora também afirma que este pacote – envolvendo o pessoal e o político – vem dentro da própria dinâmica da modernidade e do individualismo (Idem).

Acionar este tipo de modalidades terapêuticas, portanto, não diz necessariamente de uma forma de falar exclusivamente do espiritismo – a despeito deste pertencimento – mas da atualização de uma forma de religiosidade tipicamente contemporânea e de uma maneira de

“manter-se” parte da própria noção de pessoa que acompanha este tipo de desenvolvimentos identitários.

* * *

Neste capítulo busquei realizar uma reflexão sobre aspectos da organização da clínica-dia e de suas dinâmicas internas de funcionamento. Todas as sessões discutidas representam uma tentativa de compreender, de modo mais específico, relações em níveis importantes de organização dos trabalhos cotidianos. O primeiro destes níveis diz respeito aos pacientes, suas características, suas narrativas, trajetórias e motivos que os fazem estar na clínica-dia. Pensar o lugar dos pacientes e a forma como são encarados do ponto de vista da equipe é um passo importante para compreender como as classificações internas circulam, sobretudo quando pensamos que cada um destes sujeitos é, ao mesmo tempo, lido a partir de aspectos individuais (tem um CID específico, tem uma anamnese específica, medicamentos específicos) e de aspectos socializantes, na medida em que é reagrupado na condição de

“doente”. Em seguida busquei apresentar debates sobre as noções de normas e as relações com a hierarquização de atividades dentro da clínica-dia. Pacientes são lidos pela equipe sobretudo pelo potencial individual de responderem a uma terapêutica que se pretende ressocializadora e reintegradora. Não obstante, esta mesma estrutura terapêutica, organizada em distintos níveis, pressupõe uma mesma capacidade de absorção das propostas e uma forma homogênea de compreender a estrutura das “atividades”. Disto brotam tensões que não são por todo resolvidas e que, não obstante, culminam com a saída dos pacientes daquele espaço e com classificação de novos “desviantes”, isto é, aqueles que não aderem ao tratamento.

Pensar esta aspecto é importante para, como veremos nas sessões posteriores, compreender como a proposta “ressocializante” da clínica produz distintas maneiras de compreender a saúde mental e, não necessariamente, conduz a uma ideia de “cura”. Por fim, na descrição das atividades e grupos, buscou-se abordar o que são as características centrais da “vida dentro da clínica-dia”, na medida em que é por elas e a partir delas que toda a estrutura é organizada. O conteúdo dos grupos é resultado tanto da ótica “holística” que se busca trazer para o contexto da instituição, quanto de aspectos que perpassam a constituição das terapêuticas e os objetivos que se espera alcançar com elas. Os grupos são a maneira mais concreta a partir da qual se pode falar de um tratamento em saúde mental e é por meio deles que se empreende todo o esquema interpretativo e classificatório que permeia a relação médico-paciente e o itinerário do paciente dentro da clínica.

3. SIMBÓLICAS DA SAÚDE MENTAL: CLASSIFICAÇÕES,