5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.4 Repensando a paternidade: o pai amigo
Estudos de Gomes e Resende69 reforçam que a paternidade está em transformação, transita entre valores novos, como o pai que acolhe seus filhos, e valores tradicionais. Para Wang, Jablonski e Magalhães62, o homem tem sido levado a refletir sobre suas necessidades individuais para além dos estereótipos instituídos pela lógica patriarcal, revendo seus próprios limites e obrigações, passando a repensar sua própria identidade.
Algumas falas podem representar a aproximação destas mudanças vivenciadas pelos pais. A maioria dos participantes do estudo tinha outros filhos além do lactente que compareceu ao teste, sendo assim, nas falas que se seguem, nota-se a preocupação deles em relação ao filho mais velho:
“[...] Ainda mais agora com a bebezinha, a atenção dobra mais ainda, e pela outra [filha] também, a outra [filha] ficou ciumenta... Tenho que ficar mais com a outra do que com essa [bebê], a outra ficou muito ciumenta.” (João)
“Ah, eu participo bastante, eu acho. Eu participo bastante no que tem que fazer, em relação aos meus filhos. Com o bebê já é um pouco diferente, é mais com a mãe, porque quando ela tá com o bebê, eu fico com o [filho] mais velho. Ah, eu ajudo bastante, brinco bastante com ele, levo pra passear, quando a mãe não pode ir eu levo, também converso com ele, [pergunto] como foi a escola...” (Roberto)
“E agora minha menina também, tem cinco anos, então eu procuro dar mais atenção pra ela, porque ela é uma criança, então não entende muito ainda, ela sabe que está faltando carinho pra ela, que vai dar atenção para o pequenininho, porque ele precisa mais de cuidados. Então, quando eu estou em casa, eu sempre procuro levar ela pra brincar, sempre procuro estar mais junto com ela, entendeu? [...] Então sempre quando estou em casa eu tento pegar ela e brincar,
passear com ela, conversar com ela. Então eu estou muito mais junto dela...” (Pedro)
Os três relatos demonstram que os pais estão atentos às necessidades (conversar, dar carinho e brincar) dos filhos mais velhos, frente à chegada do bebê. Ao encontro disso, verifica-se que os pais tem buscado manter um relacionamento mais próximo com os filhos, mostrando-se preocupados com o futuro deles e julgam que manter o diálogo é a forma de prevenir os problemas no futuro:
“[...] eu não quero que meu filho amanhã seja um drogado, eu não quero visitar meu filho na cadeia [...] Então eu penso que tem que conversar bastante, então eu vou ter que estar sempre junto, vou ter que saber quem são os amigos, pra ele não desviar do caminho certo.” (Roberto)
“Tem muitos pais hoje em dia, pai e mãe, que assim, vê as crianças que se perde em droga, no mundo, cai em bebedeira. Porque assim, [tem que] se conversa com os filhos, [tem que] dar um bom exemplo.” (José)
Diante do que expuseram, observa-se, principalmente, a preocupação em relação à educação dos filhos. Reportando às considerações de Freitas et al:
Em síntese, vislumbram-se mudanças de paradigma. Alguns homens começam a se preocupar em paternar o filho, acompanhando seu crescimento e desenvolvimento de modo mais próximo, realizando cuidados socialmente considerados femininos de modo que o provedor afetivo vem emergindo no provedor material. As relações de autoridade vão dando espaço a relações permeadas por afeto e negociações, possibilitando que pais e mães compartilhem os cuidados e estreitem os vínculos afetivos com os filhos, de forma que a paternagem colabora para a ruptura de estereótipos de uma masculinidade insensível e intocável (p. 89)28.
Desse modo, o modelo de paternidade mais envolvida, afetiva e solidária, pode ser vista como um movimento dialético, fazendo com que os homens passem a refletir sobre suas próprias concepções sobre ser pai, levando a (des) construir a paternidade incorporada a partir das relações sociais desde menino, sobretudo com o próprio pai71.
“Às vezes o filho dá um pouco de trabalho, porque quer brincar, aí eu dou um pouco de atenção, porque eu penso nisso, eu não tive pai, meu pai morreu quando eu tinha nove anos, então eu procuro fazer o que
eu não tive, eu procuro dar pro meu filho, na questão de ser pai mesmo, de estar junto, de brincar, porque eu não tive. Quando meu pai morreu, eu senti e não senti a falta dele, porque eu fui sentir a falta dele mesmo quando eu estava com uns trinta e poucos anos. Acho que eu não senti falta porque eu era um adolescente, rebelde, e como ele me batia, me judiava muito, eu não senti muita falta. Acho que eu fiquei um pouco rebelde, aí não pensei muito no meu pai, porque eu sempre tive minha mãe, que é mais carinhosa, brincava, mas meu pai judiava bastante, chegava em casa bêbado e me batia, então não senti muita falta não. Mas agora pensando, se meu pai tivesse vivo, eu talvez teria estudado, eu não teria que ter trabalhado quando era adolescente, talvez eu não tinha feito algumas coisas erradas que eu fiz.” (Roberto)
São neste sentido as ponderações de Gabriel e Dias:
[...] os homens, agora também pais, vislumbram a paternidade exercida pelo próprio pai de maneira diferente de quando eram apenas filhos. As dificuldades que sentem talvez expliquem algumas atitudes tomadas pelo próprio pai, principalmente na sua infância e adolescência. No contexto atual, o filho passa a enxergar o esforço e as boas intenções do pai, ao mesmo tempo em que consegue visualizar o que ele poderia ter feito enquanto pai e não fez. Este aspecto remete ao homem as suas mágoas em relação ao próprio pai, mas oferece, sobretudo, a possibilidade de fazer diferente com o próprio filho (p. 259)72.
Outro depoimento também revela a relação de um participante com seu pai:
“Ah, eu procuro ser muito presente, né [...] hoje eu tento tomar muito como exemplo a convivência com meu pai. Eu fui conversar com meu pai mesmo eu já tinha uns dezesseis anos. Eu tinha medo do meu pai. Naquela época os pais eram rígidos, sempre tive muito medo do meu pai. Então, hoje, é que nem minha esposa fala, eu tento passar para meus filhos totalmente diferente. Nossa, a minha filha se abre demais comigo, às vezes ela vem fazer uma pergunta pra mim que ela não tem coragem de fazer para a mãe dela, entendeu? Então é isso que eu tento passar para eles. E melhorar a gente sempre tenta melhorar, tem que procurar, porque hoje em dia tudo está inovando, né? Molecada, uma nova era, tem que estar tentando acompanhar...” (Márcio)
Os resultados das investigações de Jablonski54 são parecidos com estes dados. Quando questionou seus entrevistados sobre o que fariam de diferente em relação à educação recebida de seus pais, as respostas obtidas foram muito semelhantes aos deste estudo, de que hoje eles
procuram propor maior liberdade e construir uma relação mais amigável e menos severa com os filhos.
Quando Márcio diz que “...a gente sempre tenta melhorar, tem que procurar, porque hoje em dia tudo está inovando, né? Molecada, uma nova era, tem que estar tentando acompanhar...”, logo remete-se ao que Negreiros e Féres-Carneiro63
referem, destacando que o novo-pai e a nova-mãe têm cumprido papéis paradoxais, onde “a “nova” mulher e o “novo” homem precisam se comportar à antiga, disponíveis e atentos para seus pais e avós, que vivem papéis tradicionais de família, e mostrarem-se atualizados e desprendidos diante de seus filhos, que hoje esperam mães e pais mais próximos e amigos.
Diante das falas destes pais, que parecem buscar um distanciamento dos modelos tradicionais de família, principalmente no que se refere o relacionamento e a educação dos filhos, percebe-se que as concepções tradicionais de paternidade vêm cedendo lugar para atitudes de cuidado e envolvimento familiar52.
Para autoras como Schwengber e Silveira73, o “novo” pai tem sido visto como o pai presente – amigo e brincalhão, porém tecem algumas considerações:
Argumentamos que, ao longo das décadas, as mulheres-mães deixam de ser as únicas responsáveis pelos/as filhos/as; ao ganharem companheiros, passam a ser posicionadas como as responsáveis principais pelas crianças. Nesse sentido, destacamos que a escolha do nome “pai-presente” remete ao presente que é para a mãe (e para a criança) ter esse pai, quase como se fosse uma “sorte” ter com quem dividir a responsabilidade de cuidar e educar as crianças. Reafirma-se, dessa maneira, a ideia de que é da mulher a obrigação/responsabilidade do cuidado da prole, e funções e/ou papéis passam a ser significados como masculinos e/ou como femininos. Quando essas funções são redefinidas, esse movimento é apontado, é marcado como novidade (p. 98)73.
Portanto, o pai participativo não pode ser visto como um ponto de chegada, esperado e redentor, pois o ser humano é muito mais complexo e as diferentes posições que assumem respondem a um emaranhado de forças advindas de suas localizações sociais30 e, muitas vezes, a preocupação em estabelecer uma amizade com o filho, pode acabar por desconsiderar outros elementos, como alimentação, higiene, lazer, etc.56, ou seja, o cuidado e envolvimento constante em todos os aspectos.
Apesar disso, há, dentre os participantes, a tentativa de superação do papel de pai exclusivamente de autoridade e provedor da família quando mencionam que através do
envolvimento afetivo e a preocupação com a educação dos filhos, têm experimentado novas possibilidades de exercer a paternidade, de forma mais participativa.
5.5 O papel do homem como coadjuvante na divisão das tarefas domésticas e no