4. A DINÂMICA DO MDB EM ÂMBITO NACIONAL
4.3. O RENASCIMENTO DO MDB
Após os fatídicos resultados das eleições transcorridas, parte das lideranças emedebistas pregava a dissolução do partido, tendo em vista o maniqueísmo da luta política- eleitoral em um regime autoritário143. A ideia aos poucos foi deixada de lado tendo em vista que uma eventual dissolução do partido acabaria com o único abrigo legal de atuação oposicionista no Brasil, entretanto o embate entre as forças internas na oposição acentuou-se com o questionamento crescente a respeito da intensidade da atuação da oposição.
A correlação de forças internas no partido é alterada conforme a composição do MDB vai modificando ao longo de sua atuação. No início da década de 1970, o MDB, após a saída de adesistas que migraram para a Arena nos primeiros anos do regime, após a saída do cenário
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Pleito em que o MDB elegeu somente 87 deputados federais, enquanto a Arena conquistou 223 cadeiras na Câmara dos Deputados.
143 Skidmore (1988) advoga a favor da tese de que, a ideia fora deixada de lado tendo em vista que com os
principais líderes oposicionistas cassados, exatamente aqueles que pregavam um combate maior frente ao regime e que poderiam forçar a uma extinção da mesma, estes acabam por perder força de influência sob os rumos da legenda, facilitando assim com que os líderes remanescentes mantivessem a mesma na ativa e sob seu controle (p. 227).
de inúmeras lideranças que tiveram seus direitos políticos suspensos, bem como a derrota eleitoral de tantas outras lideranças oriundas com vínculos nas legendas agora extintas, vítimas da fragilidade exposta pela nova legenda frente às adversidades impostas pelo regime, torna-se um terreno fértil para a emergência de jovens lideranças que, imbuídas de poder político, acabam forçando a agremiação a adotar estratégias e táticas diferentes na contestação ao regime144.
Esta alteração da composição colaborou para que, livres das amarras dos extremos que ocupavam a legenda, o MDB conseguisse, mesmo com discordâncias internas a respeito da intensidade da ação da oposição, construir uma plataforma mínima que homogeneizasse os mais variados atores que ainda militavam no partido, sendo esta, conforme Melhem, o repúdio ao centralismo administrativo dos militares e a repressão por eles desencadeada, bem como a prioridade no retorno à democracia (MELHEM, 1998, p. 116).
O grupo intitulado “moderados”, naquele momento já com o controle da agremiação a nível nacional e formado basicamente por ex-pessedistas, recomendava uma linha cautelosa de atuação buscando não instigar o poder central a considerar a atuação da agremiação como pretexto para novos abusos de poder, enquanto os “autênticos” defendiam uma postura mais agressiva frente aos atos do regime. Este segundo grupo, desde a criação da legenda, até 1974, diferencia-se na sua composição, tendo em vista que, de início, era composto majoritariamente por ex-petebistas próximos da linha de atuação do brizolismo. Com o gradual alheamento destas lideranças do núcleo decisório do MDB, acabam substituídos em grande parte por lideranças jovens, sem relação com os partidos políticos pré-1965, que emergem das urnas em um momento de fragilidade da legenda e passam a questionar a forma de atuação da mesma no enfrentamento ao regime e, consequentemente, a elite política que comanda a agremiação.
A emergência destas lideranças também faz com que a elite dirigente do partido saia do ostracismo e priorize a estruturação da legenda no interior do país, buscando construir uma rede de contatos e lideranças em todos os municípios brasileiros. Conforme explicita Melhem (1998, p.186) na análise do MDB paulista, a regra de ingresso na legenda se dá pelos mais variados motivos, não sendo a rigidez ideológica condição sine qua non para a inscrição no partido. A autora ressalta que a organização da agremiação se dá principalmente a partir de rivalidades locais, onde líderes municipais ingressavam na legenda buscando naquele
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Por exemplo, no caso do MDB gaúcho, dos 12 deputados federais eleitos pela seção em 1970, seis eram novatos na Câmara dos Deputados. São eles: Alceu Collares, Lauro Rodrigues, Getúlio Dias, Harry Sauer, Amaury Muller e Eloi Lenzi.
momento disputar os cargos eletivos municipais disponíveis, levando-se em conta que não teriam espaço semelhante na ARENA, desde o seu início composta por elites tradicionais.
O cenário para o MDB altera-se durante a década de 1970. Por um lado, perde força perante a sociedade, e principalmente junto à esquerda, a ideia de luta armada como forma de derrubar o regime e, com isto, ganha força junto a setores da esquerda radical - que até então se encontravam alijadas de uma cobertura legal para sua atuação - a alternativa legal de combate ao governo militar, o MDB. Da mesma forma, o fim do encanto da população com o propagado “milagre econômico”, que em 1974 já dava sinais enfraquecimento e que ainda não havia “dividido o bolo” 145
, conforme propugnava o então Ministro da Fazenda, Delfim Netto, levando ao aumento da concentração de renda em detrimento das classes menos favorecidas, principalmente aquelas instaladas nos centros urbanos, induz a crescente insatisfação da sociedade para com o regime, fazendo com que desaguasse no MDB considerável parcela daqueles desapontados com os efeitos econômicos de um regime autoritário.
Igualmente, as publicações rotineiras de notícias no Brasil e no exterior a respeito das medidas repressivas para com a sociedade civil por parte do governo colaboram com o desgaste crescente do mesmo junto à população. Sem conseguir domar os militares “linha dura” encastelados em órgãos repressivos do Estado, o regime percebe crescer junto à opinião pública o clamor pelo fim das torturas de presos políticos em um momento em que a Doutrina de Segurança Nacional146 parece não ter mais motivo para existir. Diante de movimentos sociais combalidos e já completamente desarticulados pelo movimento repressor, o temor da sociedade cresce à medida que a busca por “subversivos” 147 extrapola o campo de opositores chegando à porta da casa dos brasileiros comuns.
Em paralelo a isto o MDB continuava aproveitando as brechas apresentadas pela legislação vigente para maximizar sua atuação, sempre dentro dos limites estabelecidos pelo governo. Definido o calendário eleitoral para as eleições presidenciais que ocorreriam de forma indireta em janeiro de 1974 e tendo a ARENA já escolhido o seu candidato, o general Ernesto Geisel, o MDB utiliza-se da ocorrência do pleito para lançar a candidatura de seu presidente, deputado federal Ulysses Guimarães, e do presidente da Associação Brasileira de
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Refere-se aqui a expressão utilizada pela equipe econômica do governo de que era necessário “primeiro, fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo”.
146 Formulada dentro da Escola Superior de Guerra (ESG) visava identificar e eliminar os inimigos internos, ou
seja, cidadãos que questionavam e criticavam o regime vigente no Brasil na época.
147 Eram intitulados como as figuras que discordavam do regime, sendo tanto figuras do meio político-partidário,
Imprensa (ABI), Barbosa Lima Sobrinho, respectivamente candidatos à presidente e vice- presidente da república, buscando não a vitória no pleito, mas sim cruzar o país e demonstrar a fraude da eleição de “cartas marcadas” e denunciar os abusos do governo, ou seja, a tortura, a censura, o abandono dos trabalhadores e o favoritismo dos interesses econômicos estrangeiros, entretanto criticando o governo e preservando os militares (SKIDMORE, 1988, p. 302).
Autointitulado como “anticandidato”, visando denunciar a “antieleição, imposta pela anti-Constituição”, os candidatos do MDB percorrem o país com grandes manifestações públicas levando a mensagem do partido naquele pleito, incluindo aí, pela primeira vez, questões de ordem social que, naquele momento, ainda eram estranhas à agremiação. O resultado do Colégio Eleitoral, onde Geisel e seu vice foram eleitos com 80 por cento dos votos, acaba se tornando irrelevante148 frente à exposição que a agremiação acabou ganhando em todo o país o que seria um trunfo para o resultado a ser conquistado pelo MDB nas eleições parlamentares que ocorreriam dez meses depois149. Este fato demonstra que o MDB tarda oito longos anos até aprender a utilizar os canais formais de participação política para atuar de forma eficaz ao nível da política formal, tornando este aprendizado uma marca da legenda ao longo dos anos seguintes.
Neste ritmo o partido chega a 1974. Rejuvenescido, entretanto, sem empolgar aos amplos setores da sociedade que sistematicamente se indispunha com o regime militar, o partido caminha para o pleito que entraria para a história do país como o “início do fim” da Ditadura Civil-Militar.