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3 Uma breve história do repórter

3.2 Repórter

Se o gênero narrativo da reportagem depende de quem executa, o repórter tem papel fundamental na composição da reportagem. Afinal de contas, ele é quem, geralmente vai a campo, colhe dados e transforma todas as informações em um texto jornalístico. A reportagem jornalística é fruto deste processo, fazendo do repórter o agente principal na elaboração do texto, seja em forma ou conteúdo. Todavia, é necessário salientar que o meio de destino da reportagem interfere em sua construção.

De acordo com Lage (2001), o Repórter ganhou relevância dentro do processo comunicacional a partir do século XIX. Os veículos midiáticos, que davam os primeiros passos dentro do modelo atual de empresa de comunicação, desenvolviam novos padrões para a produção de notícias. A notícia ganhou um formato moderno, similar aos utilizados ainda hoje, com a implementação do lead. Assim como na narrativa oral, a composição textual prioriza aquilo que de mais importante aconteceu e situa àquele que está recebendo o conteúdo. As técnicas, que foram desenvolvidas nos

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Estados Unidos, rapidamente ganharam espaço em vários outros países industrializados, durante os séculos XIX e XX.

Lage (2001) sustenta que cresceu, especialmente no século XX, a necessidade de aproximação com a oralidade, cultivando figuras de estilo de construção textual. Começavam também os conflitos entre aquilo que envolvia a realidade social e o que os patrocinadores de periódicos gostariam que aparecesse nas páginas.

Conflitos eram inevitáveis. À medida que a figura do repórter se definia, que ele se tornava importante, que era mais vezes acionado para cobrir os fatos sociais [...], mas de instauravam contradições entre os relatos jornalísticos e os preconceitos ou valores sustentados pelas elites anunciantes[...]Repórteres passaram a ser bajulados, temidos e odiados. A reportagem colocou em primeiro plano novos problemas, como discernir o que é privado, de interesse individual, do que é público, de interesse coletivo; o que o Estado pode manter em sigilo e o que não pode; os limites éticos do comércio e os custos sociais da expansão capitalista. (LAGE, 2001, p. 16- 17).

Obviamente, o trabalho do repórter, seja qual for a mídia, sofreu alterações, desde sua aparição até os dias atuais. Porém, as premissas sobre a execução do trabalho são as mesmas do início da atividade. Alguns textos acadêmicos sobre reportagem pouco, ou nada falam sobre as qualidades de um repórter. Os estudos científicos dão a entender que, qualquer profissional que seguir os requisitos orientados academicamente terá condições de produzir uma reportagem. Este pesquisador, até o momento, também não encontrou qualquer estudo que possa ser utilizado nesta dissertação para contradizer esta proposição. Porém, jornalistas que conhecem a dinâmica da produção de reportagens elencam características e virtudes do ser humano, enquanto agente produtor de conteúdo, que vão além da técnica. Atribuídas às presunções pragmáticas e éticas, é necessário elencar virtudes da pessoa para que esta possa ser chamada de ‘repórter’.

Kotscho (2003), por exemplo, sustenta que ser repórter é uma ‘opção de vida’, diante das dificuldades diárias enfrentadas pelos profissionais. Em uma visão romântica, o profissional argumenta que existem poucos atrativos em se escolher ‘ser repórter.

Jornalismo não é uma ciência exata. As técnicas, qualquer um aprende em pouco tempo. Mas, antes de começar a escrever, o repórter tem que definir bem definido porque escolheu essa profissão, o que quer dela. Se for dinheiro, prestígio ou segurança, melhor desistir logo, porque devem existir mil opções mais atraentes. O repórter só deve ser repórter se isso for irreversível, se não houver outro jeito de ganhar a vida, se alguma força maior

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o empurra para isso. (KOTSCHO, 2003, p. 7)

Ainda assim, Kotscho (2003) apresenta um argumento similar ao sustentado por Beltrão (1976), quando afirma que é o leitor quem precisa tirar suas próprias conclusões do texto reportado. Outros repórteres apresentam outras características consideradas fundamentais para que o repórter tenha sucesso na sua atividade. Dentre essas, está a capacidade de saber contar boas histórias. No livro Repórteres (1997), Audálio Dantas reúne uma compilação de histórias de grandes profissionais da reportagem do país. Em boa parte dos textos, os autores explanam sobre características gerais da profissão. O próprio Dantas (1997, p. 10), por exemplo, diz que o bom profissional de reportagem é aquele capaz de “contar um fato ocorrido na esquina de sua rua. Ou, em outro extremo, aquele que vai até o fim do mundo no encalço de uma boa história”. Noblat (2006) admite a concepção de Dantas (1997), porém é mais enfático e determinista em relação às capacidades dos profissionais. Para ele, a notícia pode estar em qualquer lugar, e o “faro” do jornalista é o que diferencia os repórteres bons dos ruins.

Conforme Kotscho (apud DANTAS, 1997), a reportagem, matérial que diferenciava um veículo de comunicação do outro, tornou-se raridade. Ele questiona o paradoxo da mídia, de forma geral, que apresenta uma oferta grande de informações, mas que ao mesmo tempo, apresenta conteúdos e formas padronizadas. A crítica, segundo o autor, é válida para todos os veículos de comunicação. De forma romantizada, Kotscho (2003) diz que os repórteres buscavam as informações conversando com as pessoas nos mais diversos lugares, e não aguardando receberem pautas dentro de redações. Um fator simples, porém frisado em obras que se norteiam pelas experiências dos profissionais, é a sorte. José Hamilton Ribeiro (apud Dantas, 1997, p. 107) diz que “repórter é como goleiro, tem que ter sorte”. O autor, pondera, porém, que só ventura não é suficiente para que uma ocasionalidade torne-se uma boa história. É necessário, também, saber trabalhar, administrar e encontrar novidades diante de casualidades.

Kotscho (2003) levanta outra característica considerada por ele fundamental para o repórter. Este aspecto implica na dosagem entre informação e emoção na narrativa. O autor defende que, mesmo haja uma oscilação de sentimentos durante uma cobertura, o profissional precisa ter a capacidade de controlar suas sensibilidades. Sodré e Ferrari (1986) afirmam que a narração jornalística é a essência

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da reportagem. Segundo os autores, a narrativa de gênero jornalístico se diferencia da literatura porque contém um compromisso com a objetividade da narração do fato. Isso não impede, no entanto, que o profissional se valha de alguns elementos similares aos da literatura. Sobre isso, Sodré e Ferrari (1986, p. 107) pontuam que é fundamental que haja uma “dosagem da seleção e combinação de elementos” que compõem uma reportagem, para que ela não só seja, mas também pareça verdadeira. Os autores reforçam que, no jornalismo, devem se impor apenas a narrativa dos fatos reais. Em Sodré e Ferrari (1986, p. 123), os autores exemplificam os riscos da tentação do repórter, de sobrepor a literatura ao fato, citando o caso de uma jornalista americana que ganhou e, posteriormente, perdeu um prêmio Pulitzer, considerado o mais importante do mundo, porque contou uma história totalmente verossímil, porém falsa.

Um aspecto que merece mais atenção e gera consenso entre profissionais de mercado e acadêmicos diz respeito à condição do repórter em presenciar o fato, ou estar no lugar em que os fatos ocorreram. Neste princípio, pode-se dizer, que reside um dos principais problemas causados pelas transformações político-econômicas e pelas novas tecnologias de informação e comunicação. Há um entendimento de que a coleta e apuração de notícias in loco condicionam o repórter a ter um espectro maior e melhor de informações. E isso é valorizado tanto por pesquisadores, quanto por profissionais.

Cabe mencionar, em uma pequena deferência deste pesquisador, um dos mais brilhantes registros de reportagem in loco da história do jornalismo e, posteriormente, da literatura brasileira. O então repórter do jornal Folha de São Paulo, Euclides da Cunha, cobriu parte da Guerra de Canudos (1896 - 1897), travada entre militares federais e um movimento sócio-religioso que ganhou corpo no final do século XIX no interior da Bahia. O trabalho minucioso rendeu destaque ao jornalista, que além de publicar textos para o periódico, escreveu, em 1902, uma obra chamada Os Sertões, relatando sua experiência. O livro tornou-se um dos marcos da literatura nacional. De acordo com artigo de Maria Jandyra Cavalcanti Cunha e Vítor de Abreu Corrêa (2013), o trabalho in loco de Euclides da Cunha foi muito além da percepção informativa sobre os acontecimentos em Canudos.

Ele foi testemunha in loco dos acontecimentos e, uma vez observador participante, vivenciou os horrores da guerra. A qualidade narrativa de seus

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relatores permitiu a criação de cenário único para uma batalha impensável, em local inóspito. A subjetividade transborda do texto. Ainda assim, a cobertura guarda território no campo do jornalismo pela factualidade e verossimilhança, presentes graças ao testemunho. Uma das características centrais da correspondência de Euclides da Cunha está além das questões estritamente ligadas ao caráter testemunhal. O repórter explora ao máximo os seus sentidos e relata em detalhes os eventos: da longa espera em Salvador até a derrota de Canudos, passando pela descrição da paisagem, do homem e da luta. (CUNHA; CORRÊA, 2013, p. 12).

Para Nilson Lage (2001, p. 23) o “[...] repórter está onde o leitor, ouvinte ou espectador não pode estar”. Assim, cabe ao profissional destacado para reportar uma determinada pauta a responsabilidade de selecionar não só aquilo que tem caráter informativo, mas também detalhes que possam ser interessantes na narrativa. Lage (2001, p. 23) define o repórter como um ‘agente inteligente’, totalmente apto em compreender o contexto e equilibrar suas colocações. Em geral, os repórteres têm autonomia, habilidades sociais e de reação capazes de auxiliar no trabalho.

Kotscho (2003, p. 12), não embasa seu argumento, mas defende que “lugar de repórter é na rua”. Carlos Wagner (apud DANTAS, 1997) afirma que a “estrada” foi sua grande escola de aprendizado sobre reportagem. O jornalista argumenta que aprendeu, na faculdade, as bases da profissão, que o longo período trabalhando em redação consolidaram seu trabalho como repórter, mas que seu crescimento diário foi ganhando força percorrendo estradas. Em um artigo acadêmico sobre o ethos dos repórteres da Rede Globo, Bennetti e Gadret (2017) afirmam que o profissional de reportagem da emissora baseia-se em eixos que envolvem conhecimentos da profissão, postura diante dos fatos e reconhecimento perante aos colegas.

O ethos do “bom jornalista”, construído no discurso dos repórteres, congrega os atributos de experiência, curiosidade, humildade, credibilidade, responsabilidade social e amor à profissão. O “bom repórter” é aquele que gosta de estar na rua e em contato com as pessoas, sabe ouvir e fazer denúncias, corre risco de ser ameaçado em função de pautas incômodas, come mal, tem uma vida dura e perigosa, mas sabe divertir-se em meio às dificuldades da profissão. O ethos do repórter também é construído por meio dos indicadores de pertencimento ao campo jornalístico, como a afinidade ou a analogia com outros jornalistas, a conquista de prêmios e o trabalho realizado [...] (BENETTI; GADRET, 2017, p. 74-75)

Diante dos aspectos apresentados, ainda que o repórter tenha capacitado-se tecnicamente para executar uma reportagem, é necessário que este apresente algumas características que vão além dos manuais jornalísticos. Porém, é

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fundamental ponderar que essas características não foram simplesmente descobertas ou lançadas pelos jornalistas citados neste texto. Muitos dos elementos valorizados por profissionais surgiram na metade do século XX, através do movimento New Journalism, principalmente nos Estados Unidos. O espaço informativo do texto é compartilhado com observações, inferências, reflexões, e outras concepções subjetivas.

Dentre as proposições apresentadas, está a necessidade de compreensão de que o texto do repórter não pode ter a pretensão de dar aos receptores do conteúdo uma conclusão sobre o caso, mas a amplitude para compreenderem uma situação apresentada e gerarem seu próprio crivo. Somado a isso, o repórter necessita saber dosar dados informativos e sensibilidades na apresentação do seu texto. Mesmo assim, nem teóricos, nem profissionais de campo defendem que o repórter tenha por papel exclusivo relatar apenas dados informativos. A observação in loco do acontecimento é fundamental para o trabalho, pois o profissional tem a capacidade de adicionar sensações pessoais aos dados, dando verossimilhança ao produto jornalístico.