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REPERCUSSÕES DA PERDA PARA O ADOLESCENTE E SEU

VI. DISCUSSÃO

VI.7 REPERCUSSÕES DA PERDA PARA O ADOLESCENTE E SEU

Entre os jovens que participaram deste estudo, R. foi o único que teve dificuldade de falar sobre as repercussões da morte do pai em sua vida, exceto pelo fato de que não podia mais contar com ele para acompanhá-lo ao futebol ou para ajudá-lo com as lições da escola, que agora ele faz sem ajuda de ninguém. Na maior parte do tempo, frisou que nada mudara em sua vida depois que seu pai morreu e, quando perguntado diretamente sobre o assunto, R.

afirmou que tinha pensado muito sobre isso, mas não sabia dizer especificamente o quê.

No entanto, observa-se que muitas das repercussões relatadas pelos adolescentes deste estudo, quanto a sua representação sobre si mesmo, sobre o outro, sobre a vida e o mundo mostram que eles se tornaram mais maduros, mais conscientes de suas responsabilidades e das limitações da vida, embora, em alguns casos, eles tenham revelado dificuldades para confiar na vida e no outro e a tendência a assumirem mais responsabilidades do que lhes compete ou do que seria desejável.

Representações atuais sobre si próprio

J. se revelou bastante exigente e rígido consigo, procurando ser quem ele imagina que seu pai gostaria que ele fosse, mas contando também que, quando percebe que não consegue atingir esse seu objetivo, ele se ressente do fato de o pai não estar presente para aconselhá-lo a agir de forma mais adequada, que parece ser pautada pelos valores que eram do pai.

K. se reconhece chorona e se sente extremamente ameaçada pela possibilidade de vir a perder um de seus entes queridos. Além disso, em vários momentos da entrevista, ela demonstrou insegurança quanto à sua capacidade frente a situações diversas como responder às perguntas da pesquisa, identificar sentimentos que a perda de seu pai possa evocar − no passado ou no presente − ou quanto ao fato de ter ou não amigos.

Diferentemente de K., M. e C. se percebem de forma bastante positiva, especialmente esta. Nesse sentido, M. e C. disseram que precisaram ter muita força para enfrentar a morte do pai, o que lhes demandou amadurecerem mais depressa. Além disso, C. se declarou independente e segura; em certos momentos, um tanto auto-suficiente, aspectos que apareceram no contato comigo.

Representações atuais sobre o outro

A percepção que J. tem do outro é marcada pela desconfiança, visão provavelmente ligada ao fato de seu pai ter sido assassinado, segundo o próprio jovem.

Já K., cujo pai também foi assassinado, também revelou dificuldade para fazer um julgamento apropriado do outro, mas adotou um outro estilo, ao demonstrar que mantém uma imagem idealizada dos pais.

Por outro lado, C. e M. enalteceram a importância de estar junto das pessoas. C.

ressaltou que se empenhava para ter um amplo círculo de contatos, especialmente rapazes, e M. enfatizou que se esforçava para se relacionar melhor com as pessoas, tentando brigar menos, escutar mais, admitir seus erros e não se calar, mas expressar suas idéias.

Representações atuais sobre a vida em geral

Quanto à sua visão do mundo, J. também apresentou uma percepção contaminada pela trágica morte do pai, ao revelar que, na sua opinião, o mundo é violento e pouco confiável, enquanto K. admitiu que só recentemente passou a questionar a morte e a apreender o verdadeiro significado da vulnerabilidade e da finitude do ser humano.

C. disse que, ao perder seu pai, aprendeu que a morte é o limite da vida − o pior que pode lhe acontecer −, o que a fez passar a procurar viver um dia de cada vez e a não se preocupar desnecessariamente, como ela observa que fazem outros jovens quando se desentendem nos namoros ou discutem com os pais “por bobagem”.

M. reconheceu que passou a valorizar mais sua família.

Expectativas sobre o futuro

Com relação a seu futuro, J. anunciou que vai procurar fazer o melhor, na expectativa de que seu pai, de onde estiver, possa ter orgulho dele. Disse também que, quando tiver seus

filhos, vai procurar dar a eles tudo o que não pôde ter, sendo um pai atencioso e fazendo por eles o que for possível, preocupação semelhante à de K., que pretende ter com os filhos uma postura diferente da que sua mãe tem para com ela.

C. e M. manifestaram uma preocupação comum quanto ao futuro: ambas sentem que, por serem órfãs de pai, já não têm o mesmo amparo que teriam se tivessem pai vivo, o que as torna mais responsáveis pelo que venha a lhes acontecer daqui para a frente. Nesse sentido, C.

foi categórica ao afirmar que, quando quiser alguma coisa, precisará lutar para conquistá-la, ao passo que M. frisou a necessidade de planejar e cumprir metas para atingir seus objetivos.

Estruturação familiar atual

As famílias de J., C. e M. puderam se reorganizar de modo a se adaptarem às condições que sobrevieram com a perda de seu provedor, pois, apesar das dificuldades iniciais dessas mães e da madrasta de C., cada uma delas passou a assumir as funções antes exercidas pelo marido, ou as delegou aos filhos, ou as dividiu entre os membros da família, resgatando a funcionalidade do núcleo familiar.

Nesse contexto, parece que, para J., sua irmã representou um modelo não só para o enfrentamento da morte do pai, mas também para a organização da vida, embora ele tenha admitido que sente falta de conversar com alguém do mesmo sexo, que, em alguns assuntos, a seu ver, o entenderia melhor.

Já C. e M. se mostraram dispostas a assumir responsabilidades adicionais às que lhes cabem como filhas, pois a primeira cuida da irmã mais nova, às vezes até mais do que sua madrasta, a mãe da criança, e a segunda parece sentir-se mais responsável pela mãe do que por si mesma.

A situação de K. não é muito diferente, pois ela também passou a sentir responsabilidades que não lhe competiam: mostrou-se excessivamente preocupada com os irmãos e por pouco não assumiu para com eles atribuições que seriam de sua mãe. Entretanto, K. tem uma condição bem diversa da dos demais jovens, vivendo num contexto familiar diferente. Apesar de seus pais terem participado de sua criação, desde pequena ela freqüentemente esteve sob os cuidados dos avós, situação que não se alterou com a morte de seu pai e a poupou de experimentar uma mudança tão intensa em sua organização familiar.

Segundo a jovem, sua mãe sempre teve dificuldade para assumir suas responsabilidades para com os filhos, mas recentemente K. passou a ficar aflita com isso e muitas vezes a sentir-se responsável pelos irmãos e ressentida da ausência do pai, pois acredita que, se ele estivesse

vivo, tudo seria diferente. Talvez K. também fique perturbada com essa situação por sentir-se culpada por ter tido a oportunidade de ser criada também por seus avós maternos, condição que seus irmãos não tiveram.