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4 GESTÃO E EXECUÇÃO DA COBRANÇA PELO USO DOS RECURSOS

4.3 Análise da operação do instrumento

4.3.2 Repasse do recurso às entidades equiparadas

Como discutido anteriormente, essa mudança tem resultado em minimização dos passivos de pedido de outorga, o que implica na possibilidade de aumento da arrecadação da cobrança com a inserção de novos usuários. Cabe relembrar que a cobrança é feita sobre os usos outorgáveis, tendo assim, relação direta com o instrumento de outorga.

Feitas as ponderações a respeito da arrecadação do recurso da cobrança passa-se a análise das questões concernentes ao repasse deste, por parte do IGAM, às entidades equiparadas.

Tabela 1 - Valores da cobrança pelo uso das águas arrecadados em cada bacia, valores repassados às entidades equiparadas e percentual de repasse - 2010-2020.

Fonte: Elaboração própria.

Nota: *Para o ano de 2020, o valor arrecadado foi determinado com base nos Documento de Arrecadação Estadual - DAEs pagos retirados do Sistema de Busca dos Pagamentos dos órgãos - SBPO da SEF/MG. Os valores repassados se referem à quantia efetivamente repassada naquele ano às entidades equiparadas, e não necessariamente ao total que deveria ter sido repassado. Os valores de 2020 das bacias do Doce foram desconsiderados devido ao processo de saída da IBIO e entrada da AGEVAP como entidade equiparada. O montante repassado à nova entidade em 2020 foi referente às devoluções de recursos das contas bancárias da IBIO que somaram R$89.631.331,42.

Os dados apontam para um repasse não tempestivo de recursos às entidades. Até o início de 2021 estavam pendentes de repasse R$40.877.483,09, sendo que R$38.978,892,31 eram referentes à parcela de investimento (92,5%) e 898,590,36 à parcela de custeio (7,5%). Os menores percentuais são referentes às bacias do Rio Pará e dos Rios Pomba e Muriaé. Como apontado anteriormente, o IGAM assumiu a competência para aplicação dos recursos referentes à parte pertencente ao estado mineiro da bacia dos Rios Piracicaba e Jaguari; assim, não são realizados repasses às entidades em específico. Ademais, segundo o Portal InfoHidro (2018), até o momento não houve execução dos recursos arrecadados na bacia em específico.

Além de não receberem todo o recurso arrecadado, conforme previsto em lei, as entidades equiparadas também não o recebem de forma contínua, como mostrado na figura 20.

Figura 20 - Recurso arrecadado e repassado nas bacias do Rio das Velhas, Rio Pará, Rio Piranga e Rio Pomba e Muriaé - 2010-2020.

Fonte: Elaboração própria.

Os dois primeiros gráficos da figura 20 são referentes aos valores arrecadados e repassados das bacias do Rio das Velhas e do Rio Piranga, que estão entre as bacias com os mais de 80% de índice de repasse. Já os dois gráficos na parte inferior são das bacias do Rio Pará e dos Rios Pomba e Muriaé, que contam com os menores percentuais de repasse, 24,3% e 28% respectivamente. Tanto para as bacias com alto, quanto para as com baixo percentual de repasse, observa-se uma não uniformidade. Verificam-se, em sua grande maioria, repasses abaixo do arrecadado, e também anos em que o repasse foi maior que o arrecadado, justificado pelo repasse de valores em atraso. Além disso, há anos em que não foi realizado nenhum repasse às entidades equiparadas.

Isso também é verificado ao se analisar o repasse por parcela de custeio e investimento. Ocorrem atrasos e falta de repasses nas duas parcelas, o que pode ser verificado na figura 21.

Figura 21 - Recurso arrecadado e repassado nas bacias hidrográficas de Minas Gerais - 2010-2020.

Fonte: Elaboração própria.

Contudo, é importante destacar que, a partir do ano de 2016, a parcela de investimento, principalmente, vinha sendo alvo de contingenciamento. Os pagamentos feitos neste ano mostram que a grande maioria do recurso repassado foi referente à parcela de custeio do quantitativo arrecadado no ano e também do terceiro trimestre de 2015, enquanto que a parte de investimento se refere ao pagamento em atraso do recurso arrecadado do terceiro trimestre do ano anterior. Assim, como discutido anteriormente na subseção que trata do aparato normativo, observa-se que as ações no sentido de regularização do repasse, principalmente da parcela de investimento, ocorreram, em grande parte, de forma reativa às reivindicações das

entidades equiparadas e aos TACs firmados com o MPE para pagamento parcelado dos valores devidos.

Nesse sentido, cabe retomar a discussão feita sobre as competências do IGAM quanto ao instrumento de cobrança. Apesar de ser o órgão gestor, o IGAM não possui competência para decidir sobre a liberação de recursos arrecadados, ficando tal atividade sob responsabilidade da SEF. Ocorre que mesmo havendo a previsão legal (Art. 19 do Decreto nº 47.633/2019) de que o recurso deve ser repassado em sua totalidade para as entidades equiparadas, isso não é o que tem ocorrido ao longo do período analisado. Ademais, o decreto também deixa claro que o recurso não pode ser alvo de contingenciamento. No entanto, a principal justificativa apresentada pelo IGAM para os atrasos no repasse do recurso são exatamente a necessidade de contingenciamento devido à crise fiscal do estado, conforme trecho retirado do Relatório de Gestão e situação das águas de Minas Gerais de 2019:

[...]. Entretanto, é necessário registrar que o Estado, devido à crise financeira que vem enfrentado desde o ano de 2015, não está promovendo os repasses de forma regular, prejudicando o planejamento das entidades equiparadas.

Tal fato impacta na avaliação do desempenho destas no final do exercício e no desembolso dos recursos (DANTAS et al., 2019, pg. 82).

Como visto, o atraso ocorre, principalmente, sobre a parcela destinada ao cumprimento do Plano de Aplicação Plurianual (PAP), que prevê os programas, projetos e ações que serão desenvolvidas na bacia visando a melhoria da qualidade e quantidade da água. O repasse do recurso, que deveria ocorrer trimestralmente, tem levado até anos para chegar até as entidades equiparadas (até 2021, a ABHA tinha recursos da parcela de investimento pendentes de repasse desde 2016), dificultando, assim, o seu planejamento para uma aplicação eficiente na bacia.

Por fim, em se tratando de quem pode utilizar o recurso arrecadado pela cobrança, destaca-se que a legislação pertinente especifica que o recurso deve ser aplicado na bacia em que foi gerado pela Agência de Bacia ou entidade a ela equiparada. Pelos valores arrecadados e repassados por bacia, pode-se inferir que as bacias que possuem maior poder de arrecadação, assim como comitês de bacias mais estruturados acabam por contar com mais recursos em seus territórios, mesmo com os problemas de repasse, quando comparados com aquelas bacias que ainda estão trabalhando para fortalecer seus comitês e para melhorar o seu índice de arrecadação. Isso pode levar a casos em que as bacias mais necessitadas (com grandes problemas de poluição das águas, restrições de uso por baixa quantidade de

recurso hídricos, dentre outros) nem sempre recebam o recurso que deveriam ou até mesmo não consigam arrecadar valores suficientes para investir em programas e obras que impliquem na melhoria efetiva da qualidade e quantidade da água.

Na seção seguinte são discutidos, mais detidamente, alguns gargalos que as entidades equiparadas têm enfrentado para fazer o desembolso do recurso da cobrança. Dentre os diversos problemas, estão a burocracia para as contratações e falta de pessoal.

4.3.3 Aplicação do recurso da cobrança pelo uso da água nas bacias hidrográficas