4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.3 Rendimento do capim
O uso de doses mais elevadas de NFM associadas à irrigação com ESET ocasionaram maiores rendimentos de MS (Tabela 5 e Figura 3). Isso foi devido ao fato de (i) o capim-Bermuda Tifton 85 responder linearmente até 600 kg ha-1 ano-1 de NFM, conforme resultados apresentados em Alvim et al. (1999); (ii) a irrigação com ESET ter proporcionado não somente aporte médio de N-mineral de até 335,6 kg ha-1 ano-1, mas também de outros nutrientes (Tabela 4), os quais podem ter mascarado o efeito deletério do Na, conforme assinalado por Al-Jaloud et al. (1995) em seus estudos e promovido incremento na produção, concordando com os resultados de pesquisas realizadas com outras gramíneas forrageiras sob irrigação com EET, entre os quais azevém-perene (Quin & Woods, 1978), capim-de-Rhodes (Feigin et al., 1978; Vaisman et al., 1981), capim-Kikuyu (Grattan et al., 2004); capim-Napier (Jeyaraman, 1988) e milho forrageiro (Overman & Nguy, 1975; Overman, 1981; Adekalu & Okunade, 2002; Mohammad & Ayadi, 2004). Desse modo, tanto o NFM como o N-efluente foram importantes fontes de N para o sistema solo-pastagem. Ainda, o ESET, considerado um tipo de água marginal e que, muitas das vezes, não tem sido computada no balanço global (Bouwer, 2000), substituiu eficientemente a água convencional (potável) empregada na irrigação do capim.
Os altos rendimentos de MS observados no presente estudo foram devidos à associação dos fatores (i) irrigação, (ii) interação da irrigação com a fertilização nitrogenada, (iii) fonte de N mineral empregada e (iv) intervalo estabelecido entre cortes. O fator irrigação pode ter sido o mais importante, uma vez que o capim-Tifton 85 normalmente tem tido a sua produção limitada na Região Sudeste Brasileira pela ocorrência de seca (Alvim et al., 1999). A baixa tensão da água no solo, ocasionada pela freqüente irrigação (Figura 2), tem levado ao aumento da eficiência de uso do N e favorecido a obtenção de maior rendimento do capim, corroborando com os estudos de Marcelino et al. (2003). A fonte de N mineral empregada (nitrato de amônio), se comparada a mais utilizada no país (uréia), tem se destacado pelas baixíssimas perdas por volatilização e alta recuperação aparente de N pela parte aérea do capim (Primavesi et al., 2004). O intervalo entre cortes fixado em 60 dias, devido à logística deste estudo,
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Tabela 5. Efeitos da irrigação (água e efluente secundário de esgoto tratado - ESET) e de doses de nitrogênio via fertilizante mineral (NFM), aplicadas via solo, no rendimento anual de massa seca (MS) do capim-Bermuda Tifton 85 (CV = 5,07%)
MS
Tratamento 1º ano 2º ano Média
t ha-1 ano-1
T1 – irrigação com água + NFM (520 kg ha-1 ano-1) 32,91 32,62 32,76 bc(1)
T2 – irrigação com ESET, sem NFM 19,85 28,89 24,37 d
T3 – irrigação com ESET + NFM (171,6 kg ha-1 ano-1) 28,36 35,93 32,15 c
T4 – irrigação com ESET + NFM (343,2 kg ha-1 ano-1) 32,43 37,02 34,73 b
T5 – irrigação com ESET + NFM (520 kg ha-1 ano-1) 37,82 39,29 38,55 a
Média 30,27 B 34,75 A
(1)
Letras iguais maiúsculas ou minúsculas nas linhas e nas colunas, respectivamente, não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey (P < 0,05).
15 25 35 45
0 130 260 390 520
Figura 3 – Influência de doses de nitrogênio via fertilizante mineral no rendimento acumulado anual de massa seca do capim-Bermuda Tifton 85, submetido à irrigação com efluente secundário de esgoto tratado, no (ο) primeiro e no (∆) segundo ano. ** P < 0,01
Nitrogênio via fertilizante mineral (kg ha-1 ano-1)
Massa s eca (t ha -1 an o -1 ) x y)=20,95773+0,03346 2 ** 92 , 0 = R 2 00004 , 0 03948 , 0 25720 , 29 x x y) = + − R2 =0,92**
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pode ter influenciado o rendimento de MS. Segundo Alvim et al. (1999), a mudança do intervalo entre cortes de duas para seis semanas (no período das chuvas) e de quatro para oito semanas (no período da seca) tem ocasionado aumento no rendimento de MS do capim-Tifton 85, porém, levando à diminuição de sua qualidade para alimentação animal.
O efluente não supriu toda a necessidade de N do capim, ocasionando, na ausência de NFM menor rendimento de MS (Tabela 5 e Figura 3). O fato do ESET se constituir como fonte eficiente de água e, ao mesmo tempo, nutrir parcialmente as plantas em N tem sido comum em várias situações de clima, solo e cultura (Smith & Peterson, 1982; Feigin et al., 1991), inclusive em experimento com Cynodon (Hayes et al., 1990b). Isso freqüentemente se repete, pois (i) as curvas de requerimento/acúmulo de N não coincidem, para a maioria das plantas, com a curva de demanda por água (Bouwer & Idelovitch, 1987); (ii) o aporte de N-efluente no sistema solo-pastagem é dependente da qualidade do efluente e da lâmina de irrigação empregada (Hayes et al., 1990b), que normalmente não são constantes ao longo do ano (Feigin et al., 1991).
Analisando isoladamente os tratamentos irrigados com ESET, foi observado incremento linear (no primeiro ano) e quadrático (no segundo ano) no rendimento de MS em resposta ao aumento da dose de NFM (Figura 3). No primeiro ano, a necessidade de irrigação foi menor pelo fato de ter ocorrido maior precipitação pluvial (1323 mm) (Figura 2) e conseqüentemente, o capim apresentou menor resposta à aplicação de ESET. No segundo ano, a precipitação pluvial foi menor (1160 mm), tornando-se necessária irrigação mais freqüente, com aplicação de lâminas mais elevadas (Figura 2) e, portanto, foi mais pronunciada a resposta do capim ao ESET (Figura 3). O rendimento máximo de MS (39,0 t ha-1 ano-1) ocorreria no segundo ano mediante o uso de NFM de 493,5 kg ha-1 ano-1 acompanhado de irrigação com ESET.
O tratamento T1 (controle) pode ser considerado um padrão de comparação entre os tratamentos empregados, uma vez que seu rendimento anual foi superior ou semelhante aos resultados observados por Alvim et al. (1999) e Marcelino et al. (2003), que também estudaram a resposta do capim-Bermuda Tifton 85 às doses de NFM. A partir das equações apresentadas na Figura 3 e, admitindo-se o rendimento médio do
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tratamento T1 como referencial (Tabela 5), foram calculadas quais doses de NFM que, se submetidas à irrigação com ESET, poderiam ocasionar rendimento médio de 32,76 t ha-1 ano-1 de MS. Assim, foi verificado que as doses de NFM de 352,7 e 98,7 kg ha-1 ano-1 para o primeiro e segundo anos, respectivamente, conjuntamente à irrigação com ESET, seriam o suficiente para obtenção do mesmo rendimento de MS na condição de irrigação com água potável e fornecimento de NFM de 520 kg ha-1 ano-1. Isso representaria economia de NFM de 167,3 (32,2%) e 421,2 (81,0%) kg ha-1 ano-1 para o primeiro e segundo anos, respectivamente, sem comprometer o rendimento do capim. Essa redução na dose de NFM empregada no capim para obtenção de alta produção de pastagem, mediante a substituição da água convencional pelo ESET, concordou com os resultados obtidos anteriormente por Feigin et al., (1978), Vaisman et al. (1981) e Feigin et al. (1991), em condições diferentes de solo, clima e cultura. Em alguns casos, o uso de EET na irrigação ocasionou economia de 50-75% da dose de NFM, como observado por Hussain & Al-Jaloud (1998) em experimento com cevada.