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Rendimentos de trabalho dependente e independente: uma opção? 140

6.   AO NÍVEL DO IMPOSTO SOBRE O RENDIMENTO DAS PESSOAS SINGULARES (IRS) 114

6.6.   Rendimentos de trabalho dependente e independente: uma opção? 140

Não existe definição de rendimento no CIRS, sendo porém enumerados os seus vários tipos328. Os diversos rendimentos constituem elementos sintomáticos da capacidade contributiva

de cada contribuinte (ou do agregado familiar) e a sua indicação reveste carácter exaustivo, o que significa que não está abrangido pelo imposto tudo o que não estiver indicado.

No CIRS, o legislador nas primeiras duas categorias de rendimento – A e B – distingue a forma de tributação dos rendimentos do trabalho dependente, por um lado, e dos rendimentos

326 Artigo 55.º, n.º 2 do CIRS.

327 Devemos ter em conta os limites constantes do Orçamento de Estado e que já foram por nós referidos. Ver nota 276.

328 Ver Freitas Pereira, Fiscalidade, 3.ª ed., Almedina, Coimbra, 2010, pág. 79 e ss; J.L. Saldanha Sanches, Conceito de Rendimento no IRS, in

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de trabalho independente, por outro. Enquanto no primeiro caso as deduções são feitas através de uma fórmula fixa329, sendo o resultado variável em função do rendimento do sujeito passivo,

no segundo o imposto é apurado segundo o regime de tributação em que o sujeito passivo se insere:

 contabilidade organizada – imperativo caso o sujeito passivo tenha um rendimento anual ilíquido superior a 150.000 euros. Para determinar os rendimentos com base neste regime o CIRS no seu artigo 32.º manda aplicar as regras estabelecidas no código do CIRC, com as adaptações resultantes do CIRS, sendo certo que, entre estas adaptações, temos logo o artigo 33.º, do qual consta uma lista de encargos da actividade empresarial ou profissional que não são dedutíveis em sede de IRS, os quais acrescem ao encargos não dedutíveis previstos no CIRC. Assumem aqui uma importância crescente os gastos que o sujeito passivo comprove serem indispensáveis para a realização dos rendimentos ou para a manutenção da fonte produtora e que irá deduzir no rendimento obtido330 – ou

 regime simplificado de tributação – que é o utilizado pelos sujeitos passivos com rendimentos inferiores a 150.000 euros, apesar de puderem optar pelo da contabilidade organizada331. De acordo com o artigo 31.º do CIRS, a determinação do

rendimento colectável resulta da aplicação dos indicadores objectivos de base técnico- científica a aprovar pelo Ministro das Finanças para os diferentes sectores da actividade económica. Todavia, até à aprovação desses indicadores, o rendimento colectável é o resultante da aplicação do coeficiente de 0,20 ao valor das vendas de mercadorias e de produtos e do coeficiente de 0,70 aos restantes rendimentos provenientes desta categoria, excluindo a variação da produção.

Ora, os rendimentos da categoria B assumem natureza sobretudo empresarial. A dedução específica concretiza-se de uma maneira diferente consoante os sujeitos passivos se insiram no regime simplificado ou no regime normal de determinação de rendimentos, pois, quando se

329 Artigo 25.º, n.º1 do CIRS: Aos rendimentos brutos da categoria A deduzem-se, até à sua concorrência, e por cada titular que os tenha auferido, os seguintes montantes:

a) 72 % de doze vezes o valor do IAS;

b) As indemnizações pagas pelo trabalhador à sua entidade patronal por rescisão unilateral do contrato individual de trabalho sem aviso prévio em resultado de sentença judicial ou de acordo judicialmente homologado ou, nos restantes casos, a indemnização de valor não superior à remuneração de base correspondente ao aviso prévio;

c) As quotizações sindicais, na parte em que não constituam contrapartida de benefícios de saúde, educação, apoio à terceira idade, habitação, Seguros ou segurança social e desde que não excedam, em relação a cada sujeito passivo, 1% do rendimento bruto desta categoria, sendo acrescidas de 50%.

330 Artigo 20.º e 23.º do CIRC.

331 Artigo 28.º, n.º 3 do CIRS. Nos termos dos n.º 4 e 5 do mesmo artigo o período mínimo de permanência em qualquer um dos regimes é de

três anos, salvo nos casos em que o sujeito passivo comunique, ou na declaração de início de actividade ou até final do mês de Março, que pretende alterar o regime pelo qual se encontra abrangido.

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verifica esta última situação, se seguem as regras estabelecidas no CIRC. Assim, o regime simplificado tem como pressuposto uma opção do contribuinte que renuncia ao seu direito subjectivo de ser tributado com base na contabilidade organizada com todas as implicações, com todas as implicações que tal comportamento acarreta.

Por exemplo, um sujeito passivo que seja tributado pelas regras da contabilidade organizada fica desde logo obrigado a liquidar IVA mesmo que tenha um volume de negócios inferior a 10.000 euros. No caso de ter um volume de negócios inferior a 10.000 euros e não possuir nem seja obrigado a possuir contabilidade organizada beneficia do regime especial de isenção previsto no artigo 53.º, n.º 1 do CIVA332.

Ora, como tivemos oportunidade de ver quando abordamos o conceito de planeamento fiscal, são estas opções que abrem muitas vezes as portas à poupança fiscal lícita, pois, um regime de “escolha fiscal” que, precisamente por permitir a opção do contribuinte pelo regime que lhe é mais favorável pode conduzir a situações de tributação contrárias ao regime de tributação segundo a capacidade contributiva.

Um outro exemplo é o artigo 28.º, n.º 8 do CIRS que permite a um sujeito passivo que preste serviços a uma única empresa optar pela tributação do trabalho dependente, passando a beneficiar da dedução de despesas que na verdade não suporta333. Se não se der o caso,

bastante frequente, de acumular rendimento do trabalho dependente com rendimentos do trabalho independente.

O regime cria, deste modo, condições objectivas que favorecem fortemente a relação de trabalho independente em relação à de trabalho. E enquanto na categoria A encontramos a impossibilidade de fazer valer, mesmo mediante prova, os custos efectivamente existentes (v.g. os custos suportados na deslocação entre a habitação e o local de trabalho), na categoria B surge a possibilidade de deduzir custos não suportados e por isso materialmente insusceptíveis de qualquer prova.

332 Nos termos do qual beneficiam da isenção do imposto os sujeitos passivos que, não possuindo nem sendo obrigados a possuir contabilidade organizada para efeitos do IRS ou IRC, nem praticando operações de importação, exportação ou actividades conexas, nem exercendo actividade que consista na transmissão dos bens ou prestação dos serviços mencionados no anexo E do presente Código, não tenham atingido, no ano civil

anterior, um volume de negócios superior a (euro) 10 000.

333 O problema que muitas vezes se coloca é saber qual a fronteira que separa o trabalho dependente do trabalho independente. Se muitas vezes

essa questão não se coloca, uma vez que as situações não deixam dúvidas (v.g. advogado que trabalhe por conta própria e que presta serviços aos seus clientes; um comerciante; um enfermeiro; um farmacêutico, etc.), noutros casos podem levantar-se incertezas quanto à natureza do rendimento (v.g. um advogado que preste serviços a uma única entidade; um enfermeiro que trabalha num hospital, etc.). Nesta eventualidade, é costume o recurso a critérios que ajudam a distinguir o trabalho dependente do trabalho independente: a subordinação económica ou financeira, que existirá naquelas situações em que a pessoa que recebe o rendimento necessita do mesmo para fazer face às suas despesas ordinárias ou correntes; e subordinação jurídica que assenta em certos indícios como a existência de horário de trabalho; a realização de um trabalho sob a direcção de outrem com possibilidade dar instruções e impor sanções; uma remuneração fixa; a permanência num certo local fixo.

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Assim, o planeamento fiscal passará nestas situações pela capacidade de previsão do sujeito passivo do rendimento a obter e dos gastos que a mesma comporta.

Porém, se com o decorrer da sua actividade o contribuinte determinar que os custos se mostram mais avultados do que a sua previsão inicial e se por isso o regime simplificado lhe acarreta uma tributação suplementar, se as receitas o justificarem, a lei pode ser torneada mediante formas relativamente simples de planeamento fiscal: basta que este constitua uma sociedade para onde desloque os custos. Desde que as receitas o justifiquem. A sua situação será mais difícil se este as tiver sobrestimado, uma vez que nestes casos a carga tributária será mais pesada.

Por exemplo:

Um sujeito passivo presta serviços a uma empresa. Os seus rendimentos estão sujeitos a IRS, mais precisamente no âmbito da Categoria B334. Neste caso o contribuinte poderá optar

(se o rendimento for inferior a 150.000,00 euros) por uma de entre duas formas de determinação do lucro tributável: contabilidade organizada ou regime simplificado.

1) Vamos partir do princípio de que o sujeito passivo obteve no ano n 10.000 euros. Assim:

Rendimento Colectável: € 7.000,00 (€ 10.000,00 x 0,70) IRS Pago: € 864,36 (€ 7.000,00 x 12,348%)

Com a mudança do enquadramento para a Categoria A, nos termos do artigo 28.º, n.º8 do CIRS o sujeito passivo pode beneficiar das deduções específicas335.

Rendimento Colectável: € 10.000,00 – (€ 485 x 12 x 72%) = € 5.809,60 IRS Pago: € 717,37 (€5.809,60 x 12,348%)

2) Vamos agora partir do princípio de que o sujeito passivo obteve no ano n 20.000 euros. Assim: Rendimento Colectável: € 14.000,00 (€ 20.000,00 x 0,70) IRS Pago: € 2.743,86 (€ 14.000,00 x 19,599%) 334 Artigo 3.º do CIRS. 335 Artigo 25.º do CIRS.

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Com a mudança do enquadramento para a Categoria A, nos termos do artigo 28.º, n.º8 do CIRS o sujeito passivo pode beneficiar das deduções específicas336.

Rendimento Colectável: € 20.000,00 – (€ 485 x 12 x 72%) = € 15.809,60 IRS Pago: € 3.098,52 (€15.809,60 x 19,599%)337

Com a mudança de regime tributário o sujeito passivo obteve, no primeiro caso uma poupança de € 146,82. Já no segundo caso, prejudicou-o.

Em suma, se essa mudança tiver como pressuposto a aplicação das deduções específicas, compensará no caso de trabalhadores com salários pouco elevados, pois o efeito útil de uma dedução diminui à medida que o rendimento aumenta. Isto porque neste montante dedutível se abrangem as contribuições para a segurança social a cargo do trabalhador. Quer isto dizer que, a partir de determinado tecto salarial, as contribuições obrigatórias pagas para a segurança social excederão o valor desta dedução. Neste caso, o trabalhador pode deduzir o montante total de tais contribuições338.

Contudo, temos que ter em atenção que o facto de ser tributado em sede de IRS na categoria A não retira ao sujeito passivo a natureza de trabalhador independente. Porquanto, o sujeito passivo continua a ter todas as obrigações acessórias que advêm dessa natureza (v.g. declaração de início ou cessação da actividade).