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A contribuição dos enfermeiros para o alívio do sofrimento físico, emocional e espiritual é fundamental, mas permanece ainda pouco visível (Collière, 1989). Se a intervenção deste estudo - AQT seguir os pressupostos teóricos dos cuidados individualizados (AQT-I), é possível reduzir o sofrimento da pessoa. Tal intervenção pressupõe que sejam mobilizados conhecimentos vários relativos aos processos de vida da pessoa e da doença que a afeta. Além desse conhecimento global é exigida uma intencionalidade terapêutica de modo que os resultados obtidos sejam considerados pelo indivíduo como positivos. Os doentes que foram alvo da intervenção estruturada apresentaram valores iniciais mais baixos nas variáveis resultado avaliadas (sofrimento medido pelo IESSD, distress medido pelo termómetro de distress e da dor).

Apesar das limitações do estudo já apresentadas no capítulo IV, verificamos a importância de os cuidados de enfermagem serem focados nas necessidades e sentimentos da pessoa doente e não exclusivamente na sua doença, como ainda é frequente acontecer. Sobretudo serem realizados sem pressa, como foi o exemplo dos cuidados aplicados na entrevista de admissão, permitindo revelar subtilmente a disponibilidade e interesse assegurando ao doente a sua identidade e o seu valor.

A intervenção desenhada pode entender-se como um guião de ação com benefícios no aumento do bem-estar e da qualidade de vida, utilizando a educação e o suporte do doente durante a AQT-I (Apostolo et al, 2006; Meneses et al, 2007; Vitek et al, 2007; Gil et al, 2004; Sammarco e Konecny, 2008; Skalla e McCoy, 2006). Contudo, consideramos necessária a realização de novos estudos, com amostras maiores e um desenho que contemple a repetição da intervenção mais prolongada no tempo, eventualmente com a primeira avaliação das variáveis resultado efetuada no momento de proposta do tratamento de QT.

Para responder à nossa questão de investigação foi utilizado o IESSD organizado em dimensões obtendo assim um perfil de sofrimento (Gameiro, 1999), podendo num futuro avaliar itens isoladamente, fazendo a leitura daqueles que têm maior expressão no sofrimento na doença.

Encontrámos contributos para a qualidade do exercício profissional dos enfermeiros. Os padrões de qualidade da OE (2012) com enfoque na satisfação do cliente, na promoção da saúde, na prevenção de complicações, no bem-estar e no autocuidado, na readaptação funcional e na organização dos cuidados de enfermagem, são elementos da prática profissional que devem ser investigados a nível institucional e nacional de modo a refinar as práticas em uso.

A adoção de uma atitude centrada nas necessidades da pessoa doente, o estabelecimento de uma relação de parceria com o doente envolvendo a família, os momentos formativos com enfoque nos cuidados individualizados, a prescrição das intervenções contempladas no guia da interação, a continuidade da prestação de cuidados de enfermagem e o empenho na formação por parte dos enfermeiros, revelaram-se aspetos fundamentais na satisfação do doente e da sua família. Também o foi na promoção da saúde e na prevenção de complicações, no bem-estar e auto-cuidado e mesmo na readaptação funcional como um meio para a melhoria da prestação de cuidados e de melhoria do bem-estar da pessoa doente, que foram vertentes do cuidado de enfermagem que salientam as competências dos enfermeiros, nem sempre valorizadas pelos próprios.

Em termos de organização dos cuidados de enfermagem a divulgação da participação dos enfermeiros co investigadores neste estudo consolidou o trabalho de parceria do investigador e sedimentou a confiança para projetos futuros. Esta articulação teoria-exercício profissional na vertente clínica pode ser adotada como o modo natural de docentes e enfermeiros trabalharem em comunhão de saberes. A qualidade dos cuidados prestados pelos enfermeiros que foram alvo de formação em contexto de trabalho permitiu considerá-los como uma referência para a enfermagem daquela instituição, confirmando o papel da investigação como um motor de transformação e promoção de práticas inovadoras.

Verificou-se que os cuidados de enfermagem na AQT não podem ser dicotomizados, defendendo-se a necessidade de um “agir comunicacional”. Esta verdade parecendo muito simples, é uma ambição de trabalho difícil de atingir no quotidiano. O «aqui e agora de cada cuidado» é um lema desejável e a atingir para diminuir o stress no trabalho como expressaram as enfermeiras neste estudo.

Uma consequência e recomendação é a da revisão dos períodos de integração, de modo a que se permita aos enfermeiros menos experientes um domínio

do agir instrumental, procurando-se que com a segurança técnica adquirida o profissional de enfermagem sinta que pode e deve fazer uma abordagem global e integrada do doente.

A construção do guião da intervenção consciencializou os enfermeiros para a importância de conhecer o doente para além da biografia individual e do diagnóstico, pelo que a consciência do campo de competência da enfermagem se alargou. Nos processos formativos em contexto de trabalho existe a preocupação de munir os enfermeiros do domínio instrumental nos vários tipos de procedimentos. Sendo tais requisitos essenciais e decisivos para a possibilidade do enfermeiro se centrar no indivíduo doente, o processo formativo exige uma reflexão sobre os pressupostos teóricos que definem e caracterizam o cuidado de enfermagem. A tomada de consciência pelos enfermeiros da encruzilhada dos três campos relativos: 1- no que diz respeito à pessoa, 2- sua limitação ou doença, 3- os que a rodeiam e meio onde vive (Collière, 1989; Serrano, Costa e Costa, 2011) fez com que os enfermeiros sentissem ter uma competência acrescida. Dispunham de argumentos teóricos que tinham ouvido na formação inicial, de que tomaram consciência agora de modo mais autêntico.

As repercussões do estudo fizeram-se sentir junto dos estudantes de enfermagem. Assim a utilização do método individual foi uma condição básica prévia à intervenção pois permitiu a criação de condições para implementar os princípios do cuidado individualizado (Suhonen et al, 2007) e centrado no cliente. Também os componentes e as intenções terapêuticas (Lopes, 2006) presentes e constantes no guião, desde o momento prévio à intervenção, prolongando-se pelas etapas subsequentes da interação enfermeira-doente, foram modos de estar que os enfermeiros incorporaram, e que verbalizavam junto dos estudantes estagiários de enfermagem. Como a aprendizagem se faz por modelagem esta equipa de enfermagem diferenciou-se positivamente no seu comportamento, sendo alvo de apreço publico por parte da chefia de enfermagem.

Um efeito inesperado para o investigador foi a proposta feita por parte das enfermeiras participantes do estudo sobre o possível uso futuro do guião da interação de enfermagem AQT-I. Com base em consenso alargado a equipa (de co investigadoras) foi sugerido que o formato de grelha poderia constituir um ponto de

partida para uma guia orientador para os enfermeiros recém-licenciados, estudantes de enfermagem, neste e noutros contextos.

Também a prática de cuidados pode ser beneficiada pelo uso do termómetro de distress como 6º sinal vital (Holland e Bultz, 2007). Pela relação positiva encontrada entre o distress e o IESSD, ao aplicarmos o termómetro de distress, garantimos que o sofrimento psicológico, físico, psicossocial e existencial também era acedido, e duma forma imediata com a leitura da escala e da checklist de problemas inerente, o que era favorável ao exercício de práticas mais objetivas e de intervenção mais fundamentada. Sendo o sofrimento algo subjetivo, importa dar-lhe alguma materialização para possível intervenção. À semelhança dos benefícios que trouxe a avaliação da dor, como 5º sinal vital, importa também tornar acessível o termómetro de distress o 6º sinal vital (Holland e Bultz, 2007) de modo que a intervenção junto dos doentes seja mais eficaz por ser metódica e consistente.

Ao nível da formação em enfermagem este estudo salienta a importância da abordagem teórica de conceitos chave com que os enfermeiros se deparam diariamente: sofrimento, distress, dor, cuidado centrado no cliente, e tantos outros. Exige-se uma abordagem teórica com mobilização de recurso a modelos vivos que sensibilizem os estudantes para o erro que é cuidar de forma distanciada e mecânica de alguém que está em sofrimento.

Este estudo, pesem embora os imprevistos inerentes ao modelo dinâmico da prática, beneficiou do longo trabalho de parceria do investigador naquele contexto. Reconhecemos que o nível de qualidade da intervenção desenhada foi favorecido por esse ambiente de parceria. Os estudantes necessitam de enfermeiros modelos no agir que simultaneamente sejam capazes de explicitar as razões conceptuais da sua prática (role-models).

Utilizamos o quadro/estrutura para investigar intervenções complexas do Medical Research Council (Craig et al, 2013) para levar a cabo esta investigação, bem como empregámos os formatos estandardizados para reportar os resultados (Richards et al, 2014) o que consideramos ser pouco frequente nas práticas de investigação em enfermagem. Poucos estudos de enfermagem reportados são experimentais e só parte deste são de intervenções de enfermagem, como garante Richards et al, (2014). Assim ao nível das repercussões da investigação este estudo permitiu-nos confirmar que investigar é a pedra de toque para a evolução das práticas

em cuidados de enfermagem. O envolvimento dos enfermeiros como co investigadores tornou-os parceiros privilegiados favorecendo o seu empenho e garantindo rigor ao estudo.

A utilização de métodos mistos de investigação permitiu otimizar os resultados encontrados e, respeitando uma matriz base na implementação e avaliação da “administração de quimioterapia antineoplásica como intervenção de enfermagem (individualizada) permitiu compreender os diferentes componentes da intervenção. Tendo em conta a complexidade inerente ao contexto e à intervenção de enfermeiros, a organização da investigação em enfermagem deverá ocorrer em programas estruturados e não decorrer exclusivamente da sensibilidade do investigador para os problemas (Richards et al, 2014). Para tal a nível académico / ensino deverão ser estimuladas competências para desenvolver, testar, avaliar e reportar intervenções complexas em enfermagem (Richards et al, 2014).