A expressão religiosa através do agnosticismo é a que mais transparece na formação poética de Fornari. Seria um agnosticismo, segundo a definição que aproxima Galván (1987, p. 61) “mínima e imperfecta”, pois o agnosticismo, para Galván, considera Deus - enquanto ente religioso -, como uma hipótese sem comprovação, ao passo que crê em uma substância divina digna de fé. Assim não se define claramente a posição do autor, ela oscila agnosticamente num processo dicotômico entre razão e fé.
Entendendo a busca interior como um preceito simbolista - pois, como foi dito, o momento histórico era de retorno a percepção do “eu”, em contraponto à matéria universal - e sendo a religião uma tentativa de alcance do Eu, percebe-se a presença do espiritual, religioso e sagrado unidos em síncrese como instrumento ao alcance da problematização subjetiva. Sem um confinamento rígido, as expressões religiosas afloram na poesia, conferindo um mecanismo tríade de crença, símbolo e palavra metaforizada, como aparece no poema abaixo:
Compensações
Gloria ao Ser que a meu ser deu fórma pura e extrema! -Sêja Tupã, Moloch, Allah, Brahma ou Jeovah -
E este aspirar me deu á perfeição Suprema, E esta alegria sã que em mim cantando está! O prazer equilibra. A dôr depura e emblema
De harmonioso contraste à vida e aos bens que dá. A fé salva. O labor liberta. O abuso algema.
A natureza é linda e a Vida não é má.
A dôr, o riso e o pranto; o sol, o aroma e a lama;
E o beijo e a carne, e o amor de uma mulher que se ama, Tudo o que alegra e punge á Vida nos conduz.
Depois de um desengano – uma ilusão mais forte! E, emfim, por chave de ouro, o epilogo na Morte: Um corpo dando seiva; uma alma dando luz!
O poeta parte de uma bem-humorada análise metafísica da vida – Glória ao Ser (com S maiúsculo) que a meu Ser deu forma. Invoca agnosticamente os
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deuses Tupã, deus dos índios tupi-guarani; Moloch, um demônio bíblico; Allah, o deus árabe; Brahma, um Deus hindu e Jeovah, o Deus bíblico. Chega-se a uma teoria da criação na qual a criatura carrega compensações para fases alternadas de felicidade/tristeza, amor/ódio, vida/morte. A relação com o sagrado/divino é tema recorrente entre os simbolistas; através do exercício espiritual, o poeta chega ao mistério poético.
Percebe-se o mergulho na alma, com uma enxurrada de sentimentos que questionam as certezas estabelecidas pela sociedade. Esse mergulho perscruta os sentimentos de perda, solidão, abandono, incerteza de uma alma que está se redescobrindo e redescobrindo o mundo ao seu redor, tanto o mundo material como espiritual, pois estes se fundem na construção dessa nova trajetória híbrida. “A fé salva. O labor liberta. O abuso algema”. Nesse verso se verifica um questionamento brando, ao mesmo tempo em que o poeta aceita os dogmas, os problematiza quando levados aos excessos. “A fé salva” acena Fornari em concordância, mas fé em quem? Em quê? Seria essa fé uma motivação espiritual e por isso salva?
A todo instante aparece a consciência da instabilidade. Ao dizer “Depois de um desengano – uma ilusão mais forte”, o poeta anuncia a harmonia rompida, ao invés de invocar o espírito brando, apaziguador, de que as coisas depois dos obstáculos tendem a melhorar. E, enfim, por chave de ouro, o epílogo da morte: “Um corpo dando seiva; uma alma dando luz!”. A ideia da morte como triunfo, do cadáver como seiva à nova vida e de uma permanência do espírito.
No poema “Porta do Céu” o poeta ironiza e mescla sentimentos religiosos e mundanos. Monta uma estrutura dialógica do sagrado e profano e alcança o espírito perturbador moderno.
A Porta do Céu
Toda a corte sorriu quando a princesa alada, Lírio de sangue azul, alma de lírio doente - Afirmou existir no céu opalescente
Uma porta de luz, de estrelas cravejada... Até o rei sorriu... E a princezita crente Quasi chorou com dó da côrte condenada.
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Espadachim sem crenças, não sorriu descrente... -Ah! Vossa alma é do céu!- diz ela ao conde, quando Dançavam no jardim – Sois crente? ... Ao que levando Aos cópos do espadim a mão, nobre, taful,
O incorrigível diz, curvando o joelho ao piso: Creio, alteza ... que a porta Azul do paraiso Seja a porta, por Deus, de vossa alcova azul!...
O artifício metafórico da “Porta do Céu”, dentro do contexto cristão, é de um acesso, de uma passagem para o espaço do firmamento, sublime e puro, o Reino de Deus. Já essa passagem, para o Don Juan, insinua uma postura libertina, que subverte o sentido literal e desdobra o poema em uma conduta arriscada e provocativa. Aparece o sentido dúbio da palavra, que é empregada intencionalmente para expor “o jogo de sentidos”. A estrutura lírica do soneto é composta por um jogo rimado nas sílabas alternadamente dispostas. O autor resgata o “azul” e o “lírio” do poema “Flores10” de Mallarmé:
Tu fizeste a brancura soluçante dos lírios
Que circulam sobre o mar de suspiros que aflora Através do incenso azul de horizontes ímpios, Tudo sonhando sobre a lua que chora!
Aparece, novamente, a multiplicidade de sentidos com o “Lírio” - “Lírio de sangue azul”, a princesa pura e ingênua, “alma de lírio doente”, fraqueza e delicadeza. A flor pode ser também símbolo de glória, de sucesso. Como na tradição bíblica, o lírio é o símbolo da escolha da amada: “Como o lírio entre os cardos, assim minha bem-amada entre as jovens mulheres” (Cânticos dos Cânticos, 1:2, apud SILVA, 2008) . Outra ambivalência sugerida por Chevalier é bem ressignificada no poema; pode-se sugerir que a conduta da princesa não se marcava por ingenuidade apenas, mas como uma tentação, disfarçada com “ares celestiais”:
Foi colhendo um lírio que Perséfone foi arrastada por Hades, enamorado dela, através de uma abertura repentina do solo, para seu reino subterrâneo; o lírio poderia nesse sentido simbolizar a tentação ou a porta dos Infernos. Na sua Mitologia das plantas, Angelo de Gubernatis julga que se atribui o lírio a Vênus e aos Sátiros, sem dúvida por causa do pistilo vergonhoso, e que, portanto, o lírio é um símbolo de procriação; o que, segundo esse autor, teria sido a causa dos reis da França o terem escolhido como símbolo da prosperidade da raça. Além desse aspecto fálico, Huysmans denuncia em La
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Disponível em: http://www.revistazunai.com/traducoes/stephane_mallarme_2.htm. Acesso em 10 de julho de 2009.
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Cathédrale seus eflúvios pecaminosos [ponto de vista cristão]: seu perfume é bem o contrário de um perfume casto; é uma mistura de mel e pimenta, alguma coisa de acre e adocicado, de fraco e de forte; parece com a conserva afrodisíaca do Oriente e com os confeitos eróticos da Índia. Poderiam ser lembradas aqui as correspondências baudelarianas desses perfumes: que cantam os arrebatamentos dos espíritos e dos sentidos.
(CHEVALIER; GHEERBRANT, 1998)
A cor azul era constantemente invocada pelos poetas simbolistas, desde o azul como firmamento, como símbolo da redenção, até o azul como morte. Mallarmé em seu poema “L’azur” (CAMPOS, PIGNATARI, CAMPOS, 1991, p. 43), invoca o mistério do azul, em tom transcendental, descrevendo o ofício ingrato do poeta, e no final clama pelo azul como a única tradução para seu “assombramento”: L’azur,L´azur, L´azur, L´azur!. O azul de Fornari não é menos enigmático, o autor dialoga com o mistério sensorial, vagando entre o tom de liturgia e a ousadia.