Como já mencionado, os primeiros contactos com os romanos ocorreram no terceiro quartel do séc. II a.C. no contexto da campanha militar de Décimo Júnio Bruto, estando testemunhados na cidade, entre outras classes de materiais, pelos repertórios anfóricos que por esta altura acompanhavam os contingentes militares. Aqui sobressaem sobretudo as ânforas vinárias itálicas, Greco-Itálicas e Dressel 1, e os contentores piscícolas produzidos na região meridional da Hispânia, T-7.4.3.3., importados em grandes quantidades durante o séc. II a.C.
Durante o mesmo período, ainda que em quantidades bem mais modestas, era também importado azeite da costa adriática de Itália e do Norte de África em contentores de morfologia ovóide, bem como vinho da ilha de Ibiza e do Mediterrâneo oriental, nomeadamente da ilha de Rodes e da ilha de Cos, e possivelmente produtos piscícolas da região de Cartago envasados em ânforas de tipo T-7.4.2.1./T-7.4.3.1. de Ramón Torres (1995).
Fig. 2
Principais tipos anfóricos importados durante a República.
Os dados deste estudo não alteram substancialmente o panorama das importações anfóricas já conhecido em Olisipo para a fase republicana. O seu principal contributo é, por um lado, a confirmação dos padrões de importação docu- mentados em estudos anteriores, designadamente no estudo sobre as ânforas republicanas do Castelo de S. Jorge (Pimenta, 2005), bem como a sua consolidação em termos de representatividade estatística uma vez que duplica os dados existentes; por outro, a ampliação do repertório das importações anfóricas republicanas, com a documentação de novas tipologias e novas regiões de fabrico, até aqui desconhecidas na cidade. Este repertório encontra um paralelo notável em Valência, na costa oriental espanhola, cidade que foi fundada em 138 a.C., precisamente o mesmo ano em que Décimo Júnio Bruto chega a Olisipo (Ribera I Lacomba, 2009, 2014).
O claro domínio das importações itálicas dever-se-á inscrever no âmbito de uma rede de abastecimento público ao exército que garantia o aprovisionamento alimentar aos contingentes destacados nesta região (Fabião, 1989, p. 42).
Durante o último quartel do século II a.C. parece verificar-se uma diminuição da importação do vinho itálico, o que poderá estar relacionado com a redução de contingentes militares na região.
No início do século I a.C. o panorama das importações anfóricas começa de uma forma geral a subir, ainda que de forma pouco expressiva, acentuando-se essa tendência no segundo quartel do mesmo século. Ainda que de forma minoritária, começa por esta altura a chegar a Olisipo o vinho produzido na costa Norte da Hispania Citerior, bem como o azeite e o vinho produzidos no vale do Guadalquivir, na Ulterior.
A partir de meados do século I a.C. assiste-se àquilo que Carlos Fabião designou de “progressiva ascensão económica da Península Ibérica” (Fabião 1989, p. 121; 1998, p. 182), demonstrada no significativo aumento das importações da Bética, nomeadamente de azeite e vinho do Guadalquivir, transportados em diversos tipos de ânforas ovóides, e de produtos piscícolas da região costeira, igualmente envasados maioritariamente em contentores de morfologia ovóide. Simultaneamente a importação do vinho itálico em ânforas de tipo Dressel 1 diminui significativamente, nunca sendo substituído em quantidades similares pelas Dressel 2-4.
Se compararmos os dados de Olisipo com os de outros centros do vale do Tejo, como Santarém (Arruda e Almeida, 1998, 2001; Arruda, Viegas e Bargão, 2005, 2006; Bargão, 2006; Almeida, 2008) e Chões de Alpompé (Diogo, 1982, 1993; Fabião, 1989; Diogo e Trindade, 1993-1994; Bargão, 2006; Pimenta e Arruda, 2014), pode-se observar que os padrões são genericamente idênticos, apenas com ligeiras diferenças, sublinhando o mesmo contexto histórico e geográfico das ocupações nestes locais durante este período.
Um padrão significativamente diferente pode ser observado em alguns sítios do Algarve, como Monte Molião (Arruda e Sousa, 2012), Faro (Viegas, 2011) e Castro Marim (Arruda et al., 2006; Viegas, 2011). Aqui, a principal diferença relativa- mente ao vale do Tejo relaciona-se com a menor importância das importações itálicas e maior relevo das importações do Sul peninsular. Tal, poderá encontrar explicação nos movimentos militares que então decorriam no vale do Tejo e na relação directa entre a importação do vinho itálico e presença de militares, bem como na proximidade geográfica entre o actual Algarve e o litoral meridional da Ulterior.
Fig. 3
Regiões de origem das importações documentadas em
Olisipo e nos principais sítios do vale do Tejo e do Algarve
PRINCIPADO
No que se refere ao principado, em termos gerais, observa-se um claro predomínio dos produtos regionais, que significam mais de 50% do consumo. No quadro das importações extra-provinciais destaca-se a relevância dos produtos béticos, pre- valecendo o que Carlos Fabião designou de “princípio da proximidade geográfica nos critérios de importação” (Fabião 1998, p. 181).
Sobretudo a partir do início do principado de Augusto, assiste-se a um notável incremento na importação de vinho e azeite do vale do Guadalquivir e à continuidade de uma significativa importação de preparados à base de peixe da zona costeira da Bética (Filipe, 2015, p. 158). Estes produtos eram importados em grandes quantidades e transportados em diversos tipos anfóricos, sobretudo Oberaden 83, Haltern 70 e Dressel 7-11.
Fig. 4
Principais tipos anfóricos importados durante o Principado.
Para além da proximidade geográfica, esta expressiva presença de produtos béticos dever-se-á igualmente relacionar com a existência de uma rede de abastecimento regular de carácter institucional, que, com origem na província da Bética e trans- portando os produtos alimentares ali produzidos, percorreria toda a fachada ocidental da Península Ibérica, alcançando os estabelecimentos militares do noroeste peninsular bem como os sítios mais setentrionais do limes germânico e, numa fase posterior, a Britannia (Fabião, 1993-1994; Morais e Carreras Monfort, 2003). O significativo fluxo de vinho e azeite bético do- cumentado em todo o vale do Tejo a partir do Principado de Augusto relacionar-se-á certamente com esta rota.
A partir das primeiras décadas do século. I d.C. o panorama começa-se a alterar, registando-se uma quebra acentuada na importação dos preparados piscícolas béticos que, embora se mantenha relativamente estável durante grande parte desse século, decairá na sua segunda metade para valores muito baixos que se mantêm pelo menos até ao início do século III d.C. Naturalmente esta queda está directamente relacionada com a emergência das produções piscícolas lusitanas ainda durante o principado de Augusto, que adquirem a partir de então uma expressão quantitativa bastante considerável (Filipe, 2008, 2015; Morais e Filipe, 2016).
Na segunda metade da primeira centúria d.C. e durante todo o século II, os produtos à base de peixe lusitanos transportados em ânforas de tipo Dressel 14 são totalmente dominantes, embora os de origem bética continuem a chegar a Olisipo. A im- portação de azeite atinge o seu auge pelos meados do século I d.C., diminuindo de forma acentuada no último quartel desta centúria e subindo novamente no segundo quarto do século II d.C., mantendo-se estável ao logo de toda a dinastia Antonina. A partir daí parece verificar-se um decréscimo acentuado da sua importação. Este produto é quase exclusivamente impor- tado do vale do Guadalquivir, observando-se a presença pouco significativa, ainda que constante, de azeite proveniente do Norte de África.
Do mesmo modo, a partir de meados do século I d.C. verifica-se uma importante diminuição da importação de vinho bético, que se acentua particularmente a partir do reinado de Trajano, estando muito provavelmente relacionada com o incremento da produção regional, cujo produto final era transportado em ânforas do tipo Lusitana 3. A partir daí, o vinho consumido é essencialmente regional, embora se registe uma significativa importação deste apreciado produto dos mais diversos qua- drantes geográficos do Mediterrâneo, particularmente da Baetica. Para além desta região, destacam-se os vinhos da Gália, sobretudo envasados nas Gauloise 4, e os do Mediterrâneo oriental, maioritariamente de Rodes, suplantando os vinhos itáli- cos que chegam em ânforas do tipo Dressel 2-4.
Comparando os padrões de consumo de Olisipo com os de outras cidades da Lusitânia, Alcácer do Sal parece corresponder ao centro urbano com um perfil mais aproximado (Silva et al., 1980-1981; Pimenta et al., 2006; Pimenta, Sepúlveda e Ferreira, 2015). Tomando em consideração a sua localização geográfica, poder-se-á intuir para esta cidade um papel semelhante ao de Olisipo na redistribuição de produtos alimentares transportados em ânforas para o interior do território através do vale do Sado, eventualmente também até Mérida, a capital provincial. Outros locais implantados no vale do Sado, como Setúbal (Coelho-Soares e Silva, 1978; Silva e Coelho-Soares, 1980-1981) e Tróia (Diogo e Trindade, 1998; Diogo e Paixão, 2001; Almeida
et al., 2014), parecem exibir diferentes padrões de importação, divergindo dos de Lisboa e Alcácer do Sal sobretudo nas
importações béticas, com um menor peso das produções do Guadalquivir.
Fig. 5
Regiões de origem das importações extra-pro- vinciais documentadas em Olisipo, em Emerita
Augusta e nos principais sítios do vale do Sado
durante o Principado.
De igual forma, numa comparação com cidades do Sul da Lusitânia, como Lagos (Almeida e Moros Díaz, 2014), Faro (Viegas, 2011) e Balsa (Fabião, 1994; Viegas, 2011), a principal diferença relaciona-se com o maior peso das importa- ções da costa da Bética relativamente às do vale do Guadalquivir nestas cidades, em contraposição ao que acontece em Lisboa e Alcácer do Sal. Olhando para a capital provincial, que apresenta um distinto perfil de consumo (Almeida e Sanchéz Hidalgo, 2013; Almeida, 2016), a principal diferença em relação a Olisipo e Alcácer do Sal assenta sobretudo no maior relevo do comércio a longa distância, sobretudo com origem no Mediterrâneo oriental, península itálica e Gallia, denunciando um maior poder aquisitivo de parte dos seus cidadãos. Embora também em Mérida as importações ex- tra-provinciais sejam dominadas pelos produtos béticos, estes não ultrapassam os 50%, enquanto em todos os outros locais referidos os produtos daquela província oscilam entre os 67% e os 94% do comércio extra-provincial. A maior capacidade económica das elites da capital provincial, a que certamente se poderão juntar outros factores, deverá explicar esta considerável diferença. Isto pode igualmente ser entrevisto na diversidade de tipologias e de regiões de origem das ânforas importadas, que só encontra paralelo em Olisipo.
Fig. 6
Regiões de origem das importações extra-provinciais documentadas nos principais sítios do Algarve durante o Principado.
O perfil de consumo de terra sigillata em Lisboa (Silva, 2012, p. 753) mostra algumas semelhanças com o das ânforas, especialmente na coincidência do auge das importações entre Cláudio e Nero e na depressão que se seguiu na dinastia flávia. Durante todo o século II d.C. as curvas de importação da terra sigillata e das ânforas são similares, com excep- ção da importação de azeite que apresenta uma fase positiva durante o período antonino.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O amplo e diversificado conjunto de ânforas analisado, oriundas das mais diversas regiões do Mediterrâneo, demonstra um evidente cosmopolitismo de Felicitas Iulia Olisipo, que desempenhava então um papel activo e central nos comple- xos intercâmbios comerciais no ocidente peninsular, sublinhando a sua dimensão de importante entreposto comercial da fachada atlântica (Fabião, 2011).
Este panorama para a cidade era já entrevisto de há muito, nomeadamente por Vasco Mantas e Carlos Fabião (Mantas, 1990, 1998, 1999, 2007; Fabião, 1993-1994, 2009a), mas começa a ganhar cada vez mais corpo com a publicação de um maior volume de dados nos últimos anos (entre outros, Pimenta, 2005; Silva, 2005, 2012, 2015; Filipe, 2008, 2015; Almeida e Filipe, 2013; Fabião e Pimenta, 2014; Filipe et al., 2016; Silva et al., 2016; Gomes et al., 2017) e, sobretudo, co- meça-se finalmente a poder definir de um modo mais meticuloso de que forma e com que ritmos se modelou a história económica, mas também social, da cidade.
A sua localização e condição de cidade marítima (Mantas, 1990), virada ao oceano e na área de charneira entre o mundo mediterrânico e o atlântico, em plena rota atlântica (Fabião, 1993-1994, 2009b), seriam determinantes na sua ascensão a “capital marítima” da província, como referido por Vasco Mantas, onde afluíam mercadorias dos mais di- versos quadrantes geográficos do império e a partir de onde se redistribuíam para o interior do território, incluindo para
Emerita Augusta, a capital provincial; mas também de onde eram escoados os preparados de peixe - importante motor