2. CAPÍTULO I: TRAJETÓRIAS DOS RELOJOEIROS
2.1 Relojoeiros mecânicos
2.1.2 Relojoeiros mecânicos de pulso
Dentre os especialistas em relógios de pulso, o que tem mais tempo de trajetória no ramo é Fernando, relojoeiro aposentado que atua como professor de um curso de relojoeiro oferecido pelo Sijoias.53 De origem nordestina, ele chegou em São Paulo em 1971, aos vinte e sete anos para trabalhar como Engenheiro Civil, sendo ele formado em Contabilidade.54 Contudo, ele percebeu que o ramo de relojoaria estava no auge, já que os profissionais ganhavam muito bem, o que fez ele sair da profissão de administrador de empresas (na qual trabalhou por um ano) e iniciar no ofício do relojoeiro, tendo toda trajetória em empresas de relógios (como as marcas Technos e H.Stern). Seu relato mostra que a ocupação de relojoeiro continuava gozando de prestígio nos anos 1970 na cidade de São Paulo, com grandes rendimentos (até maiores do que funções que exigem maior escolaridade, como administrador de empresas) que atraíam interessados a exercer a ocupação, não ficando esta restrita a uma relação familiar para ser transmitida.
Na década seguinte, foi a vez de Roberto e Luciano iniciarem na ocupação. O primeiro55 é empregado de uma relojoaria que se localiza no interior de um hipermercado da zona norte de São Paulo. Ele é de uma família de relojoeiros, sendo que foi seu tio que iniciou essa tradição nos anos 1960, fazendo o curso de relojoeiro no Instituto Universal Brasileiro, na Avenida Rio Branco. Ao perceber que a ocupação do relojoeiro estava dando dinheiro, seu tio deixa o trabalho de garçom e se muda para Minas Gerais, onde começa a trabalhar no ofício, chamando seu irmão a trabalhar com ele. Anos depois, é o irmão mais velho de Roberto que inicia na ocupação, tendo a sua própria relojoaria no início dos anos 1980, que era próxima a casa de Roberto. Ele então, foi convidado a trabalhar com seu irmão aos onze anos de idade, e seu início de aprendizado se deu como office boy e consertando despertadores. Para além do aprendizado na prática através do mestre, Roberto realizou um curso de relojoeiro num centro pertencente
52 A comparação entre os diferentes setores de relógios quanto ao vínculo e rendimento será feita mais adiante.
53 Entrevista realizada no dia 23/07/19, na sede do Sijoias localizada na região central da capital paulista.
54É preciso refletir se Fernando de fato trabalhou como Engenheiro Civil ou se ele está se designando subjetivamente numa ocupação institucionalmente reconhecida (Engenheiro) em substituição a ocupação que ele formalmente exercia (provavelmente numa área próxima à Engenharia como Topógrafo), considerando que ele era formado em Contabilidade.
55 Entrevista realizada no dia 18/09/20 por telefone.
ao relojoeiro de nome Amilton Cestari, não concluindo o curso por falta de recursos. Depois disso, trabalhou em relojoarias, sendo que na atual ele está há 27 anos.
Já Luciano56 exerce o ofício numa oficina dentro da ótica de sua esposa, na zona leste da cidade de São Paulo. Ele narra que o seu início na ocupação se deu no contexto de fins da Ditadura civil-militar, marcado não só pela redemocratização, mas também pela crise econômica: Luciano perdeu o emprego na área financeira e estava desempregado, quando foi chamado pelo seu irmão a trabalhar em sua oficina de relógios, iniciando seu aprendizado no ofício. Tempos depois, soube de um curso no SENAC de técnico em relojoaria e sendo incentivado por familiares e amigos, realizou o teste para entrar no curso, tendo sido aprovado.
Foi no SENAC que se deu a sua formação como relojoeiro, no entender dele, abrindo portas para que ele trabalhasse numa assistência técnica parceira do curso.
Comparando-se estes três relojoeiros, nota-se que todos eles possuem origens populares, de pais que realizaram ocupações com baixo rendimento e que não necessitam de alta escolaridade. No entanto, percebe-se uma mobilidade social em Fernando, que tem formação superior completa e ao longo da sua trajetória nas assistências técnicas foi aumentando fortemente seu rendimento, se aposentando com a renda de 10.000 reais. Isso pode ser explicado por Fernando ter trabalhado em assistências técnicas nos Estados Unidos, que remuneram mais o relojoeiro, segundo ele. Já Luciano, que trabalhou em assistências técnicas na cidade de São Paulo até virar autônomo há quinze anos, não alterou seu rendimento conforme o tempo, segundo ele, se mantendo em 2000 reais.57 O baixo salário nas assistências técnicas é enfatizado por Roberto, que no início dos anos 2000, recebeu convite de uma assistência de marca suíça de relógio, mas ao constatar que o salário era baixo, optou por permanecer na relojoaria onde trabalha atualmente. De fato, enquanto contratado dessa relojoaria, Roberto narra que seu rendimento aumentou conforme o tempo.
Além disso, se Fernando iniciou na ocupação num momento ainda de auge do relojoeiro e do relógio mecânico, com elevados rendimentos, Roberto e Luciano iniciam na ocupação no momento de crise da relojoaria mecânica: o primeiro destaca que a década de 80 foi marcada pela onda de relógios eletrônicos58 e pela redução dos serviços em relógios mecânicos, prejudicando os relojoeiros mecânicos que era a imensa maioria da mão de obra e necessitavam buscar formação na área de eletrônica para poderem sobreviver e se destacar no mercado.
56 Entrevista realizada no dia 05/02/21 por telefone.
57 Outro fator que explica o baixo rendimento de Luciano é pelo fato de ele prestar serviços para relojoarias enquanto terceirizado. Exploraremos o aspecto da terceirização do trabalho do relojoeiro no capítulo II.
58 Analisaremos mais profundamente as transformações no ofício de relojoeiro, pela digitalização dos relógios, mais adiante.
Contudo, apesar de Roberto e Luciano terem feito cursos de relojoeiro, o primeiro destaca que haviam poucos cursos neste período, havendo a queda de aprendizagem do relojoeiro:
Em oitenta e cinco começou a onda de eletrônico, os relojoeiros mecânicos ninguém sabia mexer com relógio eletrônico, meu irmão sabia. Ele me ensinou antes do curso, então quer dizer, ele se destacava por consertar relógio eletrônico. E era assim: o relojoeiro procurado era que consertava relógio eletrônico, o mecânico ninguém…
tinha quinhentos relojoeiros para consertar o mecânico e um para consertar o eletrônico, vamos supor que não sabia direito, porque não tinha curso, tá? Não tinha curso, não tinha equipamento, no passado era muito difícil, tá? Então quer dizer, poucos relojoeiros aprenderam isso, teve uma queda na aprendizagem do relojoeiro porque ninguém se dedicava a isso (Roberto).
O período de crise do ofício diante da digitalização trouxe implicâncias não só para a formação técnica do relojoeiro (de necessitar se especializar nos relógios eletrônicos, sendo escassos os cursos de relojoeiro) mas também para o interesse de pessoas (principalmente jovens) de praticar o ofício, inclusive por meio de relações familiares de aprendizado da ocupação. Apesar disso, nos tempos atuais encontramos um relojoeiro jovem que teve essa influência familiar para a iniciação no ofício: Thiago59, que tem 25 anos e aprendeu com seu pai João a ocupação. Além do mais, essas relações familiares também se fazem presente nas vivências de Thiago, pelo fato dele trabalhar numa relojoaria familiar que tem como proprietária e administradora a sua mãe, e que ainda conta com a atuação de seu pai enquanto relojoeiro aposentado. Assim sendo, Thiago considera que é relojoeiro desde que se conhece por gente, desenvolvendo sua habilidade manual desde criança e realizando sua primeira revisão de relógios aos treze anos. Ele pondera que é muito difícil ser relojoeiro atualmente para além do aprendizado familiar, devido à ausência de escola ou curso de relojoeiro: “Desde que eu me conheço por gente eu respiro relojoaria, né. Eu creio que hoje no Brasil, fora esse jeito de pegar a profissão do pai, de pai para filho, de você herdar a profissão, é muito difícil ser relojoeiro, porque não tem escola, não tem um curso técnico.” (Thiago).
Além disso, o entrevistado considera que é difícil haver relojoeiros novos como ele, não conhecendo ninguém mais novo que exerça essa ocupação, o que aponta para a dificuldade de se haver jovens interessados em aprender o ofício (LONER; GILL, 2014). Para além de sua formação na relojoaria por meio do aprendizado com seu pai, Thiago realizou cursos na área da mecânica: o curso de ferramentaria do SENAI, trabalhando nesta área durante um ano; e o curso de Fabricação Mecânica na FATEC, o qual não concluiu por acreditar que a formação não agregaria uma informação técnica nem algo concreto para ele exercer a relojoaria. Entretanto,
59 Entrevista realizada no dia 28/08/20 por telefone.
isso não é compartilhado por seu pai, que considera que tanto o curso do SENAI como da FATEC possibilitou que seu filho tivesse uma destreza e uma habilidade de mexer no torno mecânico melhor do que ele. Deste modo, esses cursos contribuíram para expandir a qualificação de Thiago, que aos 19 anos começa a trabalhar na relojoaria de sua mãe, onde recebe um salário mínimo e tem o restante de seu rendimento obtido pelos serviços que realiza fora do estabelecimento.
A qualificação é entendida por Thiago como um fator que o levou para o ofício de relojoeiro: de acordo com ele, existem poucos relojoeiros qualificados a ponto de ter experiência de fazer um serviço de relógio, o que faz com que não haja muita concorrência. Seu relato mostra a consequência da escassez de cursos de relojoeiro na contemporaneidade, diminuindo a formação e o aprendizado de relojoeiros, aspecto que já aparecia nos anos 1980 como bem Roberto narrou.