parte apreciar-se, a
um
tempo, os fructos da sua erudição copiosa c as excellenciasdo
seu coração generoso.A alma
abria-se-lhe n'umas expansões tão desafogadas enumas
canduras tão maviosas,
que
descongelavam osânimos
maisfrios e
punham em
derrota as mais afincadas prevenções.Se retemperavam
aquelle caracter rigidezas diamantinas,30
fjiie se não lorciam, cncliíam aquelle coração affeclos ex-tremosos,
que
senão
estancavam.A
cruz,que
sanclificou a abnegaçãono
sacrifício mais auguslo c o evangelho,que
consagra ahumildade
nos ensi-nos mais sublimes,eram
os pharoes e os espelhos, aque
secompunham
e seguiavam
as sympalhicas singellezasda
sua modéstia e as raras ausleridadesda
sua virtude.Na
cul-minação
das honras e das dignidades,que eram
tanto mais para ensoberbecer quanto lhashaviam
conquistado traba-lhos e merecimentos próprios,nunca
lhe toldaram a cabeça oucnlumesceram
o espiritonem
as vaidades inanes,que
seremiram
e festejam a simesmas, nem
os orgulhos flatulen-tos, que seencruam
e sobraneeiam.E
a simplicidade a feição e o altribulo de tudo oque
nas espherasda
natureza, nas manifestações da arte ena
vida dahumanidade
mais sobresahe e seadmira como
as-signaladamente grande e singularmente bello.Na
vida,no
caracter e no trato do sr. D. António Alves Martins avul-tava relevante essa feição, eslremava-se singularisado esse atlributo.O
aspeito arrugado e severo parecia denunciarhomem
de condição adusta e Índole desconversavel. Illusão era essa,
que
se desfazia ao contacto e á primeira auscultação daquella bonissima individualidade.Ao
conversal-odepertorompia como
porencantouma
franqueza avivadade transpa-rênciasedespida derefolhos, eapard'ellauma
bondadc
sub-stancial e nativa,que
desbordavaem
cariciososextremos para os amigos,em commiseradas
condolências para os infeli-zes, eem
espontâneasbemquerenças
para todos.Das
frin-chas da fraga golfa
em
torrentes aagua
limpida,que
des-scdenta o viandante; das asperezasda
concha e do silex31
desenlranham-se as pérolas e o oiro, que
exornam
os dia-demas;debaixo
das rudezasda
córtex encelleiram-se mo-destamente suavíssimosfavosdemel.Assim
eraelle. Aquella apparente rudeza,que
se não avelludava de aftabilidades postiças e de amaciadas hypocrisias, era a forma, o invó-lucro e omolde
deum
grande espirito e deum
grandeco-ração.
Portuguez de lei
no
pensar e no sentir, daquellesque Sá
de xMiranda definiu e exaltoucomo
de
um
só parecer, d'umsó rosto, umasó fé, d'anlesquebrar que torcer,O sr. D. António Alves Martins viveu cmanteve-se
sempre no
ponto mais central e luminosodessa
linha equinocialda humanidade,
a qual senomeia
honra e de que jamais conseguiram distancial-o as contemplações,que
mais en-leiam, as influencias,que
maisquebrantam
e os exemplos,que
mais arrastam.Quem
era tão apontadono
culto da honra, não se mos-travamenos
fervorosona
religiãoda
amizade. N'esta fra-terna transfusão dos aífectos, nesta dulcíssimacommunhão
das almas,em que
se desenthesouram e alealdam ossenti-mentos
e os dotesdo
coração, era o sr. D. António Alves Martinsum exemplo
tão eminente eum
tãoacabado
mo-delo,
que
para o aquilatarem e applaudirem são persuasivo e sobejo testemunho as saudades pungitivas e as lagrimas sinceras de tantos amigos,que admiravam
esseexemplo
c estremeciam esse modelo. O' doce, consolativa e adorável religiãoda amizade
! Sobre os teus altaresqueimou
aqucllc incomparável e saudosíssimo araigo o incenso mais fra32
gratile (los seus affeclos, depoz os thcsouros mais preciosos
(la sua alma, verteu, cmrim, o olco mais puro da resplen-dida (í
immaculada
lâmpada,que
llie ardia lá dentro.Deus,
em
seus profundíssimos designios, havia abali-sado á sua vida aquelles ineluctavcis términos, que se não })ódem traspassar. Constituisli terminas ejus, qui preteririnon
poterunt. Sentindo,que
a morle lheandava
á voltado
leito, aíTrontou-a
animoso
e sereno.Pedindo espontaneamenteossacramentos,
apercebeuse com
este alentador e sanctissimo conforto para apróxima
c temerosa
viagem da
eternidade. Horas antes de render o espirito pronuncioucom
intremula e suavemodulação
de voz estas finaes e evangélicas palavras: só desejava viver para fazer maisbem
áhumanidade. Era
o derradeiro lam-pejo d'aquella luz, era o extremomemento
daquella cari-dade, era a ultima pulsação do seu coração a sagrar ofor-moso
epilogo da sua vida.Senhores.
Quando um
povo inteiro se inclina assimcommovido
e melancholico perante o féretro deum homem,
e sobre elle depõe piedosamente
uma
coroa engastada de bênçãos e saudades, e sente e faz tudo isto a impulsos de justiça e só porque essehomem
eraexemplarmente
hon-rado e sinceramentebom,
transfunde-nosbálsamo
a con-solaliva idéa, deque
não está tudo perdido, porque no co-ração desse povo nãomorreu
aindanem
a religiãoda
mortenem
a religiãoda
honra,que
são perennemanan-cial dos grandes feitos e dos heróicos sacrifícios.
Da
mor-talha de trevas sobreposta á sepultura cerradado
varão,que
se deplora, repontaum
fulgor,que
por ser alva deluz33
e esperanra realenia os ânimos abatidos e descscurece os prospectos do fului'o.
O
vaião alentado e justo, queem
sua vida acossadade trabalhos lanlo se esforçou e tanto fez pela religião, pela liberdade c pela pátria e tão relevantemente exemplificou as virtudes altíssimas da honra,da
caridade e da abnega-ção,bem
merece as recompensas e as coroas,que
ao fin-dar de tressuada lida estão promeltidas aos obreiros fieis e aos incansáveis pelejadores.As
demonstrações mais reverentes,com que podemos
sobreexaltar o prelado virtuoso e o cidadãobenemérito, não SC cifram Ião somente n'cstas piedosas e solemnissimas de-precações feitas á Misericórdia Divina, paraque
o haja por indultado das falias,que
são congéneres á frágil naturezahumana;
não se substanciam nas saudades, que sefundem em
lagrimas, nosmármores, que
se alteiamem
monumen-tos, nas