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REPENSANDO O CURRÍCULO DO CURSO DE DIREITO DA UFSC

Poderíamos ter um currículo plural voltado para o multiculturalismo. Ainda, mais que vivemos numa sociedade com várias raças, gêneros, padrões culturais, classe social, entre ou- tros. O importante é possibilitarmos que todas as diferenças culturais sejam contempladas no currículo do curso, por exemplo.

53 De acordo com Canen e Oliveira85, entendemos por multiculturalismo a abordagem que vai além da valorização da diversidade cultural em termos folclóricos, aquela que questi- ona a construção das diferenças e, por conseguinte, dos estereótipos e preconceitos contra aqueles percebidos como diferentes em sociedades desiguais e excludentes.

Por estarmos num curso que têm como base garantir direitos, deve – se questionar e não aceitar qualquer tipo de discriminação e/ou que vozes sejam caladas na sociedade e no universo acadêmico. Porém, há casos como o do jornalista Sérgio Nascimento de Camargo86, que havia sido nomeado para a presidência da Fundação Cultural Palmares – órgão de promo- ção da cultura afro-brasileira, que ao invés dele estar lutando a favor do público que deveria ser protegido pela Fundação, prefere proferir frases racistas e polêmicas nas redes sociais, tais como:

16/08: Não há salvação pro movimento negro. Precisa ser extinto!

Fortalecê-lo é fortalecer a esquerda.

27/08: A escravidão foi terrível, mas benéfica para os descendentes.

Negros do Brasil vivem melhor que os negros da África.

19/11: O Dia da Consciência Negra celebra a escravização de men-

tes negras pela esquerda. Precisa ser abolido.

Isso mostra que no contexto que estamos inseridos, o processo de democratização do ensino, necessita de reformas educacionais para que possamos debater assuntos importantes tais como o que foi relatado pelo jornalista Sérgio Nascimento.

Um primeiro aspecto que podemos descrever se refere ao referencial teórico que poderia ser debatido dentro do currículo, autores como Adilson José Moreira, Djamila Ribeiro, Angela Davis, Aparecida Sueli Carneiro Jacoe, Joaquim Barbosa, Livia Maria Santa e Sant’anna en- tre outros, trazem grandes estudos acerca da temática racial, embora nem todos sejam opera- dores do direito, o que contribui mais para a formação dos professores e estudantes. Além dis- so, deveria também haver debates sobre questões de gênero com autoras feministas e antife- ministas.

85 CANEN, A.; OLIVEIRA, A. M. A. Multiculturalismo e currículo em ação: um estudo de caso. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 21, p. 61-74, 2002. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782002000300006 Acesso em 13 de jan. 2020.

86 _____. Após decisão da Justiça, governo suspende nomeação do presidente da Fundação Palmares. 2019. Dis- ponível em: https://www.ultimasnoticias.inf.br/noticia/apos-decisao-da-justica-governo-suspende-nomeacao-do- presidente-da-fundacao-palmares/ Acesso em 10 de mar. de 2020.

54 Moreira87 no seu artigo Pensando como um negro: Ensaio de hermenêutica jurídica, nos mostra que a figura do jurista negro com a qual ele se identifica compreende o Direito a partir do ponto de vista de um subalterno. Por causa disso, o Direito é interpretado como um sistema que pode ser manipulado para manter a exclusão, mas que também pode promover transformação social. Pensamento este que concordo plenamente, principalmente, quando pa- ramos para observar quantos negros Rafaeis Braga, quantas transexuais Dandaras Kettley existem por aí e que muitas das vezes têm um fim trágico por conta do próprio direito que quer achar um inimigo para aniquilar.

Um segundo aspecto para ser abordado dentro do currículo é aquele que procura for- mar pessoas críticas e que procura reconstruir a história do currículo, das teorias, apontando a prática da profissão, reconhecendo que nossas escolhas são sempre carregadas de valores. Lo- go, observamos a partir disso que, infelizmente, muitas vezes a prática curricular é baseada num saber pronto e acabado em si mesmo, que não possibilita que o aluno seja alguém ativo, apenas reproduza o sistema.

Se refletirmos que as diferentes ciências podem se relacionar e que quando isso acon- tece construímos conhecimentos que são essenciais na aplicação do que chamamos de direito, notamos que estamos diante de uma ciência plural e que dialoga com os problemas de uma sociedade real. Por exemplo, num curso de direito majoritariamente de homem branco, possi- velmente heterossexuais, quando estamos discutindo sobre o Por que o feminismo é tão ne-

cessário, dialogamos também que o feminismo não é o oposto do machismo como muitos

pensam, que o feminismo prega a igualdade de gênero, onde numa sociedade onde mulheres e homens tenham, de fato, os mesmos direitos.

Visto dessa forma a abertura de estudos étnicos, feministas, possibilitaria que as pes- soas se libertassem daquilo que lhe inferiorizou de alguma forma como ser humano. Podemos também relacionar cursos de Filosofia com o Direito, por exemplo. Fanon88 aborda este as- sunto quando nos ensina que: O colonizado é um perseguido que sonha permanentemente tor- nar-se um perseguidor [...] Os colonizados, em sua imensa maioria, querem a fazenda do co- lono. Para eles, não se trata de entrar em competição com o colono. Eles querem o seu lugar.

87 MOREIRA, Adilson José. Pensando como um negro: Ensaio de hermenêutica jurídica. 2017. Disponível em: https://www.indexlaw.org/index.php/rdb/article/view/3182 Acesso em 13 de nov. de 2020.

55 Repensar o currículo proposto é mostrar que existem outras formas de fazer ciência. O currículo possibilita que os contextos, discursos e a vida dos sujeitos estejam envolvidos. Na disciplina de Filosofia do Direito, por exemplo, notamos como o conceito de raça e racismo estão interligados. Ou se pararmos para refletir no sistema penal, colocaríamos como uma dú- vida: Por que a maioria dos encarcerados são pardos, negros? O racismo é parte da ordem so- cial.

Quando incluímos disciplinas focadas nas relações de gênero, raça, diversidade social, mostramos que essa proposta possibilidade a igualdade e a promoção dos direitos humanos. Pensamos que quando um sujeito ensina e o outro aprende, formamos indivíduos que ajudam manter as relações sociais, que compreende o contexto onde se encontra inserido e que se vê dentro desse contexto.

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4 FEMINISMO NEGRO E A LUTA CONTRA O PENSAMENTO DECO-

LONIAL

Sempre fiquei quieta, agora vou falar Se você tem boca, aprende a usar Sei do meu valor, e a cotação é dólar Porque a vida é louca, mano, a vida é louca (Arthur Marques)

Primeiramente, é importante conceituarmos qual a origem e o que seria feminismo ne- gro. Quando nos recordamos do período de escravidão que o Brasil vivenciou, lembramos que de acordo com a história, mulheres negras utilizavam o dinheiro para comprar a alforria de pessoas negras escravizadas. O que nos mostra o poder que as mulheres negras, hoje ances- trais, tinham desde aquela época.

O feminismo negro surgiu a partir da década de 70, de acordo com o Instituto da Mu- lher Negra Geledés89, o Movimento Negro tinha sua face sexista, as relações de gênero funcio- navam como fortes repressoras da autonomia feminina e impediam que as ativistas negras ocu- passem posições de igualdade junto aos homens negros; por outro lado, o Movimento Feminista tinha sua face racista, preterindo as discussões de recorte racial e privilegiando as pautas que contemplavam somente as mulheres brancas.

Por conta disso, houve uma luta das feministas negras em reivindicar seus direitos. Não en- tendo como a cor da pele, gênero de uma pessoa pode impossibilitar que alguém tenha acesso às oportunidades necessárias para uma vida dignificada, como uma vez citou Moreira90.

Neste sentido, é importante mencionarmos também que o feminismo negro, nas palavras do que foi descrito pela página Geledés91, se trata de um movimento social e um segmento protago-

nizado por mulheres negras. Quando pensamos no feminismo, lembramos das lutas dos subordi- nados em se situar dentro de uma condição social específica.

Chimmanda Adichie92, feminista e escritora nigeriana certa vez disse numa palestra que:

Impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é "nkali". É um substantivo que livre- mente se traduz: "ser maior do que o outro". Como nossos mundos econômico e político, histórias também são defi- nidas pelo princípio do "nkali". Como é contada, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo real- mente depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história de outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com "em segundo lugar". Comece uma história com as flechas

89 ___. Feminismo negro: sobre minorias dentro da minoria. 2016. Disponível em:

https://www.geledes.org.br/feminismo-negro-sobre-minorias-dentro-da-minoria/ Acesso em 13 de maio de 2020. 90 MOREIRA, Adilson José. Op. Cit.,p.394.

91 ___. Feminismo negro: sobre minorias dentro da minoria. 2016. Disponível em:

https://www.geledes.org.br/feminismo-negro-sobre-minorias-dentro-da-minoria/ Acesso em 13 de maio de 2020 .

92____. Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história. 2010. Disponível em:

57 dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente.

Assim, relembrar e falar sobre conquistas e lutas das feministas negras, é resgatar momentos que muitas vezes não são contados nos livros. Uma dessa luta feminista pode ser observada em variados artigos da Constituição Federal de 1988, o que mudou radicalmente o status jurídico das mulheres no Brasil.

Com isso o feminismo negro decolonial procurou e ainda procura lutar contra o colonia- lismo e as ditaduras que o mundo estava sendo apresentado. Entendemos também que o femi- nismo transforma as mulheres em sujeitos políticos. Além disso, é importante mencionarmos que é no início do século XIX que acontece no Brasil os primeiros protestos feministas por meio da imprensa feminina, sendo que este foi o mais importante veículo utilizado pelas fe- ministas para disseminar suas ideias.

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